Fiona Disegni não nasceu em Portugal, mas a identidade dela parece ter encontrado morada definitiva no fado e ruas de Alfama. Esta é a primeira paragem da série “Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria”, uma iniciativa que pretende dar palco a artistas que, embora distantes dos grandes focos mediáticos, moldam a cultura vibrante da cidade.
Divide o tempo entre o cargo de diretora de parcerias numa startup tecnológica e as noites de tertúlia fadista. Lisboa aconteceu-lhe quase por acaso, impulsionada por uma ligação à música que a levou a procurar mestre e palco. Hoje, a voz dela é já um elemento familiar na vizinhança que a acolheu.
Nesta conversa que inaugura a nossa parceria com Tiago Pereira e o projeto “Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, Fiona fala-nos da coragem de cantar numa língua que não era a sua, da aceitação dos “conservadores” do fado e da magia dos encontros inesperados que só acontecem no coração da capital. É o início de um arquivo que nos convida a ouvir mais e melhor Lisboa.
Tiago Pereira à conversa com Fiona Disegni. Leia aqui:
O fado vem na minha vida por acaso. Antes de 2018, não sabia nada do fado. Mas fui sempre uma artista com uma dimensão… Trabalho muito em comércio, business, coisas, mas sempre tive uma dimensão artística. Fiz teatro musical, por exemplo. E o fado descobri-o em 2018, a primeira vez aqui em Lisboa. Foi uma emoção. Disse para mim mesma que, se um dia eu vivesse aqui, ia aprender. E na altura não sabia nada. Foi o destino, o fado.
Em 2020, enquanto estava a trabalhar com uma empresa portuguesa, metaportuguesa, Farfetch, e decidi sair de Londres e vir viver para aqui quando foi a pandemia de covid-19. Uma amiga portuguesa trouxe-me à Tasca do Chico e disse-me “queres cantar o fado?”. O proprietário disse “ela não fala português, não é possível”. E minha amiga disse: “em um ano, tu vais cantar aqui, e vou escrever no calendário que tu vais cantar aqui”. Então voltei, voltei, voltei, e um dia, tive a coragem de perguntar a uma fadista se podia ter aulas de fado. Era a Cláudia Picado, que foi minha primeira professora de fado.
Depois de três meses, disse “temos que ir praticar com guitarristas, numa tasca”. Cinco minutos depois, disse-me “ok, tu vais cantar agora”. Foi a minha primeira stage. A segunda foi na Tasca do Chico, como promessa à minha amiga.
Depois, foi uma prática permanente, de ir e de desafiar-me, porque já não podia fazer nada mais do que cantar.
Qual foi esse primeiro fado?
Foi Tudo isto é fado, que é cantado pela Amália. E foi interessante, porque é uma tentativa de explicar, de definir, não sei como dizer, de dar uma definição ao fado, que é muito difícil. E é muito interessante isto, também para as pessoas que nunca ouviram o fado, para perceber também a sensação.
Se não percebem muito bem as letras, o que digo a toda a hora é que não é importante perceber tudo, é mais de estar presente no momento e abrir o coração.
E o que é que tu sentes quando cantas fado?
Se eu não tivesse aceitado abrir-me ao fado, ao sentimento que ele me provocava, nunca o teria conseguido cantar. Acho interessante o que dizem as pessoas que me ouvem cantar que, quando canto, conseguem abrir-se a sensações novas. Isto vai para além do fado, é mais uma energia que se propaga.
Estavas a falar de navegar. O que é isso? O que é que fazes? Como é que navegas?
Penso que o fado é um ritmo, uma questão de ritmo. O fado tem muitas repetições, mas são estas repetições que criam um espaço físico para o público abrir emoções. E este ritmo com as guitarras portuguesas, a viola… É interessante o facto de que tudo acontece ao mesmo tempo, traz um desafio. É um sistema onde se há uma coisa que não funciona, nada funciona. A pronúncia, o ritmo, as letras, a presença, o público. Se falta algo, perco totalmente o ritmo, a energia.
Esse é um ato de coragem, tu és corajosa.
Penso que é um ato de entrepreneurship mais do que um ato de coragem. Mas também é a coisa mais desafiante que fiz. Antigamente tinha a minha empresa de moda e acho que se não tivesse feito isso quando tinha 24 anos, não teria coragem.
O fado deu-me o melhor palco para juntar a minha mentalidade empresarial a algo criativo. Eu gosto de inovação, de ver o futuro, de startup, e consegui unir isso com algo tão antigo e tradicional como o fado.
Por exemplo, quando cantas Que Estranha Forma de Vida, é quase uma oração… Tem a Amália, que é quase uma deusa. O que é que sentes?
Primeiro, acho curioso que eu e a Amália temos a mesma data de aniversário, 23 de Junho. Também ela e a minha avó são muito parecidas. Para mim, a Amália e o fado são família. E acho que, se não estivesse aqui em Lisboa, na terra dela, nunca poderia ter recebido esta formação e nunca teria esta relação com o fado.
Transcrição por Sara Bassini

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