A churrasqueira A Tapada – cujo nome vem da travessa onde se encontra, em Alcântara – não precisa de letreiro. A antiga porta verde, o número 5A dourado e o aroma da brasa que invade a rua são suficientes para atrair os amantes do frango de churrasco do “senhor António” – os que vêm da esquina, os locais de Alcântara… e os que chegam de longe.
Até da China.
Aliás, foram os turistas chineses que viralizaram António e os frangos que aqui vende, no RedNote, a alternativa chinesa ao TikTok. E até lhe deram uma alcunha: “o avô dos frangos” – falam dele como um homem reservado, que prefere manter-se discreto enquanto está a assar os frangos.

Desde então que António tem imensos clientes asiáticos, conta. E tem até uma seleção de molhos de piri piri no balcão, para os que apreciam especialmente o picante. Hoje em dia, os clientes asiáticos habituais pedem o frango por mensagem: “Avô, queria duas doses de frango para as 20h00. Picante!”, escrevem-lhe, como se fosse da família, diretamente em português, traduzindo com o tradutor ou com inteligência artificial, supõe ele.
Entretanto, e apesar de todas as ferramentas disponíveis para comunicar, António aprendeu os números e outras palavras básicas em chinês, para que os seus clientes nem precisem de recorrer ao Google Translate para pedir o frango.
Mas, afinal, qual é o segredo deste frango?

Do Minho para Lisboa
António, de 66 anos, é natural do Minho. Mudou-se ainda jovem para Lisboa, para ficar. Antes de comprar o estabelecimento na Travessa da Tapada, trabalhou durante alguns meses noutra churrasqueira. Aprendeu o ofício principalmente sozinho, com a prática.
Quando comprou este espaço, em 1979, tinha ele 19 anos, já funcionava como churrasqueira há alguns anos e, desde então, manteve-se quase totalmente inalterado. As prateleiras de pedra, o balcão, a montra para a grelha. O espaço, que não chega para mais do que três pessoas, parece ainda mais pequeno com as caixas de batatas fritas à volta – essas, ele compra, não as faz ele próprio; o frango já lhe dá trabalho suficiente – e as pilhas de sacos de papel para takeaway.

António está sempre atrás do balcão, a atender o telefone e a escrever a giz, numa ardósia pendurada na parede. Uma dose e meia, 19h30; três doses, 20h00; meia dose, 20h15.
Uma dose custa entre 9 e 12 euros, meia dose cerca de 5. O preço é calculado ao peso, mas o António nem precisa de usar a balança para saber o valor. Diz que o seu olho já está bem treinado.
Viveu em várias zonas da cidade, mas agora mora a dois passos da sua churrasqueira, em Alcântara. Embora a sua casa seja quase apenas um lugar para dormir, já que, das 9 da manhã às 10 da noite, seis dias por semana, está atrás da sua grelha – com apenas uma pequena pausa para almoçar durante a tarde.
Não é nenhum chef, mas a cozinha é uma paixão. Gosta do trabalho, do espaço, das pessoas que serve. António diz que há clientes que frequentam a churrasqueira A Tapada há 40 anos – os clientes históricos do bairro. Era a isso que o senhor António estava acostumado.
“Gosto do trabalho que tenho, gosto das pessoas, gosto aqui do sítio de Alcântara, é bom.”

Poucos ingredientes secretos, muita prática
Não há grandes segredos para a qualidade do frango do senhor António. Um bom frango grelhado, diz o “avô”, pode levar horas a preparar. Deve ser fresco, cozinhado a temperaturas muito altas e, sobretudo, macio e suculento, nunca seco nem rijo. Ele que diz já nem apreciar frango, de tanto que o comeu ao longo de décadas à grelha. “Já estou enjoado.”
Trata de tudo sozinho: é ele que recebe os frangos, ainda inteiros, prepara-os e deixa.os a marinar no seu “molho especial” — cujos ingredientes não quis revelar. “Fui eu que comecei a fazer os molhos e fui-me aperfeiçoando. Comecei a fazer e devagarinho, devagarinho, devagarinho cheguei ao ponto que está agora.” Tudo para que estejam bem temperados no dia seguinte, antes de irem para a grelha.
A carne demora cerca de 20 minutos a assar depois de estar no fogo, mas é todo o processo e o cuidado envolvente que tornam o seu frango tão especial. Só a preparação da brasa de carvão leva cerca de uma hora e meia, explica António, atando o seu avental preto à cintura, a sua farda.

Churrasqueira Tapada pode encerrar em breve?
O senhor António já pensou várias vezes em reformar-se, mas quando, nos anos 90, deixou a churrasqueira durante alguns anos para gerir outro estabelecimento, um bar, sentia falta de assar frangos.
Preocupa-o o futuro. Não tendo um ajudante e tendo filhos que seguiram carreiras diferentes, se não encontrar alguém que assuma a gestão do estabelecimento, terá de encerrar.
“Se não passar, é mais um negócio antigo que vai à vida.”
Numa Lisboa onde os espaços históricos e tradicionais têm cada vez mais dificuldade em resistir, lugares como a churrasqueira A Tapada são verdadeiros tesouros de história e tradição. Mesmo quando se misturam com a modernidade e se tornam virais nas redes sociais.
*Texto editado por Catarina Reis

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