Pode dizer-se que a luz de Lisboa é única, mas para os investigadores de astrofísica essa mesma luz é um véu: a poluição luminosa da cidade torna a observação detalhada do Sol um desafio quase impossível. Tentar fazê-lo a partir da capital seria como tirar uma fotografia com o telemóvel contra a luz: o excesso de brilho tornaria tudo negro. Mas isso não travou a ambição de uma equipa de 12 investigadores que, liderados a partir de Lisboa, construíram o primeiro telescópio solar com bandeira 100% portuguesa, a caminho do deserto do Atacama, no Chile. Chama-se POET – Paranal Solar Espresso Telescope – assim mesmo, com nome de poeta.

Há um “ruído” frequente, causado pelas próprias estrelas, que torna urgente estudar mais e melhor o Sol. “Vamos utilizá-lo como a nossa cobaia para conseguir interpretar as estrelas que são idênticas ao Sol”, explica o investigador Alexandre Cabral, investigador e professor na FCUL (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa). Nascido e criado em Lisboa, lidera uma missão que começou a ser desenhada há cerca de oito anos pelo colega Nuno Santos.
“Isto é um telescópio diferente do que eles lá têm”, admite Alexandre Cabral. O telescópio tem a capacidade única de observar a luz solar por inteiro ou focar-se em regiões específicas, utilizando o tal Espectrógrafo ESPRESSO, um instrumento internacional que lhe dá nome e que também já conta com engenharia portuguesa.
Irá ser comandado à distância em Lisboa, no Porto e Coimbra, depois de ser instalado no observatório do Atacama. A previsão para poder ver o “descobrimento português” a trabalhar é 8 de abril, dia em que será possível ver as primeiras imagens.
O nome não é um acaso. No acrónimo Paranal Solar Espresso Telescope, a equipa trocou deliberadamente o “S” pelo “O”, criando o prefixo “PO” – as iniciais de Portugal. Mas a ironia de chamar POET (poeta, em inglês) a um instrumento científico em Lisboa, cidade de Pessoa e Camões, traz uma camada de poesia à própria engenharia.

Da Faculdade de Ciências de Lisboa para o Deserto do Atacama
Embora conte com uma colaboração italiana, o POET é um filho de Lisboa. O desenvolvimento deste “poeta” foi uma dança de paciência, que Alexandre Cabral compara ao movimento de um caranguejo: “Por vezes dávamos três passos para a frente e dois para trás”. O que normalmente demoraria dez anos a concluir, esta equipa – composta por sete lisboetas e cinco portuenses – conseguiu em apenas quatro.
Apesar de não ser a primeira vez que Portugal colabora com o observatório do Paranal, é a primeira vez em que a única bandeira é portuguesa, algo que Alexandre Cabral considera uma evolução, e uma mudança na forma como o mundo olha para Portugal.

Estes 12 investigadores não partem de Belém em caravelas, mas o espírito de descoberta é o mesmo. Trocam o asfalto e a calçada de Lisboa por dez horas diárias de trabalho a 2600 metros de altitude, no deserto do Atacama, o mais seco do mundo. Lá, o ar é tão árido que as fissuras na pele podem parecer “cortes feitos por uma faca”, e os batons de cieiro e óculos de sol são tão vitais como os computadores.
Mas há semelhanças com Lisboa: “O céu limpo e azul do Atacama lembra-me muitas vezes a minha cidade”, confessa Alexandre. É o azul de Lisboa que serve de bitola para o melhor céu do mundo.
Trabalhar no deserto mais seco do mundo
A equipa (que, além de Alexandre e Nuno Santos, leva os nomes de André Silva, Bachar Wehbe, Inês Leite, Manuel Abreu, Manuel Monteiro, Jorge Martins, Pedro Moreno, António Oliveira, David Alves e Ricardo Clara) não é pormenor. “É uma equipa fabulosa. Num sítio destes é fundamental conhecermos muito bem uns aos outros. Cada um sabe no que é que o outro é mais chato”, brinca Alexandre.
Os 12 investigadores estão distribuídos por funções específicas, que passam por área como a ótica, a mecânica, a eletrónica e o software.
Vão ficar no observatório durante três semanas. Depois das primeiras duas semanas, são obrigados a deslocar-se à cidade mais próxima para descansar pelo menos duas noites, uma medida de segurança para quem trabalha muitas horas por dia.

Apesar de a ciência exigir uma cabeça que funcione “como uma máquina”, a emoção espreita nos detalhes. Alexandre recorda “o brilho nos olhos” de Ricardo Clara, o elemento mais novo da equipa, ao ver as peças que ele próprio desenhou em Lisboa chegarem finalmente ao observatório. “Lembrou-me que se calhar com a idade isso vai passando mas é o sentimento de realização “’eu desenhei isto’, e isso é um gosto presenciar”, conta.
E a prova de que Portugal não se limita a colaborar, mas lidera.
*Texto editado por Catarina Reis

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