Dizem que há um momento certo para tudo e talvez tu conheças a melhor versão da expressão: enquanto chegavas, dois homens partiam ao além que nos foi dado a acreditar que existe. Tu, a portuguesa que encontrava pela primeira vez aquele canto do Índico que pouco chegou nas aulas de história e eles, os que encontravam o fim nos acasos da narrativa fatídica de um país que entre a felicidade das coisas simples, ferre-se nas pequenas fricções. Eles, os mortos da Joaquim Chissano, tu, a portuguesa que foi se instalar entre Julius Nyerere e a 24 de Julho.

Ainda a cidade não se havia apresentado, as acácias não floriram naquele outubro de 2024 e tu já tinhas um endereço fixo. Faltaram os habituais sorrisos e abraços a quem chega, fazendo o jus ao «maningue nice» das nossas boas vindas. Olhando agora com uma certa distância, naqueles dias éramos privilegiados a ter a cidade sossegada, enquanto do outro lado cantava-se o hino da revolta. Duas Polanas, duas cidades, Polana Cimento, Polana Caniço. O silêncio escancarado e a apoteose da angústia. Estou a apropriar-me dos títulos dos livros de Rui Nogar e Sangare Okapi. É assim que os livros me encantam, desde que os descobri, na adolescência. 

Os livros foram o maior acaso da minha vida. Cá estamos nós a dizer-nos um pouco de tudo, quase todos os dias, como colegas de trabalhos que depois vão aos after works, da Rua de Bagamoyo ou da Rua do Alecrim. E depois lanchamos com um Kebab, ou com as badjias, do oriente das especiarias. Não invocarei o frango a zambeziana, de que sei que não te esquecerás, por razões que remeto a ti a responsabilidade de contares.

Em matéria de chegar a esta cidade já sabes que sou das madrugadas. Matola é que é distante, Maputo sempre foi ao virar da esquina. E foi assim que quando nos conhecemos já cá andavas de havaianas e os pneus ardiam para povoar as tuas memórias. 

Se te contasse que quando criança, a festa de fim do ano era iluminada por um pneu a arder, e explosões de fogos de artifícios artesanais que muitos dedos custaram aos rapazes que tanto queria que fossem meus amigos – que eu era um nerd, não servia para o artesanato, nem para queimar pneus ao pai natal, tão pouco subir as mangueiras ou trepar paredes. Estranho por isso me foi que a portuguesa que morava no lado formal da cidade, um apartamento no Polana Shopping, metida em calções e chinelos pipocas, com o calcanhar a roçar o chão, fosse mais dada à contrarregra e a transgressão. A entrada na Vila Algarve de que te referes é disso exemplo. 

Num país de recolheres obrigatórios aprendidos antes da COVID-19, enraizados nos silêncios do muito que já se viveu, e na tentativa de deixar apodrecer as memórias dolorosas, já se vê porque se preferiu erguer um muro que vedasse o acesso ao anfiteatro dos horrores da PIDE. São muros que vedam o acesso, mas não impedem que se veja quase como um esplendor, aquele belo arquitectónico que se recusa a transformar-se em pó, antes alia-se às árvores que prosperaram nas alturas sobre o cimento.

Por falar em alturas, partilho o pesar das companhias há muito falecidas. Vieste tu ressuscitá-los. Já cá esteve Saramago, mas eu era criança. Eugénio Lisboa, Lídia Jorge, Glória de Sant’Anna, Zeca Afonso, todos andaram por aqui e eu, decerto não era um plano, nem como filho, nem como cidadão de um país. Porque os filhos, aqui, não se planeiam, eles surgem. De tal forma que sou o décimo segundo filho e não conheci a juventude dos meus pais. Antes o silêncio de um velho que trazia sempre jornais em casa e impunha a leitura obrigatória às notícias, a resolução de quebra-cabeças, completar as palavras soltas e responder as advinhas. A hora do telejornal era o pior momento da vida – mal podia eu imaginar que depois haveria uma noite de natal em que seria obrigado a andar com uma catana pelas ruas à caça de 1.500 reclusos fugidos da cadeia de máxima segurança.

O telejornal, dizia, virava uma prova oral, tinha de memorizar tudo o que se passava, os nomes, os cargos, os dizeres. Confesso que a narração dos jornalistas era de um absurdo que punha-me os ouvidos a dançar de tontos. Aquela língua portuguesa, não era a que eu falava, nem as gentes do bairro no dia-a-dia. Era carregado de palavras enroladas de um dicionário português que não chegava às nossas escolas, tampouco nas estantes das nossas casas. Por fim, fiquei-me pela leitura. O jornal foi o meu primeiro livro.

O que gosto nestas línguas portuguesas é a beleza de frases como vejo-te a língua à solta e de repente és um soneto à Afrodite Anadiómena, numa poética que causa comichão ao músculo no pericárdio. E com a mesma beleza, damos nomes como my love às carrinhas que transportam carga humana ou então dizemos em épocas festivas, estou a pedir boas festas. Ou, assim, quando eu for a Lisboa, a visitar-te e tu não estiveres, enviar-te uma mensagem a informar: fui à tua casa e te encontrei enquanto não estavas.


Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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