“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Conta-nos Dalila Rodrigues, no seu livro Grão Vasco, que durante muito tempo quadros de todo o tipo e feitio, espalhados pelos quatros cantos de Portugal, foram sendo equivocamente atribuídos ao Mestre de Viseu. «Se tem qualidade, deve ser de Vasco Fernandes»: eis o princípio. Trata-se da versão portuguesa de um processo típico na história da arte, que pôde constituir-se devido à falta de rigor na arte da catalogação e à interferência de interesses não-artísticos no mundo da arte.

“Criação dos animais”, de Vasco Fernandes, Museu de Lamego

O que me espanta no caso é apenas a circunstância de este artista, outrora modelo nacional do que significa pintar bem, ser tão desconhecido entre as pessoas da minha geração e das gerações subsequentes. Que lugar ocupa na escola, hoje, Vasco Fernandes, cujos méritos excepcionais foram tantas vezes reconhecidos? Que presença cultural tem a sua obra nos nossos dias, numa época marcada pela preponderância da imagem? 

Quando visitamos o Museu Grão-Vasco, em Viseu, percebemos que não está em causa uma daquelas obras que “fica bem” conhecer, a fim de nos tornarmos jogadores mais competentes de Trivial Pursuit. As telas de Vasco Fernandes são telas vivas; mesmo quando abordam temas para os quais podemos não estar predispostos com todo o entusiasmo de cidadãos do século XXI, falam-nos com a novidade e a força do talento genuíno. O São Pedro sentado no trono e a “Criação dos Animais”, para referir só dois exemplos, manifestam um poder criativo espantoso. 

“Menino Jesus entre os Doutores”, de Cristóvão Figueiredo, MNAA

Se Grão Vasco caiu num ângulo morto das novas gerações, que dizer de outros artistas nacionais do mesmo período ou de períodos próximos? E, no entanto, os trabalhos de pintores como Gaspar Vaz ou Cristóvão de Figueiredo, autor do “Menino Jesus entre os Doutores” exposto no MNAA, não são de desprezar. Gregório Lopes, que terá vivido entre 1490 e 1550, é outro caso muito interessante. 

Pintor régio de D. Manuel e de D. João III, saltam à vista os seus quadros relativos à natividade e a episódios da infância de Cristo. Nas páginas dos manuais especializados é reconhecido a este artista um interesse histórico particular, por ter ainda uma mão nos “valores renascentistas” e outra já no “primeiro maneirismo”. Se quisermos apreciar a sua obra em Lisboa, agora que o MNAA fechou para obras, temos mais um bom motivo para nos dirigirmos ao Mosteiro de S. Vicente de Fora. 

“Apresentação do Menino no Templo”, de Gregório Lopes, Mosteiro de S. Vicente de Fora

O Mosteiro fundado por D. Afonso Henriques, e reconstruído no tempo de Filipe II de Espanha, inclui preciosidades variadas. O panteão real dos Bragança guarda os restos mortais de uma família decisiva na história de Portugal. A sacristia mandada construir por D. João V enche-nos o olho, com a tela de André Gonçalves ao fundo, as ossadas de cavaleiros das Segundas Cruzadas sob o pavimento e os mármores polícromos embutidos a toda a volta. O órgão barroco da Igreja, que ainda anima missas e concertos com periodicidade regular, é um dos maiores e mais bem preservados do país, com 2827 tubos labiais. E, no piso superior, podemos admirar 38 grandes painéis de azulejos, do século XVIII, que recriam fábulas de La Fontaine.

Com um recheio destes, não se pode dizer que a colecção de pintura se destaca. Mas o tecto “trompe-l’œil” de Vincenzo Baccherelli, uma representação surpreendente de Santa Apolónia, Santa Úrsula e Santa Margarida e um quadro de Gregório Lopes, “Apresentação do Menino no Templo”, são obras que vale a pena conhecer. Este último quadro terá sido encomendado por D. Jorge de Barros para a Igreja de Santa Iria da Azóia, primeira casa da pintura que hoje encontramos no Mosteiro de S. Vicente de Fora.

O episódio representado corresponde ao cumprimento, por parte da família de Nazaré, de um ritual comum entre os judeus, mas São Lucas realça dois encontros significativos: com Ana e com Simeão, velhos piedosos que, ao verem o bebé, reconheceram o Messias de Israel. A profetisa Ana aparece no quadro de Gregório Lopes ao lado de Maria; Simeão é o homem de barbas sábias de frente para Jesus. Estudiosos do quadro fazem notar que o pintor misturou elementos associados ao episódio bíblico com elementos associados à festa de Nossa Senhora das Candeias. Em vez das duas pombas habituais neste tipo de representação, vemos quinze moedas alusivas à dita festa, além de três velas acesas nas costas de Maria.

Para lá destes e doutros pormenores, há duas qualidades que me agradam no quadro. A primeira, visível também nos trabalhos de Grão Vasco, prende-se com a riqueza do cenário, com a sofisticação das indumentárias, com a precisão da escolha de cores e da ilusão de relevo, com o aparato de estilo renascentista que enche de dignidade toda a tela. É a enésima prova de que a verosimilhança histórica não conta muito para o êxito estético… A segunda qualidade a sublinhar prende-se com o jeito de Gregório Lopes para libertar a cena bíblica daquela rigidez que tantas vezes asfixia a arte sacra. 

“Sagrada família del pajarito”, de Esteban Murillo, Museu do Prado

De facto, os pintores de cenas religiosas parecem demasiadas vezes esmagados pela sacralidade do tema, incapazes, no respeito pelas regras formais, de deixar espaço para a vida que querem celebrar. Há, porém, algumas representações – como a “Sagrada Família com passarinho” de Murillo – de onde brotam sinais da vida em abundância aludida por Cristo. A “Apresentação do Menino no Templo” de Gregório Lopes pertence a este selecto grupo. Veja-se a figura luminosa de Maria. Veja-se sobretudo o Menino Jesus que, deixando os profetas profetizar, entretém-se encantadoramente a brincar com as mãos de Ana.

Com o apoio de

Simão Lucas Pires

Simão Lucas Pires nasceu em Lisboa, em 1990. Concluiu o mestrado em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e tem estudado sobretudo o pensamento de Blaise Pascal — em particular as reflexões acerca da extraordinária aspiração dos homens e da extraordinária incompetência para lhes dar resposta. A Trombeta Vaga é o seu primeiro livro.

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