“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos existentes na cidade. Entre a abordagem historiográfica e a investigação jornalística, publicaremos todos os meses uma história da memória cultural de Lisboa, procurando assim contribuir para a sua biografia. Este projecto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa. 

Joaquim Moreira de Mendonça e Manuel da Maia tiveram só uma preocupação na manhã de 1 de Novembro de 1755: salvar os tombos dos quais eram responsáveis. Maia abandonou os seus bens e correu para o Castelo, onde estava o Arquivo Real da Torre do Tombo; Mendonça subiu também ao campo do Castelo e postou-se de sentinela ao cartório do tombo do Senado da câmara. Nos dias seguintes, ambos observaram dali a cidade destruída, alagada nalgumas zonas, noutras ainda a arder, e sob um manto espesso de poeira; dali ouviam também um contínuo eco de choros, preces e gritos. 

Esse som chegava a todas as colinas. No alto da Cotovia (actual Príncipe Real), Jácome Ratton e os seus pais, fugidos da rua do Alecrim em busca de um refúgio temporário numa zona alta da cidade, ouviam o desespero proveniente da Baixa, onde estavam alguns dos bairros mais populosos. Ratton tinha então apenas 19 anos, mas era já um ambicioso negociante – naquele dia, aliás, apesar de ser sábado, estava a tratar de negócios nas águas-furtadas da sua casa quando começaram os abalos, valendo-lhe a previdente decisão de subir ao telhado para escapar ileso. Daí a poucas horas estava a percorrer com os pais a rua de São Roque e nessa noite observou “o mais horrível espectáculo” das chamas que devoravam a cidade, formando clarões que iluminavam “como se fosse dia”. 

Gravura francesa com o maremoto em primeiro plano e os incêndios em segundo. Pertencia à colecção do olisispógrafo Júlio de Castilho. Arquivo Nacional Torre do Tombo, Colecção Júlio de Castilho.

Nesta altura, Dionísia já estava soterrada. Não ficara ferida quando as casas desabaram, mas estava presa numa cova estreita, que lhe servia de muro e de ataúde, e mal se conseguia mexer. No relato que se escreveu mais tarde, diziam que se manteve sempre abraçada a uma imagem de Santo António

“Entalados entre os entulhos”

Quando deflagraram os incêndios, Moreira de Mendonça, que tentava caminhar sobre escombros em direcção ao Castelo, viu pequenas procissões de pessoas que saíam da cidade: uns oravam, outros iam em silêncio. Viu também sobreviventes debaixo dos escombros, “entalados entre os entulhos”, feridos e mutilados, que pediam socorro. “Muitas pessoas que menos feridas podiam viver morreram por não haver quem as socorresse entre tantas ruínas.” E dos que foram salvos, quantos se restabeleceram, numa cidade sem médicos e medicina?, questionou. Os mais abastados levaram os cirurgiões para curar os feridos acampados nos arrabaldes e bastaram poucos dias para Lisboa ficar deserta (exceptuando alguns bandos de saqueadores que não deixaram de aproveitar o êxodo da fidalguia) e parecer apenas um amontoado de pedras e cinzas. 

Mendonça sublinhou que nos dias seguintes houve alguma mobilização organizada para tratar dos mortos e procurar os vivos. Faltava ainda cerca de um mês para o Marquês de Pombal ordenar descargas brutais de entulho sobre os cadáveres putrefactos, a fim de evitar epidemias, e a remoção cautelosa de outros, com inumações caldadas em vinagres e “fumos de breu” (resina de pinheiro) para desempestar o ar. 

Em locais distintos, as improvisadas equipas de resgate salvaram três pessoas, segundo Mendonça: um homem que estava preso nos destroços da igreja da Penha de França, ao fim de quatro dias; outro homem na Basílica da Estrela, volvidos sete dias; e “uma moça” na rua dos Canos, “depois de nove dias”. 

Um relato escrito por um padre oratoriano em 1757 deu nome e alguma história a esta “moça”: o seu nome era Dionísia, tinha 14 anos e vivia na Mouraria.

Primeira página do relato sobre o salvamento da jovem retirada viva dos escombros numa rua da Mouraria, a 10 de Novembro de 1755. O texto foi coligido numa miscelânea subordinada ao terramoto publicada logo em 1756. Biblioteca da Ajuda. 

Nove dias numa cova

O texto do religioso da congregação do Oratório não oferece, infelizmente, muitas informações sobre a jovem. A  quase totalidade do escrito é dedicada a citar, com aspas, as preces e orações feitas sob os destroços. Previsivelmente, o salvamento de Dionísia deveu-se à intervenção do Santo António, permitindo que ela saísse incólume desta tragédia. 

Nesta “notícia”, o oratoriano conta que a jovem morava na rua dos Canos, na paróquia de Nossa Senhora do Socorro. Esta freguesia abrangia o bairro da Mouraria, onde as artérias de casas sobradadas e oficinas eram recortadas por hortas, pomares e olivais. A rua dos Canos (designada dos Canos da Mouraria no século XVI) encontrava-se num dos limites da freguesia, na fronteira com a paróquia de Santa Justa. Começava nas traseiras do Convento de São Domingos e estendia-se até ao interior do bairro, ladeada pelas ruas Nova da Palma e dos Vinagres. 

Planta da freguesia de Nossa Senhora do Socorro que permite observar como era o bairro da Mouraria antes do terramoto e no qual existiam hortas, olivais e pomares. Nos seus limites estavam as antigas freguesias da Pena, Santa Justa, São Lourenço e São Jorge. Arquivo Nacional Torre do Tombo.

