Tudo nasceu de uma frustração: em Denver, nos Estados Unidos, eu, Callie Wentling, e os meus amigos só sabíamos que uma festa, uma iniciativa comunitária ou a inauguração de uma ciclovia tinham acontecido depois de já ter acontecido. O mesmo se repetia com informações práticas do dia a dia: obras, ruas interditas ou mudanças na rotina só eram percebidas quando já era tarde demais.
Havia camadas invisíveis da cidade, acessíveis apenas a quem conhecia as pessoas certas na hora certa. Um acaso absolutamente aleatório do destino. Foi a partir daqui que nasceu a ideia de um mapa vivo, capaz de ligar informação, território e pessoas.
Estudei Cidades Inteligentes e Sustentáveis e percebi que o projeto podia ter impacto real: ajudar as pessoas a descobrir o que acontece à sua volta e, ao mesmo tempo, gerar informação útil para melhorar o planeamento das cidades, mantendo-nos mais próximos dos… “terceiros espaços” – já ouviu falar?
Os “terceiros espaços“, conceito criado pelo sociólogo Ray Oldenburg, são os locais entre a casa e o trabalho, onde nos encontramos sem agenda nem pressão — cafés, associações, parques, bibliotecas, centros comunitários e de voluntariado, lugares de proximidade e inclusão (repletos de programação) que dão forma à cultura hiperlocal dos bairros onde vivemos ou trabalhamos. Espaços essenciais que são tantas vezes o ponto de partida para a cidadania ativa, para a mudança da cidade a partir de dentro. Mas, mais uma vez, onde estão? Que histórias guardam? Que iniciativas promovem? E onde conseguimos encontrar esta informação?
A partir de hoje, no RUA Map: um mapa vivo de notícias, histórias, iniciativas e alertas apresentados aos utilizadores de forma geolocalizada, para que saibam o que está a acontecer agora (ou amanhã, ou depois) e perto do local onde se encontram (ou vão encontrar).
Um novo canal de comunicação para que o trabalho de meios de comunicação social, como a Mensagem de Lisboa, organizações, associações, cooperativas, grupos comunitários consigam chegar aos cidadãos realmente interessados, graças ao seu algoritmo: aqui a relevância é determinada por critérios geográficos e temporais.
Mas há mais: os membros da comunidade – ou seja, todos os cidadãos – podem submeter informação relevante. Querem promover uma troca de roupa em segunda mão? Promover um passeio de vizinhos pelo bairro? Criar petições ou agilizar pontos de partida e chegada de manifestações? Força! Faça-o aqui. A nossa equipa vai rever e submeter.

A história da RUA
Estamos todos com sede de comunidade. Queremos pertencer, conversar cara a cara, trocar ideias e ouvir. Queremos participar, unir esforços, fazer acontecer. Mas onde? Com quem? Não sabemos onde encontrar as pessoas ou os projetos, organizações, instituições e grupos que precisam de apoio. Sentimos falta do contacto humano de verdade. Entre redes sociais, jogos e fóruns, produtos que prometem ligação permanente, vivemos um paradoxo: estamos sozinhos, reféns de uma realidade moldada por algoritmos. Um desenho que nos separa e polariza, que nos faz perder contacto com o retrato completo do mundo em que vivemos e que, pela dispersão de informação, nos entrega ao desconhecimento do que se passa ao fundo da nossa rua.
Em Portugal, esta urgência ganhou forma no projeto que decidi desenvolver no mestrado em Ciência e Sistemas de Informação Geográfica na Nova IMS. Realizei centenas de entrevistas com cidadãos, organizações, media e instituições, pesquisa que continua até hoje e que sustenta a evolução do RUA Map.
A rede foi ganhando forma e robustez graças aos parceiros que aceitaram o desafio de se juntar ao mapa. A Mensagem de Lisboa foi o primeiro a juntar-se à Rede RUA e ao RUA Map, adotando-o para o seu site, com versão diferente daquela que assumimos a partir de hoje:
O mapeamento de conteúdos é uma novidade no site da Mensagem. Por isso, é natural que uma grande parte das notícias, reportagens, crónicas e anúncios não esteja ainda no mapa. Nem todos os conteúdos serão colocados no mapa. A colocação no mapa dos conteúdos publicados pela Mensagem resulta de um trabalho realizado manualmente e vai decorrer ao longo dos próximos meses, incidindo sobretudo sobre conteúdos em que a georreferenciação seja particularmente pertinente.
Nascemos praticamente em simultâneo, unidos por uma missão comum: contar as histórias de Lisboa, ouvindo a multiplicidade de vozes que fazem a cidade. Os valores do jornal local alinham-se profundamente com os da Rede RUA — compatibilidade visível em projetos que dão palco a grupos normalmente afastados dos media tradicionais, que revelam desertos de notícias, que cruzam línguas e origens e criam espaço para ligações na primeira pessoa. Tem sido, desde o início, uma fonte essencial de aprendizagem, diálogo e inspiração para o nosso trabalho.


