“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Estamos quase sempre fisgados no futuro. Dedicamo-nos ao que quer que seja, agora, com os olhos já postos no passo seguinte. Somos uma história em movimento, enfeitiçada pelas possibilidades vindouras. O presente costuma ser apenas mais uma etapa do encaminhamento para um “depois” ou um “além” projectado de maneira confusa.
Muita literatura explorou o carácter sôfrego da nossa necessidade de agitação. O célebre apelo de Baudelaire no Spleen de Paris – «Embriagai-vos! De vinho, poesia ou virtude, não interessa, mas embriagai-vos» – pressupõe uma espécie de mal-estar permanente com a realidade actual, que só o lançamento em projectos e resoluções parece poder abafar. Essa aversão e o consequente fascínio pelo movimento ganharam com os avanços tecnológicos das últimas décadas meios extraordinários para satisfazer os seus desejos – meios esses que aceleraram notavelmente o “movimento perpétuo” da existência humana. Ainda no século XIX, R. W. Emerson descreveu bem o espírito da situação actual: «skating on thin ice, our safety is in our speed».
Ora, um dos aspectos característicos da arte prende-se com a sua capacidade de produzir mudanças no trânsito pragmático do dia-a-dia. Diante das obras de arte, o futuro de certo modo cala-se, em nome não sabemos bem de quê. No caso da pintura, a travagem é ainda mais forte do que no cinema ou na literatura. Pois, como lembra John Berger em Ways of Seeing, as pinturas são silenciosas e estáticas. A pintura não responde a nenhuma agenda pragmática, a nenhum item da lista de afazeres, e os quadros nem sequer propõem uma sequência narrativa capaz de prender o espectador no isco do tempo.
Ver um quadro não é, portanto, ver apenas algo exterior, mas ver-se posto a num novo tipo de relação consigo. Nesse sentido, além de serem vistos por nós, é como se os quadros nos vissem. Obrigam-nos a parar e, uma vez parados, concedem-nos a oportunidade de nos tornarmos objectos de observação: somos enfim devolvidos ao nosso presente, tão poucas vezes habitado, a um presente iluminado por aquilo que eles mesmos têm para oferecer.
Alguns pintores sublinharam no seu próprio trabalho este facto de a pintura ser uma plataforma de reavaliação de nós mesmos. Fizeram-no, por vezes, através da representação de olhos que, podendo ou não ocupar o seu lugar expectável na cara de uma qualquer figura, extravasam claramente uma função mimética. Olhos que, a partir da tela, invertem as posições habituais de quem é espectador e quem é espectáculo. Os olhos de Mona Lisa são um caso famoso. Mas, na história da pintura, olhos há muitos.
Magritte, o pintor belga que trabalhou em publicidade antes de se tornar um nome maior do surrealismo, tinha um fascínio particular por estes estranhos globos gelatinosos que nos povoam a cara e a partir dos quais o mundo das imagens se relaciona connosco. Disso dão testemunho dois quadros célebres.

Um deles, “Le Faux Miroir”, faz-nos mergulhar num olho enorme, com a zona da íris ocupada por um céu nublado. Mereceu quatro versões, sendo que a primeira terá pertencido a Man Ray antes de ser comprada pelo MoMA.
O outro quadro célebre, talvez o meu Magritte favorito, também exposto no MoMA, tem um título enganadoramente simples: “Le Portrait”. Sob fundo azul, sem “perspectiva”, pintada com um misto de precisão realista e pretensão de ingenuidade, vemos uma mesa onde pousam uma garrafa de vinho, um copo de vidro, um prato de carnes frias, uma faca e um garfo. No meio do presunto, porém, um olho rompe a composição pacata e atira-se à alma do espectador com uma pergunta muito antiga e sempre nova: «o que é que se passa aqui?”.

Um terceiro quadro de Magritte onde o motivo ocular aparece pode ser visto em Lisboa. Faz parte da colecção Berardo, no CCB, chama-se “Le gouffre argenté” e foi criado em 1926, numa fase ainda inicial da obra do pintor. Por definição é difícil descrever uma pintura surrealista, mas podemos dizer que a tela nos põe perante uma parede de madeira aberta – como que por uma janela sem vidro – para um abismo prateado, com cabeças de parafuso que lembram o mundo industrial. Mais do que esta sobreposição bizarra de ambientes e materiais, o interesse do quadro está, de novo, nos olhos, nos três olhos que se agarram ao paralelepípedo do lado esquerdo como autocolantes bidimensionais.
Ao contrário do que acontece por vezes nas obras surrealistas, em que a arbitrariedade do insólito se torna cansativa e “adolescente”, os olhos de “Le gouffre argenté” constituem surpresas de grande efeito estético.

Segundo consta, Magritte despertou para a sua vocação artística perante uma reprodução de “Le chant d’amour” de Giorgio de Chirico. Comovido com a novidade absoluta do que tinha à sua frente, Magritte terá dito que, pela primeira vez, via o pensamento. O fascínio do pintor belga pelos olhos parece ligar-se a esse comentário sugestivo sobre De Chirico; parece, digamos assim, ter tanto de plástico como de filosófico. Temos a oportunidade de ver uma das primeiras manifestações desse fascínio em Lisboa, no CCB.

*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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