Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecemos muito distantes um do outro, e uma vez que a língua nos une, resolvemos estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Quive,

Não chega a espantar-me que, em Lisboa, te tenhas posto a cumprimentar gente que não conhecias de lado nenhum. Mas espanta-me que aches que isso é “boa educação”, como se aqui fôssemos uns selvagens por não roubarmos tempo aos outros. Ainda por cima, podia ter-te corrido mal: se tivesses cumprimentado uma mulher sozinha num beco escuro à noite, talvez tivesses levado com gás pimenta em cima e andasses por aí à Camões, cego de um olho. Estou a ver que és gajo que, fingindo que não, gosta de correr riscos. Em Portugal, inventámos maneiras de guardar tempo para nós, e de cumprimentar à Rosa Mota até quem conhecemos. Há duas hipóteses: uma é dizer “Tudo bem?” e não esperar resposta, continuando a andar (aliás, tememos até que o outro lado se lembre de responder; e, se o fizer, só se aceita um sim, mesmo que no funeral de um filho; qualquer outra coisa é vista como a fina flor da grosseria); a outra é acenar com a cabeça e pronto – queixo para cima quando se é superior, queixo para baixo quando se é inferior. Querias um segredo de Lisboa, toma lá este, e, por amor de Deus, quando vieres, não cumprimentes ninguém que não te saiba o nome, que isso aqui passa por assédio, tentativa de engodo, esquema financeiro, tráfico de drogas ou eu sei lá, e não estou para te ir buscar outra vez à esquadra.

Acho engraçado o que dizes sobre a idealização de Lisboa a partir de Maputo: “ouvimos e vivemos tanto de Portugal (…) que chegamos a pensar que ali não é um outro lugar” (Quive, 2026). Acho que se passa o mesmo, aqui, com outras representações que nos entram na cabeça e em casa quase todos os dias: é o Rio de Janeiro das telenovelas, a Nova Iorque das séries. Da primeira vez que fui a cada uma, senti que lá voltava, que já lá tinha ido muitas vezes. E o que dizes de esperares ver autores portugueses nos cafés bate certo com a minha vida de leitora na infância. Imaginas o meu choque, depois de ter decorado os dodecassílabos do Cesário, ao chegar ao Cais do Sodré à noite e não ver candeeiros a pingar óleo, nem o ver a afinar o finíssimo bigode? E ainda hoje me repugna que nunca lisboeta algum/a me tenha tentado engatar com um “Milady, é perigo contemplá-la”. Que falta de chá, de fineza, de sofisticação, de literatura. Em vez disso, Lisboa – tão bela e tão menina – tinha outra coisa: gente a vender orégãos na rua do Ouro, fingindo que eram drogas; bad boys e bad girls com botas pretas, cabelo emaranhado; tostas mistas a 500 meticais, que até pareciam vir do cimento de Maputo; e velhotas tão bem penteadas que meti na cabeça que só liam Agustina. Isto era real e impressionava, mas realismo impressionista é que nem vê-lo.

