A música que se ouve mesmo antes de chegar já o denuncia: o Segundo Torrão está por perto. No bairro há um pulsar de diferentes ritmos que invadem as ruas e dão à comunidade um clima de festa, como se não fosse mais um dia normal por aqui. Mas é: a música está nos bares, cafés e casas deste pedaço tão peculiar da Trafaria, vila localizada às margens do rio Tejo, em Almada. E um grupo de rappers está a transformá-la com o que canta.

O ambiente vibrante foi o cenário ideal para que um grupo de adolescentes se unisse para dançar, partilhar canções e também experiências da recente chegada a Portugal. A maioria vinha de países africanos e entregar-se aos passos de kuduro e kizomba era uma forma de suavizar a saudade e honrar as raízes de uma cultura ainda viva em cada um deles. 

Mais de uma década depois, a parceria permanece forte. Mário King, Sessa e GK fizeram da paixão pela arte um projeto que ganhou o respeito e o reconhecimento dos vizinhos. Trouxeram amigos, amigos de amigos, e formaram o 2T/2825, que tem no nome uma referência ao Segundo Torrão e ao código postal da localidade, mas que informalmente ficou conhecido por “Gueto Family”.

Aqueles tempos deram lugar a uma proposta mais madura: escolheram o rap como instrumento de intervenção social, organizaram-se como um coletivo e hoje levam às novas gerações perspectivas diferentes daquelas que encontraram há alguns anos.

YouTube video

Palavras que transformam

Nas letras deles, há mensagens que reforçam a identidade local e denunciam os problemas quotidianos. Além do contexto de pobreza, de baixos salários, de carência alimentar, o local enfrenta um desafio bastante particular: o processo de realojamento de famílias, que ali fizeram casas de autoconstrução, e a demolição dessas casas sob risco de inundação, sobretudo em alturas de maré cheia.

Mário King, um dos fundadores da “Gueto Family”, conta que a situação gera inseguranças e incertezas em relação ao futuro dos moradores. E adianta que o assunto, tão presente na rotina de todos, será tema das próximas produções dos rappers.

“Toda a favela precisa de um porta-voz para ser entendida. E nós há muito tempo que não somos entendidos. As pessoas de fora é que falam de nós. Falam quem nós somos. Chega de contarem a nossa história”, afirma.

Mário King. Foto: Rita Ansone

E esta história vem sendo contada – e cantada – por eles com cada vez mais sucesso nos videoclipes publicados no YouTube. Além do rap, o projeto trouxe ainda aulas de dança e serigrafia. Crianças, adolescentes e jovens adultos reúnem-se para estampar com orgulho as t-shirts, casacos, fatos de treino e outras roupas com o símbolo do grupo e, assim, constroem uma identidade visual que reforça a sensação de pertença e  representatividade.

A vontade de romper o estigma criado sobre a região é, aliás, uma das principais motivações de King.

“Há pessoas que têm medo de vir ao Torrão. Pensam que é violento. Eu estou aqui. Sou cozinheiro de profissão, trabalho na pesca, faço música. Eu trabalho com tudo. A gente não vende droga, não vende roubo. É o que tentamos passar: nunca foi fácil, sempre foi difícil. Mas, se estamos em vida, tudo é possível”, diz o artista angolano.

Para Gerilsom Cabral Fernandes, o GK, cantar é um refúgio que o faz esquecer por alguns instantes dos problemas lá de fora. Vindo de São Tomé e Príncipe, conheceu bem o transtorno de buscar longe de casa as oportunidades que sempre deveria ter tido. Foram muitos altos e baixos. A mãe partiu de África em busca de condições mais favoráveis para a família. O pai ficou responsável pelos oito filhos. E o reconhecimento pelo empenho dos dois virou estímulo para que nunca desistisse. 

Hoje, ele acompanha os passos da equipa que ajudou a criar e comemora cada conquista. “A nossa mensagem nunca vai fugir da realidade. Tínhamos muitos talentos desperdiçados que só precisavam de um empurrão. Acreditamos neles e estamos lá a dar esta força.”

