Estávamos em 2024. A arqueóloga e investigadora do Castelo de São Jorge, Daniela Sebastião, limpava a “pedreira” – o depósito onde as memórias de pedra repousam – quando tropeçou em seis painéis anónimos. “Não fazíamos ideia da dimensão, nem do que era o seu todo”, recorda.
Durante anos , estivemos todos longe de imaginar que, entre os turistas que percorrem diariamente as muralhas e os pavões que lá habitam, dormia um mistério: um relógio solar guardado no lugar conhecido como a pedreira do Castelo.
A peça, um colosso de três metros de altura e largura, é um puzzle de dúvidas. A sua certidão de nascimento é incerta: terá nascido ali ou terá sido um “estrangeiro” trazido nos anos 80, na vaga de embelezamento do Castelo?
As dúvidas que se levantam
Quanto à data do relógio, Daniela diz que é alvo de algum debate entre a equipa de preservação. “O ano do relógio aponta para o ano 1960, mas o número pode ter outra leitura: o 9 aparenta ser um 7, o que sugeria 1760. Ainda assim, a nossa experiência diz-nos que este relógio é mais recente” afirma a investigadora.
O único rasto humano deixado na obra é uma assinatura: “P. Estevão”. Um nome gravado, um artesão que o tempo quase apagou, junto a umas gravações desenhadas do sol e da lua.

A busca por respostas esbarra nas cinzas da própria cidade. Embora a Câmara Municipal de Lisboa seja o guardião dos arquivos, o rasto de muitos documentos perdeu-se num grande incêndio. “Essas lacunas complicam qualquer investigação”, lamenta a arqueóloga.
Tudo o que têm são pequenas e vagas pistas. Como os “adesivos” encontrados no relógio, nos quais parece estarem identificados negativos de um jornal – talvez da época.
E não é só a origem que anda a ocupar as cabeças desta equipa. A própria função do relógio levanta questões: será um relógio funcional ou meramente decorativo? A investigadora acredita que este relógio nunca quis ser um instrumento de precisão, mas sim uma peça de contemplação. Isto por não terem encontrado funções importantes que os relógios solares normalmente apresentam, como inscrições gravadas na pedra, indicando, por exemplo, as latitudes.
Os danos que apresenta indicam que foi retirado de algum sítio, por exemplo, de uma parede.




Como se faz o restauro de um mistério
André Pereira, o conservador encarregue de acordar a peça, recorda que a relação com este mistério começou num estágio universitário no Castelo.
O relógio está de boa saúde, mas dois dos painéis exigem uma cirurgia mais delicada, “muita concentração e experiência prática”. Até porque haverá peças em falta, como o gnômon – a haste do relógio solar que, através da sombra, indica as horas.
O restante trabalho deverá passar por uma limpeza especializada. E, claro, investigação atrás de investigação. “Tentámos fazer o diagnóstico, para analisar qual era o tipo de pedra que ali estava e até o tipo de entalhe, que poderia mostrar se sua gravação era manual ou mecânica”, explica.
Por agora, o relógio solar permanece mudo, uma charada de pedra à espera que a história o decifre. Até lá, quem subir ao miradouro do Castelo pode encontrá-lo, imóvel, a ver as horas passar sem nunca as marcar.
*Texto editado por Catarina Reis

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