“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
A folha de sala rodeia de aparato retórico a peça em exposição. Os textos na parede enumeram, com a grandiloquência possível, as referências que norteiam o trabalho do artista. Curadores gastam o seu melhor latim para garantir ao espectador que estar ali vale mesmo a pena, que poder presenciar semelhante objecto é um privilégio. Voltamo-nos então para a obra, desejosos de encontrar por fim a materialização de tantas ideias luminosas, e descobrimos que fica a nadar nas roupas que lhe costuraram.
Esta experiência de um desfasamento entre o que o discurso promete e o que a obra dá é frequente naquilo a que se costuma chamar o mundo da arte. No caso de O Anjo, uma das obras preferidas da própria Paula Rego, adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian já no fim da vida da artista portuguesa, passa-se de certo modo o contrário – e essa capacidade de mandar calar os encómios à sua volta é uma marca da própria grandeza artística. Há na pintura de Paula Rego como que um segredo às claras, uma qualidade simultaneamente límpida e abissal, que nem os discursos mais perspicazes conseguem traduzir com êxito.
Como se sabe, a história da arte está pejada de representações de anjos. São criaturas tão prolíferas que até a categoria “anjos fora-da-caixa” daria para encher vários volumes. Na literatura, encontramos um exemplar excelente desta categoria num conto de Bernard Malamud, “Angel Levine”, em que o protagonista, um Job do século XX que acumula desgraças nos subúrbios nova-iorquinos, vê a sua existência animada pelo encontro com um anjo negro de roupas esfarrapadas. Na arquitectura, vale a pena referir um dos desenhos preparatórios de Álvaro Siza para o projecto do bairro da Malagueira: sobre a paisagem alentejana, abençoando a perspectiva das casas por nascer, voa uma inesperada criatura angélica. Na pintura, um caso pelo qual tenho particular simpatia é o quadro de Caravaggio, hoje perdido, A inspiração de S. Mateus – resposta a uma encomenda para uma igreja romana, que viria a ser rejeitada devido ao aspecto excessivamente rústico do apóstolo. Nele, um belíssimo anjo, feminino e cheio de graça, orienta o braço do tosco Mateus para que este escreva o Evangelho. Todos estes exemplos servem para dizer que, enquanto exploração atípica de uma figura típica da história da arte, O Anjo de Paula Rego está bem acompanhado. Ainda assim, a pintura da Gulbenkian não deixa de ser, mesmo neste sub-grupo, particularmente anómala. Basta dizer que, se a víssemos sem conhecer o título, não estaríamos agora a falar de anjos.

O sinal mais imediato da subversão levada a cabo por Paula Rego, além da feminilidade do anjo, é o rosto desafiador da figura. O sorriso – esse esboço de sorriso, altivo e feroz, que ecoa em nós muito depois de termos visto o quadro – constitui uma provocação à expectativa de docilidade que a legenda produz nos espectadores. Descontando espíritos decaídos como Lúcifer, a representação convencional do anjo passa por uma expressão amena, bondosa e feliz; afinal, o que caracteriza os mensageiros divinos, livres do peso do corpo e da atracção pelo terreno, é a disponibilidade para a Palavra do Senhor, com a alegria completa que isso acarreta. Ora, o primeiro contacto com O Anjo implode qualquer expectativa desse tipo, não só porque nos é apresentada uma criatura de rosto desafiador, como disse, mas também por causa da fisionomia, dos traços duros e pesados de Lila Nunes, modelo desta e outras tantas pinturas de Paula Rego. Ao fazer a mulher empunhar uma espada e uma esponja, trazendo para a tela aspectos da narração bíblica, a artista intensifica o jogo para que o título nos lança. A figura angélica herda, assim, a aura sagrada dos anjos tradicionais, a sua elevação simbólica, mas reinventa-a de um modo imediatamente desconcertante. Torna-se, como escreveu Helena Freitas, uma imagem de perdão e vingança ao mesmo tempo.

Outros dados sobre O Anjo poderiam ser trazidos à liça, como o facto de pertencer a uma série de pinturas criadas a partir de O Crime do Padre Amaro e a intenção de representar uma vida alternativa da protagonista do romance queirosiano. Seja como for, este é um daqueles casos em que se torna clara a autonomia da linguagem visual, a sua irredutibilidade às “mensagens” e “narrativas” que projectamos nas imagens. Se no caso da arte não-figurativa há uma reivindicação explícita dessa autonomia, ela não é menos operativa na pintura que trabalha com figuras reconhecíveis. O Anjo de Paula Rego é uma prova forte de tal princípio, quer simpatizemos quer antipatizemos com as causas da artista. Vendo-o ao vivo, testemunhamos algo muito para lá das eventuais teses políticas, éticas e antropológicas que as opções da artista possam querer expressar. A experiência de ver o quadro é, sobretudo e antes de qualquer leitura posterior, a experiência de encontrar uma mão mágica, um poder estético prodigioso, que doma as formas, as cores e os materiais com um conhecimento de outra ordem. O contraste entre a saia e a blusa da mulher é, só por si, uma ocasião de maravilhamento para os olhos, de engasgamento para o discurso.
Fascina-me em particular a maneira como, apostando todas as fichas na clareza formal, o quadro consegue criar uma sensação de enigma – de uma realidade mais alta do que a própria realidade. Ao contrário de muita arte contemporânea, e fazendo lembrar nesse aspecto alguns retratos de Lucian Freud, Paula Rego recusa-se a representar o mistério das coisas humanas por meio de um obscurecimento artificial da expressão. Uma beleza quase sinistra desprende-se dos drapeados da saia, da inclinação da cabeça. Escondida atrás do sorriso pouco angelical da mulher, a pintora parece dizer, com a autoridade própria do génio: “Eu não temo a clareza, eu não me escondo atrás dos truques habituais, pois a minha mão recebeu um poder especial.”
*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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