No meio desta tanta coisa que acontece, é bem verdade que ninguém está com ninguém. Pouco antes de ir a Maputo pela primeira vez, conheci uma moçambicana que me disse que Lisboa era grande, Maputo pequena. Estranhei: para mim, Lisboa já cabia num bolso, e Maputo, mais não fosse por ser longe, tinha-me nome de metrópole. Depois cheguei e entendi. É verdade que se aqui é difícil, a não ser que a vida exista num eixo muito particular, cruzarmo-nos com alguém, também é fácil perdermo-nos da vida uns dos outros. Os amigos, se não postos num vaso e regados com a água diária do cuidado, vão à vida deles, arranjam outros. Lembra-me, na próxima, de te falar do Zé. Não será fácil, depois do trabalho, dando tantas horas aos filhos, ao ginásio, cruzarmo-nos com eles quase só por acaso. Nisto, é diferente de Vizela, onde me bastava sair à rua para ver este e aquele e tal. Imagina a tragédia de terminar um namoro em Lisboa: não dá bem para diluir a decisão num movimento lento, que se vá fazendo amorfo; quem diz adeus sabe que é de vez, que não é um até já; que não haverá esquinas onde nos cruzemos outra vez; que, em vez de um episódio, virá a próxima temporada ou o fim da série. E a outra pessoa perde-se na vida ao perder-se na cidade, e sabe-se lá quando ou se nos voltará a aparecer, e se com a mesma cara, o mesmo corpo, a mesma cor. Aprendi depois dos trinta: meia dúzia de anos bastam para transformarem um hirsuto num careca, um ruivo num grisalho. Não é o meu caso, claro: nunca fui hirsuta nem ruiva. Em Lisboa, é fácil dizer-se um “Nunca mais a vi”, outro “Não a vejo há dez anos” e, claro, “Não sei nem me interessa”.

Na tua carta, falaste de casas inundadas. Passou-se agora o mesmo em Portugal: tanta água a cair do céu, que parecia Maputo em dias de fúria. Bem me lembro de estar no 19º andar do Polana Shopping, num calor de doidos, a ver a chuva a espancar o chão, as nuvens a darem encontrões umas às outras sobre a baía de Maputo. Nunca tinha visto tempestades assim, sabia-me a espectáculo. Até filmava. Por cá, tem sido só água, e água que não escoa e vaza e invade e rebenta diques. Também muita gente teve de ser desalojada, mas nós somos gente mais presa à materialidade da vida. Somos incapazes de um rasgo, de uma frase que saiba a ficção quando não é: jamais alguém diria que, nestas circunstâncias, vai “dormir em casa do baby e ser engravidada” (Quive, 2026). Ainda por cima, como a sugestão parece implicar, ou sugerir, violação (estarei certa ou serei perversa?), isso seria coisa para vários metros de artigos de opinião nos jornais online e várias horas de histórias a passar no Instagram. Como dizes, a cidade é muito acelerada – não temos tempo para isso.

Quanto ao David Machado, ainda não é meu amigo. Bem tentei, e ele disse-me que sim, mas depois não me deu bola. Sabes como são os escritores. Mas pelos vistos teve mais sorte do que eu em Maputo, ao chegar aí com “uma cara de um miúdo que acabou de achar uma namorada” (Quive, 2026). Eu quando aí fui tinha acabado de terminar com uma. E, por muito que tenha procurado entre edifícios devolutos e praias de águas cristalinas, também não encontrei nada de jeito. Tenho de lhe perguntar, um dia destes, como é que se faz para se andar tão davidamente pela vida, com ar descontraído, ar virado para a felicidade, mas acho que não vou ter sorte nenhuma: se eu tivesse o talento que ele tem para fazer coisas engraçadas com as mãos, também teria esse davidíssimo ar e, sobretudo, também faria aqueles livros infantis que enchem as crianças de riso, palermice e alegria.

De resto, Quive, pá, tu és um filho da mãe sem nome. Eu chamei-te “soneto à Afrodite Anadiómena” no outro dia, certa de que nunca ninguém to chamara, e tu, só para não ficares para trás, chamas-me “utopia da tal lusofonia ou CPLP”. Além de escreveres bem ao ponto de me irritares (seu gatuno, seu palhaço, seu biltre, seu canalha), ainda me empatas com essa. Por isso, não me venhas com sugestõezinhas sobre traficarmos histórias entre viagens. Só tenho como odiar um gajo que escreve assim, e ainda por cima é magro e nem se esforça. Eu bem queria que este projecto servisse para qualquer coisa. Se não desse para mais nada, que pelo menos nos iludisse aos dois, nos fizesse achar, por meia dúzia de minutos, que estávamos a estreitar laços, a meter o país de um na casa do outro. Mas depois disto é impossível.


Os autores desta série:

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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