No Quiosque da Sorte, num dos largos mais emblemáticos de Lisboa, há um poeta escondido. Entre a venda de um jornal e de umas pastilhas elásticas no Largo Trindade Coelho, é a partir deste espaço de um metro quadrado apenas que Luís Fernando Lopes escreve poemas sobre a vida da cidade. E isso já deu dois livros. E uma parede de rimas em espera, com ideias trazidas pelos clientes.
Sentado numa velha cadeira, Luís usa luvas pretas sem dedos para se proteger do frio que faz até dentro do quiosque, que é lugar de família. Ali cresceu e ali trabalha há mais de 40 anos. Lá dentro, segura um bloco de papéis rabiscados, que virarão poemas.
Nascido em São Sebastião da Pedreira, veio para o Bairro Alto e por aqui ficou, até se mudar para Oeiras, mais tarde. Cresceu nestas ruas, a brincar nos becos de um dos bairros que é hoje um dos mais turísticos de Lisboa.
A paixão pela poesia é uma herança da infância: a mãe ofereceu-lhe o poema Dia de Anos, de João de Deus, e foi isso que lhe abriu um caminho que a família desconhecia. “É uma das penas que eu tenho, ela não ter lido mais coisas minhas. Estou convencido de que ia gostar”, confessa.
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Aida se os desfizesse…
Mas fazê-lo não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o ano que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os anos
Que nos fazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!
João de Deus
in “Versos de João de Deus”
O poeta que deixou de vender jornais
Antes disso, escrever era apenas um gesto íntimo, reservado ao seu metro quadrado. Depois, a pandemia de covid-19 mudou isso. Com as ruas vazias e o tempo em suspensão, Luís passou a colaborar com um jornal online do Sabugal, o Capeia Arraiana. Em 2023, editou O mundo da minha janela onde Lisboa é mais bela e O quiosque tem uma janela e eu vejo o mundo através dela. Vendeu 250 e 300 exemplares, respetivamente – todos ao preço de custo da impressão. Para Luís, a poesia não é mercadoria, é devolução.
Recorda-se de quando o seu Bairro Alto era o bairro dos jornais, do qual algumas ruas retiraram o nome, como a Rua do Diário de Notícias e a Rua de O Século. Desde 1 de janeiro de 2026, deixou de vender jornais no quiosque. “Já ninguém compra jornais em papel. O último Expresso que vendi foi para mim.” Já só estava a vender apenas um ou dois por dia. Chegou mesmo a escrever um poema sobre isso.
A RODA DA VIDA
A roda da vida sem parar
indiferente a hábitos e rotinas
encarrega-se de alterar
os costumes e as doutrinas
não obstante as dificuldades
com que cada um se depara
adaptamo-nos às realidades
porque a vivência não pára
o desenvolvimento da ciência
não tem paralelo na existência
da história da humanidade
mas o aumento da sapiência
não valorizou a dignidade
nem condicionou a maldade
O método dele é quase jornalístico. Luís escreve sobre o que vê: a Santa Casa, os elevadores, as praças. Coisas que vê desta janela. Atualmente, escreve sobre a vida de José Vital Branco Malhoa, pintor naturalista português. Depois de dedicar um poema ao pintor, prepara agora um texto sobre a obra O Fado. Sabe os detalhes: que as figuras retratadas não eram modelos, mas uma prostituta e um marginal, e que o pintor os convidou para casa para verem o resultado final. “A vida não é preto e branco. Tem estes pormenores que são definidores”, explica, ajustando a armação metálica dos óculos.
O processo criativo é rigoroso. Luís observa, vê documentários (especialmente os de Paula Moura Pinheiro) e investiga no terreno antes de passar ao papel. Recusa a facilidade do verso livre; prefere o desafio da métrica. “O gozo é procurar a palavra que rime com o resto mas que não hipoteque a ideia que eu tenho definida.”

Como o caso da palmatória em frente ao quiosque, oferecida pela comunidade italiana ao Reino de Portugal para celebrar o casamento do rei D. Luís com Maria Pia de Sabóia, em 1862: Luís visitou lugares, procurou pormenores, tomou notas. Só depois escreve os seus poemas.
“É muito difícil escrever sem apalpar, sem estar. As poesias não saem sem eu estar, sem eu sentir as coisas.”
Uma poesia coletiva, da cidade pela cidade
O quiosque funciona também como um recetáculo de histórias coletivas. Atrás de Luís, presas por clips, acumulam-se sugestões de clientes e amigos. Um bilhete recorda a lenda da Aldeia da Pena, sobre um morto que matou um vivo; outro aponta um detalhe histórico sobre a palmatória italiana de 1862 que decora o largo.

Esses pedaços de papel ficam pendurados na parede do fundo do quiosque, como lembretes de projetos futuros.
O Quiosque da Sorte é, assim, um ponto de processamento: entra a curiosidade urbana de quem passa e sai a memória de Lisboa, rimada e impressa, por quem aprendeu a ver o mundo através de uma moldura de ferro.
*Texto editado por Catarina Reis

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