
Morador do Seixal há mais de 50 anos, Domingos Fernandes já é considerado um património da Quinta da Princesa, bairro social da freguesia de Amora. Onde houver uma pessoa a precisar de ajuda, lá estará ele, com um sorriso discreto e uma palavra de ânimo.
Organiza festas populares, aproxima os vizinhos e é um participante incansável em todos os projetos da comunidade. Mas um deles, o Hortas Urbanas Quinta da Princesa, guarda em si uma simbologia especial. Ali, a terra deixou de ser apenas chão esquecido para se tornar lugar de encontro, de dignidade e de mudança.


Domingos cultiva há anos o hábito da sementeira, mas conta, com algum pesar, que no início regava a horta com água de esgoto. Não por descuido, mas por necessidade. Era o que havia em tempos de escassez. Sentia receio, mas manteve a fé num futuro diferente e sonhava com o verde a nascer num cenário menos hostil.

Com a ajuda do projeto, recebeu água limpa e um pedaço de terra que, ao ser bem tratado, retribuiu em colheita: alface, tomate, couve e feijão-frade enchem hoje de saúde o prato da família. Entre o seu canteiro e o dos amigos do bairro, dispostos lado a lado, não há cercas altas, nem portões trancados. Todos aprendem e ensinam, partilham o espaço, a escuta, os saberes e as histórias do dia a dia.
Quando um não pode ir tratar da lavoura, há sempre alguém disponível.
O apoio mútuo funciona tão bem que sobra tempo para Domingos praticar outra das suas grandes paixões: o piano. O interesse pelo instrumento vem desde a infância em Cabo Verde, quando, sentado nos bancos de madeira da igreja, se deixava encantar pelo som que ecoava no ar entre o murmúrio das preces.
Aos 72 anos, faz parte da Orquestra Ligeira Horizonte, que reúne moradores da Quinta da Princesa com o mesmo gosto pela música. O grupo já realizou, inclusive, algumas apresentações públicas. E é no toque das teclas que o homem de cabelos brancos se encontra com o menino que foi outrora, tendo finalmente a oportunidade de dar forma às canções que ficaram guardadas na memória.
Domingos prova que o fascínio por aprender permanece intacto. Entre o trabalho da terra e a delicadeza da música, entre o solo que alimenta o corpo e a sinfonia que alimenta a alma, ele sente-se inteiro, ajudando a tornar mais belo e mais sensível o mundo à sua volta.
Esta história faz parte da revista Histórias de Esperança, do projeto Comunidades em Ação, editada pela Área Metropolitana de Lisboa, curada, escrita e fotografada pela Mensagem de Lisboa.


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