Quando alguém lhe fala de Setúbal, o mais certo é pensar no Moscatel, nas sardinhas que brilham na brasa, nas tortas de Azeitão, na serra da Arrábida, no velho Bocage, no famoso choco frito. Mas, se for de Setúbal, mesmo de Setúbal, há uma lembrança que vem antes do vinho e da serra: a das Bolachas Piedade, quadradas e estaladiças, adocicadas com erva doce. É a mais antiga bolacha de Portugal. Existe na cidade desde 1855 — são, por isso, 170 anos a sair do forno. E tudo começou com uma Maria.

Maria Arcângela da Piedade. Nome de santa e mãos de pasteleira. Foi ela quem começou a história desta marca no século XIX. Setúbal era, então, um burburinho de peixe, sal e pão. E, entre pregões de rua, apareciam rapazes de tabuleiro ao peito, junta à doca, a vender bolachas às gentes do mar. Eram miúdos que davam voz à cidade, anunciando, sem megafone, um sabor que viria a ficar – embora a forma da bolacha, antes mais espessa, tenha mudado com o tempo. Tão icónicos, que um desses meninos acabou eternizado no logótipo da marca.

A família por trás das famosas bolachas é uma árvore de ramos largos e raízes fundas. Maria teve uma filha, que deu o empurrão comercial. Quatro netas, oito bisnetos — e já há tetranetos. Os homens vendem, as mulheres guardam o segredo da receita – que não está escrita em lado nenhum e da qual só se sabe que leva farinha, açúcar, gordura e erva doce.

“A Bolacha Piedade é mais do que um simples doce, é um símbolo da nossa cidade e da nossa história, passado de geração em geração,” diz Rui Piedade, bisneto de Maria e um guardião da lenda em torno desta espécie de “snack”.

A bolacha que dura o ano inteiro

A história da Bolacha Piedade confunde-se com a de uma outra tradição setubalense, a Feira de Sant’Iago – com quatro séculos, carrosséis a chiar, concertos, cheiro a farturas e, lá ao fundo, o stand da família Piedade. Desde que a bolacha lá chegou, nunca mais saiu. Tornou-se instituição.

A feira volta todos os verões — entre julho e agosto, no Parque de Sant’Iago (nas Manteigadas) — e, com ela, as filas quilométricas de gente com um só propósito: comprar bolachas para o ano inteiro.

Imagem histórica do stand ‘Bolacha Piedade’ na Feira de Sant’Iago, mostrando a tradição setubalense de venda das bolachas. Foto: Facebook Bolacha Piedade

Porquê?

Porque, durante muito tempo, era só ali que se vendia a Bolacha Piedade. “Compro grandes quantidades para durar o ano todo, e consigo porque a bolacha conserva-se perfeitamente, se bem guardada,” conta Manuel Santos, cliente fiel, que fala da bolacha como quem fala de um vinho de guarda.

Vendida a 14 euros o quilo, aguenta um ano inteiro, se guardada como deve ser — num frasco de vidro ou numa caixa de metal, longe do calor, revela a família.

Uma reunião familiar

Um mês antes da feira, começa o rebuliço na Rua do Ligeiro, no Bairro da Anunciada, Setúbal. A família toda junta-se na fábrica. “A Feira de Sant’Iago não é só o momento de vender a Bolacha Piedade, é também uma grande reunião familiar, onde nos encontramos, partilhamos histórias e celebramos as nossas raízes,” diz Rui Piedade. Parte da família tira férias do trabalho, para voltar à cozinha.

Há algo de procissão nisso: o forno aceso, o cheiro doce que sobe. E uma família reunida.

Entre eles, costuma estar Luís Tristão, 81 anos, o funcionário mais antigo, casado com uma das netas da fundadora. Foi militar, aprendeu a disciplina antes de aprender o forno. “Há que haver brio e orgulho naquilo que se faz”, afirma, com a certeza de quem moldou a vida como molda a massa — com firmeza e paciência.

A família Piedade reunida em frente ao stand da pastelaria Bolacha Piedade. Foto: Facebook Bolacha Piedade

Em 2004, a feira mudou de sítio — saiu da Avenida Luísa Todi, o coração da cidade, para as Manteigadas, na periferia. E, entretanto, a marca ganhou uma pastelaria física, pela mãos de dois netos e uma bisneta de Maria. A loja existe hoje também na Luísa Todi. A clientela não faltou — a pastelaria encheu e a feira continuou cheia.

Desde 2006 há também bolachas Piedade nas prateleiras de alguns hipermercados de Setúbal, Seixal e Almada. Mesmo assim, há quem as veja e desconfie: “Estas não são as da feira”, pensam. E deixam-nas lá. Porque tradição não se compra de impulso.

Setúbal tem muitos símbolos, mas nenhum tão discreto e persistente como esta bolacha quadrada. Viveu o tempo dos pregões, sobreviveu à mudança das ruas, e hoje continua a sair do forno como há 170 anos.

“A Bolacha Piedade é feita com amor por toda a família, que tem sempre orgulho em passar esta paixão às gerações mais novas,” diz Rui Piedade. Em 2002, recebeu a Medalha da Cidade de Setúbal.

Há doces que se comem; outros, contam-se. E a Bolacha Piedade é isso mesmo: uma história com sabor — que não se desfaz no tempo, só na boca.

*Texto editado por Catarina Reis


Diogo Ferreira

Nasceu em Elvas, no coração do Alentejo, e com 2 anos foi viver para Bruxelas, na Bélgica. Embora estude fora do país, a paixão por Portugal e a língua portuguesa é grande. Tendo apenas 16 anos e estando no 11.º ano, ambiciona ser jornalista. Esteve a estagiar na Mensagem de Lisboa, no verão de 2025, ao abrigo de um protocolo com a Escola Europeia de Bruxelas.

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