Uma comunidade guardada entre o Tejo e o mar

A Associação Cultural Canto do Curió é uma parceira importante que ajuda na logística das reuniões e na captação de recursos do projeto. Para João Cão Duarte, membro da entidade, a densidade populacional e o sentimento de partilha entre os vizinhos garantem uma dinâmica familiar. Tudo isto aliado à beleza natural, com a floresta e as dunas que repousam na margem sul do Estuário do Tejo, diante do mar.

Na opinião do ativista, que acompanha a zona há cerca de dez anos, a cultura é uma ferramenta importante de autoafirmação. “A expressão pelo rap e hip hop é a maneira mais imediata de ter um entendimento do que se passa a este nível comunitário, perante a desinformação e injúria que lugares como este bairro sofrem perante os decisores políticos e os media de massa”, afirma.

O morador Cláudio Killamo concorda. Ele é pintor, pescador e, sempre que pode, junta-se aos colegas para fazer música. Vão a concertos a imaginar o dia em que possam viver apenas da arte. “É uma inspiração, uma alegria, a frustração sai. O rap é o que tira os jovens do sofrimento. Eu sinto-me em casa. Toda a gente se conhece. Aqui é o gueto, onde a luta nunca acaba, e é isso que nós estamos a fazer”, comenta.

Cláudio Killamo. Foto: Rita Ansone

A cantar, Sessa reinventa o caminho

O angolano Nkaka Bunga Sessa escolheu K4PP4 como nome artístico e é um dos exemplos de quem está a contrariar o destino. Licenciado em Contabilidade pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL), recebeu em 2021 o prémio Jovens Talentos pela atuação no projeto 2T/2825. O concurso, promovido pela Câmara Municipal de Almada, tem como objetivo reconhecer e valorizar a contribuição dos jovens para o concelho.

Embora hoje tenha consciência da responsabilidade do papel de mediador cultural, ele acredita que o grupo só permaneceu unido porque surgiu – e se mantém – de forma espontânea. Os meninos que se encontravam na rua depois da escola para dançar, que andavam uns com os outros e foram criados juntos porque as mães eram amigas, cultivam ainda a leveza da convivência, mesmo a falar de assuntos mais complexos.

Nkaka Bunga Sessa (K4PP4). Foto: Rita Ansone

A Associação de Moradores do Segundo Torrão cede espaço para os encontros, mas a maior parte deles continua a ser a céu aberto, em frente às casas, como faziam antigamente. Não há sede ou estúdio fixo. A produção musical também tem sido uma aprendizagem coletiva, na prática, porque o conhecimento na área não veio de uma formação tradicional, mas do trabalho em equipa. 

E a internet é a ferramenta usada por eles para disseminar conteúdos, que se têm aprimorado gradualmente com o investimento dos rappers. “Eu prefiro gastar 150 euros num videoclipe do que sair à sexta-feira e abrir uma garrafa numa discoteca. Esta é a minha cena”, lembra Sessa.

Ser inspiração para os mais novos é a meta da “Gueto Family”. Sessa explica que as perspectivas são sempre limitadas para os jovens do Segundo Torrão e bairros próximos, como o 1.° Torrão, Madame Faber, Cova do Vapor e outros territórios da zona.

O racismo, por exemplo, é algo que enfrentam desde muito cedo. “As pessoas dizem: ´Isto é se vitimizar´. Não é se vitimizar. É facto, é realidade. Semana a semana, quando apanho o autocarro, tenho que lidar com uma situação menos boa porque um velho é racista, porque ele tem 60, 70, 80 anos e viveu (a Guerra do) Ultramar. É um facto, percebes?”

Sessa acredita que é preciso ter um modelo que sirva de incentivo porque aqui poucos se permitem pensar além daquilo que parece ser uma sentença. “É isto que eu quero mostrar para os putos da zona. Não é só ir trabalhar para as obras ou para o McDonald’s. É ter o direito de sonhar”, conclui.

Sonhar com uma vida como a do rap, com mais ritmo, mais rimas e muito mais poesia.


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