A Brasileira do Chiado faz 120 anos. E como todas as coisas vivas e fundas, esse tanto tempo está cheio de coincidências.
Desencantemos uma. Há um século exato, 1925, o café ganhou uma coleção extraordinária de quadros. E o lugar, então conhecido por “Largo dos Galegos”, porque se encontravam lá os mais pobres dos trabalhadores – vendiam bilhas de água e transportavam bagagens pesadas – esse lugar modesto, ganhou uma estátua.
Ao mesmo tempo, café e lugar.
Em novembro de 1925, o café, frequentado por artistas, abrilhantou o negócio com quadros dos seus clientes, transformados seus artistas – Almada, António Soares, Jorge Barradas, Bernardo Marques, Pacheko, Stuart…
Um café-museu. No fundo, também negócio, palavra que quer dizer o mesmo, isto é, falta de ócio.
E em dezembro, também o lugar se transformou. O poeta António Ribeiro Chiado, desconhecido, mas lenda popular no bairro, deu nome uma estátua. No pedestal, sentadinho numa cadeira, ele debruça-se e fala com quem passa.
Foi há um exato século e o Chiado e A Brasileira assim continuam hoje. O lugar com a antiga estátua; e o café com novos quadros.

Ambos, ícones da cidade. Ou melhor, juntos, a mesma marca grandiosa. Permitam-me algumas perguntas, porque o jornalismo deve alimentar-se de pormenores e pessoas simples.
Por isso, lembro o poema “Perguntas a um Operário Letrado”, de Bertold Brechet e de 1935, de tempos terríveis, para perguntas simples.
São versos que conduzem a uma pergunta. Só cito alguns:
“Quem construiu Tebas, a das sete portas/ Nos livros vem o nome dos reis/
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
(…)
Babilónia, tantas vezes destruída…/
Quem outras tantas a reconstruiu?
(…)
O jovem Alexandre conquistou as Índias/
Sozinho?
(…)
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
(…)
Quando a sua armada se afundou / Filipe de Espanha chorou.
E ninguém mais?”
Trago para aqui este poema célebre, porque também quero falar de um homem simples. E homem deste lugar, do café A Brasileira e também do Chiado.
Ele foi empregado de mesa de A Brasileira.
O nome que nos ficou dele foi “João Franco”. Assim chamado porque se parecia com um polémico político da última década da Monarquia.
De facto, ele chamava-se Manuel Maria Queimadelos y Vieitez, galego.
O nosso João Franco, cidadão lisboeta e galego, como os seus patrícios do antigo Largo dos Galegos, ali em frente de que falámos há pouco.
Já voltaremos a ele – e talvez descubramos, no homem simples, um símbolo maior da história, mais que centenária, da Brasileira do Chiado.

Em 1940, a Europa vivia uma tragédia. Quase toda ela estava ocupada pelas tropas nazis e o último porto de onde se podia fugir para o Resto do Mundo – era Lisboa. Portugal encheu-se de refugiados e isso não era mero susto: para dezenas de milhares pessoas foi mesmo a porta de saída que as salvou da morte.
Em Janeiro de 1941, o médico Augusto d’Esaguy saiu do seu consultório num 2.º andar da Rua Garrett e foi tomar a bica habitual na vizinha A Brasileira. Frequentava-a há décadas, desde os tempos da revista Orpheu, com os seus amigos Pessoa, Almada, António Ferro…
Depois da bica, Esaguy deu uma entrevista ao Mundo Gráfico, publicação que, durante a II Guerra Mundial, era pró-Aliada e anti-nazi.
O médico era o principal contacto português da Joint, organização judia americana que recebia os refugiados em Lisboa e os ajudava a arranjar vistos e navios para fugirem.
Na entrevista, Esaguy contou que ele próprio ia embarcar para Nova Iorque, para levar as fotos de um fotógrafo – o francês Roger Kahan – que recolheu os mais comoventes testemunhos do desespero dos refugiados judeus em Portugal.
De facto, semanas depois, Augusto d’Esaguy desembarcou em Nova Iorque. E as fotos de Kahan foram entregues a quem devia e elas ajudaram a que os Estados Unidos, que ainda não tinham entrado em guerra, mudassem a sua política de recusar vistos aos judeus.
Em Outubro de 1941, o Diário de Lisboa publicou uma estranha crónica assinada por Esaguy, enviada de Nova Iorque.
Escrevia ele que estava num bairro de Manhattan, no Café Royal, de artistas, escritores e gente de teatro de vanguarda.

