Enquanto as televisões e o comentariado político se entretêm a debater as eleições presidenciais, vou assistindo com tristeza ao avançado estado de degradação de um edifício icónico de Lisboa que foi palco de uma das mais disputadas eleições em Portugal e foi votado ao abandono há várias décadas.
O palacete no Saldanha, por muitos conhecido como o de Helena Rubinstein, por aí ter albergado o cabeleireiro homónimo, foi sede da campanha de Mário Soares em 1986. E está a definhar, lentamente e à vista de todos. Há 40 anos.
Há quatro décadas, quando o país participava ativamente na mais alucinada e fratricida campanha presidencial da nossa história política, apesar das tricas e dos malabarismos típicos da Res Publica, tínhamos em liça algumas das figuras maiores do Portugal democrático: Mário Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha.
E, sem dúvida, na noite de 9 de março de 1986, a varanda do palacete do Saldanha, de onde Mário Soares gritou “vitória, vitória” e disse “serei Presidente de todos os portugueses”, foi o expoente máximo do regime instituído na década anterior e que esteve nas bocas do mundo pela sua revolução estranhamente pacífica – e pelos cravos da dona Celeste no cano das espingardas.

Nessa noite, tal como muitos milhares de lisboetas, também eu lá estava a gritar entusiasticamente “Soares é fixe”. Porque era mesmo. O homem que tinha sido perseguido e enviado para o Tarrafal no (velho) Estado Novo, ganho as primeiras eleições livres para a Constituinte, ascendia ao mais alto cargo da nação – após uma eleição estonteante, para a qual partira com uns meros 8% nas sondagens.
E se é um facto que os ânimos se extremaram um pouco, hoje seria mais uma peleja dominical entre amigos. A bem do rigor histórico, todos eles eram amigos ou relativamente próximos, em especial os, até aí, compagnons de route Soares e Zenha.
Ao longo dos anos, alguém que, como este lisboeta, cresceu à beira do imponente edifício à entrada do Saldanha, assistir ao seu abandono em 1989 e à sua crescente decrepitude, é algo que doi na alma. Visceralmente.
Durante todo este tempo, como otimista crónico que sou, tenho acalentado o sonho de um dia ouvir da boca de um autarca mais avisado o desejo de adquirir e reabilitar o edifício de inspiração neorrenascentista, neomaneirista e Arte Nova e torná-lo num museu dedicado à República. Tendo em conta a sua centralidade e o facto de ser cercado por três avenidas que celebram o regime instaurado em 1910, faz todo o sentido. Acima de tudo, convinha não se tornar em mais um hotel de charme ou alojamento local.
E sobretudo, não ter o mesmo destino que aconteceu ali ao lado, quando, durante o mandato de Kruz Abecassis se deu a criminosa demolição do Cine-Teatro Monumental.
Voltando ao início e à memorável eleição, cuja segunda volta terminou com a vitória do socialista e eterno combatente pela democracia que temos hoje (sim, é o autor moral do 25 de novembro!), não esqueço com saudade alguns episódios desses dias atribulados, como o comício do Freitas no Campo Pequeno, cheio de direitolas com os famosos Loden verdes, a que, na véspera de um exame de Inglês no liceu e um pouco a contragosto, eu e a minha irmã Ana fomos com as nossas primas e os nossos tios ou, claro, o emocionante discurso de vitória do Soares à varanda do palacete do Saldanha.
Acabo de descobrir que o velhinho palacete foi ainda sede de campanha e cenário da vitória retumbante do peculiar Sousa Cintra na presidência do meu Sporting, numa altura em que ligava pouco à bola e que fiz o que, hoje, me esforço por evitar nessas situações: fiquei em casa.
Assim, e também para combater o pensamento bacoco de que “antigamente é que era bom” (não, não era, em especial para aqueles que acreditam e votam cegamente nos extremistas!), deixo o repto: com ou sem néon, devolvam a dignidade ao palacete do Saldanha e, porque não, transformem-no num espaço museológico vivo dedicado à democracia – o tal sistema que, citando o Churchill, “é o pior com a exceção de todos os outros”.

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