Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecemos muito distantes um do outro, e uma vez que a língua nos une, resolvemos estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Quive,

Não tenho pedalada para ti. Não sou santa nenhuma, decerto não sou imune ao ódio: escreves tão bem que, se não fôssemos amigos, talvez eu te odiasse.

Os teus textos metem mortos e catana na noite de Natal e reclusos fugidos e apoteoses e silêncios e noites que se põem a respirar nas madrugadas. Eu sempre fui bicho do escuro: pássaro noturno a virar páginas até fechar um arco. Depois, vieram os filhos, e os horários fizeram-se outros, mas se há coisa que o tempo não muda é o que há de irredutível na vida interior: continuo a querer estar a pé enquanto o mundo dorme, a gostar da ideia de correr durante a pausa. As últimas noitadas que fiz foram em Maputo, se é que pode chamar-se noitada a estar fechada em casa, com vista para a Eduardo Mondlane e a Julius Nyerere, a escrever até às tantas, até quase à hora de acordares. Sempre que dormi em Moçambique, tinha uma varanda que podia dar vertigens, que é coisa que não tenho em Lisboa, e há uma sensação imensa e trágica em ver tanto de uma cidade ao mesmo tempo. Via as casas e queria saber quem lá morava, via as estradas e queria saber onde iam dar, via transeuntes sem tecto e queria saber o que lhes tinha acontecido, como se vive apesar da falta de betão, de madeira, de um lugar onde deixar coisas – da paz de fechar a porta ao fim da tarde e deixar para trás o dia.

Gostei muito de uma frase que disseste: Matola é que é distante, Maputo sempre foi ao virar da esquina. Numa só frase, metes um estado do mundo, uma periferia como uma coisa sempre ao longe, uma capital como buraco negro em que a vida toda bate em cheio. Em Portugal, passa-se o mesmo: lembro-me de ser criança e de ver a chuva lisboeta nos telejornais. O país todo a ser informado de que a calçada portuguesa levava com água em cima. E, claro, este eixo que tudo controla tem expressão na comunicação social e na literatura. O português falado em Lisboa é visto como padrão, como coisa neutra, o resto como variação. Não há nada mais pobre do que a ideia de neutralidade: a língua serve para dizer, mostrar diferenças é o mesmo que mostrar a vida, fazer das frases gente a falar. Espantou-me, por isso, já em adulta, ver tanta gente incapaz de usar a segunda pessoal do plural ou a achar que caiu em desuso. Ou então a julgá-la coisa antiga, da ficção d’A Guerra dos Tronos, quando para mim sempre foi normal perguntar aos meus primos “A que horas ides para escola?”. Como te soa isto? Bizarro, antigo, português?

A tua frase respira literatura. E quando fui à Matola acabei por senti-la perto, talvez por vê-la pelos teus olhos, talvez por estar no estrangeiro e por ter ligado as luzes de escritora. Tudo nas ruas me pedia as mãos para as teclas, tudo me dava vontade de escrever, inclusive a tanta gente a olhar para mim, a dizer isto e aquilo numa língua que eu não compreendia, e o teu sorriso de risco ao lado por eu não perceber nada. É muito raro eu sentir-me branca. Em Portugal, nenhum branco se sente branco – a cor não é sequer uma questão, e isso porque se assume aqui o lugar do neutro, nunca do outro. Ali, eu era o outro. E ali via a vida em bruto, num país cuja economia é frágil, cujos problemas de higiene urbana estão escancarados sem máscaras, sem vergonha, cujos pés tocam muitas vezes no chão. Parece haver um romance fora de cada janela, porque a própria existência é mais política. O Ondjaki falou disso a respeito da infância em Angola. Os conflitos estão à vista de todos, míopes ou não, o que muito difere da minha geração no meu país: nascida em 1990, não conheço sequer o stress do pós-guerra na pele, e só recentemente começou a cogitar-se o fim da paz, ainda que seja, para já, uma cogitação ao longe. Tu vives isso a cada dia – um homem de catana na mão na noite de Natal não é o mesmo que eu de faca e garfo a estropiar um bacalhau. Tens tanta vida em bruto à tua volta, dentro de ti. Isso chapado, sem ter de inventar, já dá romance – ainda bem que tens mãos de escritor. Por cá, não é à toa que somos viciados na saudade, que inventamos problemas para depois lhes darmos soluções na ficção, que escrevemos duzentas páginas sobre alguém que nos deixou. Um escritor que não vê abismos na rua acaba por procurá-los em si. Onde é que vais buscar os teus?


Os autores desta série:

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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