No início do século XVIII viviam nas 34 ruas, becos, calçadas e travessas do Socorro algumas milhares de almas, provenientes de diferentes nações, e nos pisos térreos das casas com três e quatro andares existiam oficinas de oleiros, tecelões, carpinteiros e sapateiros, tabernas e baiucas de galegos; e muitas mulheres saíam todos os dias da freguesia para trabalharem como lavadeiras, padeiras e criadas. 

Dionísia também trabalhava, provavelmente. Mas na manhã daquele primeiro sábado de Novembro estava na rua e quando a terra começou a tremer agarrou-se a uma imagem de Santo António que estava exposta num oratório (cuja localização não é referida pelo autor). Foi uma decisão “acertadíssima”, escreveu, contando que as aflições a fizeram abraçar a pequena escultura, “sem que formasse com a língua petição alguma, mas unicamente as lágrimas e suspiros eram os rogos com que recorria àquele Santo”. 

Quando as casas começaram a ruir, Dionísia “nem a luz podia divisar”, dado o volume e a densidade da poeira. “Estava metida entre as ruínas, que formando um estreita cova, de forte, que lhe não era oprimido o corpo, estava contudo tão apertada que não se podia mexer”, relatou o oratoriano, notando que a jovem não conseguia compreender o que estava a acontecer porque nestas “infelicidades” o juízo fica “embaraçado para discorrer e investigar” as causas. “Não passava dos quatorze anos de idade”, escreveu, sem acrescentar quaisquer outros dados sobre a biografia da jovem. Atendendo à formulação que usou relativamente à idade (“não passava”), é muito provável que não tivesse certeza sobre esse dado. 

Os registos paroquiais do Socorro mostram que nestes anos os pais preferiam as Doroteias às Dionísias. Entre 1740 e 1742 não foi baptizada nenhuma criança com esse nome, mas o livro de 1739 revela o nascimento de uma Dionísia que morava com os pais na rua da Amendoeira, perto da rua dos Canos. Recebeu os “santos óleos” a 1 de Novembro (que passava a contar como a data de nascimento), pelo que completou 16 anos no dia do grande terramoto. Seria esta a jovem que sobreviveu nove dias soterrada? 

A sala de leitura da Biblioteca da Ajuda está aberta aos investigadores, todos os dias úteis, das 10.30 às 17:15. Para as visitas é preciso fazer marcação prévia.

Salva sem lesões

Dionísia penou mais de uma semana naquela cova escura, sem comida e água. Rezava a Santo António e chorava, segundo o oratoriano. Moreira de Mendonça referiu a existência de uma espécie de brigadas de resgate, mas o religioso escreveu que alguma “gente” passou “casualmente” na rua dos Canos (ou o que restava dela, pelo menos) e nesse momento ouviram uns “enternecidos suspiros”, tratando logo de remover os destroços para salvar a sobrevivente. 

Foi retirada “sem lesão alguma outra do que a grande fraqueza em que estava”, mas “alimentando-se se acha restituída a perfeita saúde”. Devia a vida, segundo o padre, ao “patrocínio” de Santo António, “a quem nunca alguém recorreu com justa causa que não experimentasse o remédio de suas penas”. 

A 1 de Novembro, a igreja paroquial do Socorro ruiu, destruindo a capela-mor e as três capelas do templo, entre as quais a de Santo António. Foi uma das freguesias que sofreu maior ruína, com números de mortos e feridos difíceis de estimar. Três anos depois, quando a cidade era ainda um museu de destroços, o vigário Manuel Curado Dinis escreveu que a paróquia tinha já 830 fogos (a maioria eram ainda barracas) e 3300 residentes. Dionísia seria um deles? Esperemos que tenha tido uma longa vida. 

Antiga Biblioteca Real, a Biblioteca da Ajuda terá tido a sua origem durante o reinado de D. João I (1357-1433) e ocupa desde 1880 várias dependências do Palácio da Ajuda. O seu acervo possui um considerável número de obras provenientes de bibliotecas particulares e de instituições religiosas e públicas.

FONTES
Biblioteca da Ajuda, “Commentario Latino e Portuguez sobre o terremoto e incendio de lisboa. De que foi testemunha ocular seu Autor ANTÓNIO PEREIRA Padre da Congregação do Oratório, que também o ilustrou com Notas”, 55/V/8. 
Biblioteca Nacional Digital, “Memórias das principais providências que se deram no terramoto que padeceu a corte de Lisboa no ano de 1755, ordenadas e oferecidas à majestade fidelíssima de El-Rei D. José I, Nosso Senhor”, Amador Patrício de Lisboa.  
Arquivo Nacional Torre do Tombo, Livro as plantas das freguesias de Lisboa (1756-178); Memórias Paroquiais (Lisboa, freguesia de Nossa Senhora do Socorro); Registos de baptismo de Nossa Senhora do Socorro (1737-1748). 

“História universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que há noticia, desde a sua criação até o século presente: Com uma narração individual do terramoto do primeiro de novembro de 1755 e notícia verdadeira dos seus efeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, África, e América, aonde se estendeu: e uma dissertação física sobre as causas gerais dos terramotos, seus efeitos, diferenças, e prognósticos, e as particulares do último”, Joaquim José Moreira de Mendonça. 

A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Maria José Oliveira 


Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios. 

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