Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecemos muito distantes um do outro, e uma vez que a língua nos une, resolvemos estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Querida Ana Bárbara, 

(Desejei um dia começar desta maneira um texto, como nas cartas que escrevi na infância, que nunca cheguei a enviar aos destinatários, por receio que me tomassem por tolo. Se soubesse que mais tarde tolo eu seria escrever de tudo e mais um pouco que quase passa despercebido no frenesim dos dias, enviava na mesma. Tolo por antecipação é melhor que tolo retardado).

Li repetidas vezes estas tuas palavras: somos viciados na saudade. Lembro-me dos dias que passei em Lisboa naquele verão de 2022. A caminhar por Belém, meti-me a cumprimentar as pessoas com a boa educação moçambicana, que é certamente uma chatice para os habitantes de uma grande cidade, onde os percursos são feitos com GPS e no time is Money. Lembras-te daquele «boa tarde, como está?» de quando pedes um táxi por aplicativo que te tiraram de sério em Maputo? Pois, é a tal boa educação à moçambicana com que me fui metendo com as pessoas, feliz em comunicar na minha língua noutro país. Que me respondessem com um «I don’t speek portuguese» e um sorriso cosmético, e depois pedirem-me que os tirasse uma foto em frente ao palácio de Belém, não esperava. 

Vi-me nos dias subsequentes metido numa saudade de algo que não compreendia. Talvez de uma cidade que idealizei como o lugar onde tudo faria sentido. Nós ouvimos e vivemos tanto de Portugal, estando deste lado, que chegamos a pensar que ali não é um outro lugar. Que de tanto lermos romances, poesia, do cinema à música, chegamos a visualizar com nitidez, as ruas, as residências, os cheiros, os sabores, e toda a atmosfera de Lisboa. 

Depois de ter lido vários autores portugueses, esperava vê-los nos cafés, nos bares, nos eléctricos, nos bancos da praça, em conversas complexas sobre a humanidade, sobre a vida, e a dizer palavras que iriam descobrir a grande conspiração que é o mundo. Era disso que, talvez, tinha saudades de Lisboa.

Encontrei uma cidade onde, sim, o universo se encontra, mas ninguém está com ninguém. As cabeças das pessoas andam levantadas para as paredes dos edifícios seculares, as mãos ocupadas com os telemóveis e câmaras fotográficas, o cigarro entre os dedos, o álcool, os corpos errantes apenas guiados pela vontade de extrair as reminiscências do tempo, através dos lugares e das coisas. Todos falavam numa língua estranha, reagindo com acenos breves, às histórias de embalar de voluntariosas vozes que explicavam que aquela era «Lisboa menina e moça», prosaica, intemporal. As pessoas mal se viam, caminhando lado a lado, esbarrando-se sem as desculpas necessárias ou com sorriso teatral, perante o capricho do destino. Mas logo voltavam a levantar as cabeças para as paredes, as lojas, os cafés antigos, as igrejas, os museus, avessos ao presente e ao instante. E tudo se repetia todos os dias que já me contentava por sentar no banco de uma praça qualquer a contemplar a coreografia popular. E tudo se repetia que já me contentava parado na janela do apartamento a olhar para fora, àqueles peregrinos do tempo. E tudo se repetia que me vi, às tantas, com saudades de Kim Il Sung, Mao Tse Tung, Salvador Allende, Kwame Nkrumah, Julius Nyerere, Karl Marx, Eduardo Mondlane, Marien Ngouabi, Ho Chi Min, Georgi Dimitrov, Albert Lutuli, Friedrich Hegel. As avenidas de Maputo e as conversas que podem ser feitas nos acasos e despropósitos de uma cidade onde as pessoas não se perdem no tempo, perde-se o tempo na vida das pessoas. Que te dizem os nomes da tua cidade? Conta-me um segredo de Lisboa.

E se ouvisse “A que horas ides para escola?”, perguntas. Sentir-me-ia o maior analfabeto do mundo, além de perguntar-me, de que romance saiu tal personagem? Agora que há espaço para reflectir na tal coisa bizarra, imagino o que é que se passou na cabeça dos habitantes de Inhambane ao terem escutado, pela primeira vez, a língua portuguesa na voz de Vasco da Gama, naquele pôr-do-sol de 1498, ao aportar naquela naquele mar cristalino, com os coqueirais enterrados na areia branca a disputar um lugar ao sol cor-de-laranja. 

De resto, por cá, nestes tempos, vivemos sobre os problemas. Inventar mesmo precisamos é de alguma coisa que nos faça felizes. E ser feliz significa esquecer: os problemas, o trauma, entre outras coisas. Os problemas andam à flor da pele e só não morremos porque a morte não nos vale em nada. Por isso que em dias trágicos como estes, não nos faltam tiradas como estas: «as nossas casas estão inundadas que não temos onde dormir. Assim vamos dormir em casa do baby e vamos ser engravidadas». Que «baby» é um homem capaz de engravidar uma rapariga que foi pedir abrigo por não ter onde dormir porque a casa ficou inundada, já percebeste. Os dias em Portugal também não são de marrabenta, a música do nosso combate a pobreza. Fado, talvez. A angústia poética, que chega a alegrar de triste. Fiquei atento a ver se depois das vossas eleições presidenciais não haveria gás lacrimogénio ou a valsa do protesto. Parece que nem tudo anda assim aos extremos.

Estes são «Os Dias do Ruído», afinal tem razão o David Machado, que tu me deste a ler. Já agora, ele já é teu amigo? «Tenho o sonho de ser amiga de David Machado» isto não é algo que se leia todos os dias. Eu conheci-o aqui em Maputo, e ele tinha uma cara de um miúdo que acabou de achar uma namorada – vais ter de te habituar com coisas estranhas como estas «achar uma namorada», como se apanham as coisas a despropósito. Eu sempre quis ter amigos que me oferecessem livros. E ganhei em dobro. Uma amiga que é escritora e que me oferece livros de outros escritores. 

Ainda me lembro de ti, de mochila nas costas e outro peso nas mãos, a aterrares na Kim Il Sung, com dezenas de livros para me ofereceres. Pensando bem, tu és a utopia da tal lusofonia ou CPLP. A tão desejosa e pretendida mobilidade de obras entre países que falam a língua portuguesa que, na prática, tarda a acontecer. Só nos resta traficar as histórias entre viagens, bolsas de residências, quando existem. Já pensaste nisso?


Os autores desta série:

Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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