“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Nascido em 1510, bisneto do Papa Alexandre VI, filho do III Duque de Gandia, Francisco de Borja cresceu entre a alta nobreza de Espanha. Aos dezassete anos, instalou-se na corte de Carlos V – senhor de incontáveis territórios e títulos nobiliárquicos – e Isabel de Portugal. O seu crédito junto dos soberanos cresceu a ponto de ser nomeado estribeiro-mor da imperatriz e vice-rei da Catalunha. Tornou-se homem de confiança do casal real mais importante da Europa.

“Retrato de Isabel de Portugal”, de Ticiano, exposto no Museu do Prado, Madrid

Em 1539, um acontecimento abalou-o profundamente. Na sequência de um parto, com trinta e seis anos, Isabel de Portugal morreu. Aquela mulher vigorosa que, nos largos períodos em que Carlos V se ausentava devido a guerras relacionadas com o Sacro-Império Romano-Germânico ou devido a negociações diplomáticas, governava Espanha com mão segura – aquela mulher de beleza tão celebrada, cuja figura, de tez clara e cabelos ruivos, o retrato de Ticiano exposto no Prado fixa esplendidamente – desaparecia da face da terra, de um momento para o outro. 

Francisco de Borja ficou responsável por conduzir o cortejo fúnebre de Toledo até Granada. Conta-se que a sua epifania pessoal terá ocorrido no momento de abertura do caixão, quando se confirmava que o corpo a enterrar era o corpo certo. O poema “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”, de Sophia de Mello Breyner, evoca esse confronto decisivo com a beleza degenerada:

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Passados sete anos do acontecimento, e logo após a sua esposa, a infanta portuguesa Leonor de Castro, ter também morrido, Francisco de Borja decidiu entrar na Companhia de Jesus para servir um senhor que não pudesse morrer. Foi a tempo de se tornar o terceiro Superior-Geral da ordem fundada por Santo Inácio de Loyola. Francisco de Borja destacou-se pelo seu papel na expansão das missões no continente americano e pelo desenvolvimento da obra educativa dos jesuítas. 

“Retrato de São Francisco de Borja”, de Domingos da Cunha, ‘O Cabrinha’, exposto no Museu de S. Roque

No Museu de S. Roque encontramos um excelente retrato deste homem, morto em 1572 e canonizado em 1671. O autor da pintura, Domingos da Cunha, “O Cabrinha”, embora de origem menos nobre que o retratado, partilha com ele alguns dados biográficos relevantes. Em 1615 Domingos da Cunha partiu também para Madrid, dirigindo-se à corte de Filipe II com o intuito de trabalhar sob as ordens do pintor régio. Esse pintor era Eugenio Cajés, um dos melhores artistas da corte espanhola até à chegada de Velázquez. 

“São Raimundo Nonato alimentado por anjos”, de Eugenio Cajés

Além disso, à semelhança de Francisco de Borja, Domingos da Cunha ingressou na Companhia de Jesus. É nesse contexto, aliás, que surgem alguns dos quadros que podemos admirar hoje no Museu de S. Roque, como o recentemente redescoberto “O senador Marco António Trevisani encontra Santo Inácio de Loyola a dormir sob as arcadas de São Marcos em Veneza” ou o referido retrato de Francisco de Borja. O caminho do pintor português até irmão jesuíta – decisão tomada, segundo conta o próprio, depois de uns sonhos inquietantes – não terá sido linear. Diz Vítor Serrão, grande conhecedor do Cabrinha, que «as crónicas da Companhia de Jesus são abundantes de registos a fim de destacar o “triunfo da virtude” sobre o álcool e os amores».

Talvez a qualidade do retrato de São Francisco de Borja não seja alheia a esse percurso existencial turbulento, marcado pela fraqueza da carne e pela experiência do arrependimento. De facto, a santidade pintada por Domingos da Cunha está longe de parecer uma glória edulcorada e conserva as rugosidades próprias de toda a aventura humana. Sem descontar o virtuosismo técnico, a força do quadro parece-me vir sobretudo desta capacidade de não-idealização da vida cristã. O rosto do homenageado é um rosto duro, mais feio do que bonito, com orelhas longas, com um nariz comprido e protuberante. E nenhum aspecto exterior vem suavizar a impressão “pouco canónica” produzida por tal rosto. Recusando, assim, o nexo simplista entre bondade e beleza, Domingos da Cunha confere à sua imagem um poder de interpelação desconcertante. 

Outros elementos, além do corpo de São Francisco de Borja, contribuem para a grandeza do quadro. À esquerda de quem olha para o retrato, ouro e chapéus cardinalícios em plano afastado, que simbolizam o “não” do santo a honras mundanas de vários tipos. À direita, o símbolo terrível e perfeito da caveira coroada, que mantém vivo o episódio da morte de Isabel de Portugal. «Nunca mais servirei senhor que possa morrer», parece ecoar a caveira, com estranho sentido de humor. 

*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Com o apoio

Simão Lucas Pires

Simão Lucas Pires nasceu em Lisboa, em 1990. Concluiu o mestrado em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e tem estudado sobretudo o pensamento de Blaise Pascal — em particular as reflexões acerca da extraordinária aspiração dos homens e da extraordinária incompetência para lhes dar resposta. A Trombeta Vaga é o seu primeiro livro.

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