
Eram outros tempos aqueles, um outro Alentejo e uma outra Lisboa. Os anos 60 e 70 do século XX ficaram marcados pelo forte despovoamento das zonas rurais em Portugal, como o Alentejo. Tantos chegaram a Lisboa, em busca de uma vida melhor, com mais oportunidades de trabalho. Esta é também a história de Beatriz Cruz, hoje com 73 anos. Vinda de Odemira, hoje mata as saudades do Alentejo que deixou para trás, cantando-o, em Alcântara, Lisboa. Foi para isso que fez nascer o grupo de cante Alentejano AlCante, em 2015, o Grupo Coral e Etnográfico da Junta de Freguesia de Alcântara.
“Vim para Lisboa com 16 anos. O meu pai faleceu e Odemira não era aquilo que é hoje. Por isso a minha mãe achou que não conseguia dar um bom futuro às suas três filhas e viemos para Lisboa. Portanto, já tenho mais de Lisboa do que do Alentejo, mas as minhas raízes estão lá”, conta.


Foi a vontade de preservar e reavivar essas raízes que levou Beatriz Cruz a pensar na possibilidade de criar um grupo de cante no coração de Alcântara. São 12 homens e 16 mulheres. “Eu e uns amigos, que estão também aqui no AlCante, íamos de passeio até ao Algarve e parámos em Grândola. Foi lá que encontrámos o José Fernandes, o mentor do nosso grupo, falámos com ele sobre a vontade de criar o grupo de cante e a partir daí nunca mais parámos”.
José Fernandes, de 71 anos, repartia a vida entre Grândola e Lisboa, quando foi interpelado pela ideia de criar um grupo de cante alentejano na capital. É assessor de cultura na junta de freguesia de Alcântara e mentor do grupo AlCante, que explica ter uma pegada social extremamente importante no bairro.
“Este grupo surge pela força de alguns alentejanos aqui da freguesia e essa é uma das razões pelas quais vim para cá [junta de Freguesia de Alcântara] trabalhar. Isto une os alentejanos. Para nós, alentejanos, é muito importante ter o cante na diáspora e na cidade. Porque estas pessoas que vieram para Lisboa, que foram obrigadas a vir para Lisboa, porque não tinham trabalho no Alentejo, sentem-se deslocadas e fora do seu ambiente. Mas quando estão a cantar isso não acontece.”

Nascido a 2 de abril de 2015, o AlCante faz já parte da iconografia alcantarense. No dia 6 de janeiro marca já a tradição caminharem pelo bairro que os acolheu para cantarem as janeiras nos estabelecimentos da freguesia. Seja no quartel dos Bombeiros de Santo Amaro ou no Jardim Avelar Brotero, é com carinho que os cantores são recebidos pelas pessoas por quem passam.
Carlos Alves, que trabalha há 17 anos na freguesia de Alcântara, no Instituto Visual Luiz de Camões, expressa com entusiasmo a chegada do grupo à sua loja e admite que é este tipo de iniciativas que permitem manter acesos os laços comunitários no bairro. “Gostamos imenso de os ver. Além de amigos e vizinhos, são também cliente. Temos que nos acarinhar de forma a manter o bairro e as suas tradições vivos.”
A associação cultural e recreativa AlCante tem já 60 sócios, conta José Fernandes, e está aberta a todos os interessados – alentejanos, ou não – em cantar ou acompanhar as iniciativas promovidas pelo grupo.
O que o Tejo separa, Alcântara une – numa ponte direta entre Lisboa e o Alentejo.






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Esta reportagem faz parte da “Mensagem Rádio”, um programa que passa quinzenalmente na RDP África (do grupo RTP), à terça e sexta-feira, e em permanência: no site da Mensagem, em rdpafrica.rtp.pt e no Spotify.

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