E, ali, reparou “num velho criado que conhece todos os clientes”. Intelectuais com quem discutia os livros deles e as suas obras. E Esaguy rematava: “Como o nosso João Franco da Brasileira do Chiado.”
Quer dizer, nas vésperas da entrada da América na guerra, um protagonista de um gesto glorioso de que Lisboa tanto se devia orgulhar, lembrou o empregado de mesa João Franco.
Mero exagero de um exilado, roído de saudades? Olhem que não, João Franco já marcara a cidade.
No mesmo ano da crónica ser publicada no DL (15-10-1941), o mesmo jornal já em janeiro publicara outra crónica de um sábio, o linguista Albino Lapa, que recolhia o calão dos cafés lisboetas.
Esse texto acabava com “rádio-ativo”, um tónico de café, “emoliente”, um carioca, e “giratório”, café feito com água da Pedras Salgadas. E dizia Lapa, “estes três exemplos são da autoria do popular João Franco da Brasileira do Chiado.” O dicionário iria ser publicado em 1959, prefaciado por Aquilino Ribeiro.

Mas voltando à crónica longínqua de Esaguy: “Quando o Nyassa chegou ao porto Nova Iorque, fui a bordo encharcar-me com a giratória morna, estranha bebida do João Franco. Quando regressei a casa, ouvi, pela primeira vez, a rádio portuguesa: – a Beatriz Costa, em disco, na Marcha de Benfica. Foi uma alegria que ia estourando comigo.”
Muitos anos antes, em 1928, já João Franco era lembrado pelos seus clientes – Teixeira de Pascoaes, Matos Sequeira, Jorge Barradas, Joshua Benoliel, Amarelhe desenhava-o… Amizade recíproca.
João Franco tinha uma enorme estima por Almada Negreiros, cliente crónico da Brasileira.
Quando este se instalou em Madrid, em 1927, não havia dia que João Franco não dissesse: “Quanto daria agora o senhor Almada por um cafezinho da Brasileira!”
Até que, em Junho de 1928, um tertuliano da Brasileira chegou-se ao pé do velho empregado e disse: “Oh! João, e se fosses mesmo servir um cafezinho da Brasileira ao senhor Almada a Madrid?”
Dito e feito. Poucos dias depois, há quase um século, aterrava em Madrid um avião Junkers, transportando João Franco, recebido no aeroporto, por vários artistas espanhóis e portugueses.
Nessa noite, João Franco serviu o “cafezinho da Brasileira” ao amigo Almada Negreiros na Granja del Henar, café madrileno, fraterno do café do Chiado…
A história teve grande destaque nos jornais espanhóis e o Diário de Lisboa titulou várias crónicas: “Um café com asas”, “Lisboa-Madrid em cafeteira”… Reinaldo Ferrreira, o célebre Repórter X, fez uma crónica para o portuense Primeiro de Janeiro. Almada fez mais um desenho do amigo e da cafeteira.
Galego lisboeta, homem simples e de bandeja, João Franco foi herói de passagem no Café Granja del Henar, na Calle Alcalá, Madrid. Não era um café qualquer, André Malraux, poucos anos depois, iria dedicar um capítulo inteiro do seu romance A Esperança ao terraço da Granja del Henar. O café teve um papel importante na defesa de Madrid, contra o golpe franquista, durante a Guerra Civil (1936-1939).

Depois o Generalíssimo Francisco Franco ganhou e até podíamos epilogar como tal acontecimento levou ao fecho do Café Granja del Henar. Mas esta crónica é sobre os João Franco que nem Franco são, só por empréstimo. É sobre os João que são Manuel Maria, mas o que importa neles é o que fazem, a bandeja, e tão-pouco damos por eles.
Com todo o respeito e admiração (oh, quanto, por todos eles), e resumindo:
Pessoa poetou, Almada inventou, Benoliel fotografou, Chiado interroga-nos, Esaguy salvou, Matos Sequeira olissipografou, António Ferro organizou, Bernardo Marques pintou – todos foram brilhantes, alguns quase sempre.
Mas pergunto, a todos os letrados que isto leem:
Nunca houve, ali, quem lhes tenha estendido uma bica? Ah, como perdemos tanto por não nos darmos conta dos simples.
Esta crónica foi lida ao vivo, na Mensagem ao Vivo: Especial Chiado e 120 anos d’A Brasileira, a 19 de novembro de 2025. E ilustrada, também ao vivo, por Nuno Saraiva.




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