Em paralelo, depois da Mensagem de Lisboa, tivemos ainda o voto de confiança para trabalhar com a LUSA na sua agenda para Lisboa e ainda do projeto editorial Lisboa para Pessoas.
A rede tem crescido também através de protagonistas da comunidade, como o Espaço Arroios, o Casulo, a Tasca das Artes, a Gazetta do Bairro, ou projetos como a Upfarming e a Zero Waste Lab, bem como grupos comunitários locais.
E tudo isto é possível graças às pessoas que se têm juntado à equipa: Ricardo Cosme na Programação, Ana Bernardino na Comunicação, os estudantes da Universidade NOVA que contribuem diariamente para o mapa, sem esquecer a agência de design Phi que, a partir do Porto, tem consolidado a nossa imagem.
Um canal de informação para situações de emergência
O RUA Map é oficialmente lançado hoje, 10 de fevereiro, e nasce como ferramenta com várias arestas por limar. Decidimos não esperar pelo timing perfeito — caso este exista —, empurrados pelas circunstâncias atuais que carecem de ação imediata.
Embora o objetivo inicial passasse por focarmos o lançamento na cidade de Lisboa, a situação em alguns concelhos levou-nos a expandir as fronteiras e mapear, ao longo do último fim de semana, os pontos principais de entrega de bens e voluntariado na região de Leiria.
As tempestades que devastaram vários concelhos em Portugal nas últimas semanas tornaram a relação informação-cidadãos ainda mais urgente. Quando casas ficam destruídas, comunidades inteiras precisam de apoio imediato, cada minuto conta. Os pedidos de ajuda surgem rapidamente, mas perdem-se em dezenas de páginas de Facebook, grupos de WhatsApp e sites institucionais.
Quem precisa de quê? Onde? Como ajudar? Que estradas estão transitáveis? A vontade está lá, mas a ponte entre quem quer ajudar e quem precisa de ajuda é frágil e corre o risco de gerar entropia.
Ainda que, segundo dados do Eurostat, apenas 7% da população portuguesa participe em atividades de cidadania ativa, tudo indica que esta falta de participação se deva à ausência de informação, como refere José Carlos Mota, professor e investigador da Universidade de Aveiro e também cronista na Mensagem, numa grande reportagem da SIC. A mobilização dos portugueses face aos desastres em Vieira de Leiria, Marinha Grande ou Álcacer do Sal refletem isso mesmo.
Por último, é importante referir que não somos um produto: somos uma ferramenta gratuita e em constante evolução. Queremos ouvir quem trabalha no terreno (associações de bairro, voluntários, pequenos negócios, instituições) e saber o que falta, o que funciona mal e o que melhorar. Porque o RUA Map não é nosso — é da comunidade. É teu. É contigo que queremos construí-lo e melhorá-lo.
Por isso, entra, explora, participa. E se tiveres sugestões, críticas, ideias ou quiseres ser nosso parceiro, escreve-nos para info@rederua.pt.
Esta crónica foi escrita em parceria com Ana Bernardino, da equipa do RUA Map

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