Há um ritual novo e silencioso que se repete na Travessa de São Plácido, em Lisboa: a água aquece até aos 80 graus, o chá abre lentamente, e uma garrafa de saqué (ou sake, a bebida alcoólica japonesa) é aberta para todos nesta pequena sala, onde um grupo de pessoas se reúne – meio dentro, meio quase no passeio, sentados com os joelhos a tocarem-se, à volta de um aquecedor que luta contra o frio do inverno. É aqui, no Sakaya, que japoneses e portugueses se sentam juntos, de vez em quando, sem pressa, a falar línguas diferentes como se fossem, afinal, variações da mesma.
Yuki serve o chá biológico vindo das montanhas do Japão e os pequenos copos de sake. A música tradicional japonesa toca nas colunas, como fundo das conversas. Aqui sentam-se portugueses estudantes de japonês, entusiastas e curiosos, para praticarem a língua com um falante nativo – enquanto Yuki também aprende um pouco mais de português, até inglês.

Juntamente com a namorada Natsuko Mizutani, Yuki gere o Sakaya, que recentemente deixou de ser apenas uma loja de saqué e chá japonês para se tornar um lugar de encontro e partilha cultural. Um conceito inspirado nos quiosques ou lojas kaku-uchi do Japão.
Foi Natsuko a primeira a chegar a Portugal em 2016. Vinda de Itoshima, uma pequena cidade japonesa, com um visto working holiday e uma paixão antiga pelo surf. Via Portugal como um país bom para alcançar ondas que nunca tinha surfado. E Lisboa como um território de liberdade – uma liberdade de expressão e de corpo que contrasta com o rigor que associa ao Japão. Falavam-lhe em português, língua que não compreendia, mas a sensação de pertença instalou-se ali, de imediato.

Anos mais tarde, Yuki Mizutani seguiu-lhe os passos até Lisboa. Fotojornalista, trabalha entre Portugal e o Japão, com um propósito claro: “transmitir ao Japão a maravilhosa cultura e forma de pensar de Portugal”. Assina reportagens e séries fotográficas para revistas japonesas, onde retrata costumes, modos de vida e gestos quotidianos portugueses com um olhar atento, quase doméstico.

Enquanto desenvolviam carreiras paralelas, foi-lhes parar às mãos uma missão: uma casa lisboeta que parecia ter os dias contados. O Sakaya, propriedade de Izumi – também dono do restaurante Sakemico, a poucos metros dali – funcionava como loja de produtos japoneses e preparava-se para encerrar. Yuki e Natsuko mudaram o rumo deste lugar. E que hoje existe ali não foi desenhado como conceito: cresceu por convivência.
Apesar das diferenças culturais e das dificuldades iniciais com a língua, ambos dizem ter-se sentido acolhidos desde cedo. A integração na vida lisboeta aconteceu de forma orgânica, através de pessoas, projetos e encontros improváveis.



Natsuko, especialista em nutrição e alinhamento corporal, trabalha também com surf, pilates, mindfulness e meditação. Em conjunto com Isabelle – ama dos seus dois filhos e especialista em educação na primeira infância -, organiza workshops de maternidade e parentalidade, dedicados ao bem-estar emocional, à criação de vínculos através da brincadeira e à saúde mental. Ali mesmo, no Sakaya, que vai sendo ocupado por estas iniciativas como se fosse uma sala de estar alargada.
Foi também em Lisboa que o casal se cruzou com a organização A Avó Veio Trabalhar, um hub criativo intergeracional. Yuki fez uma reportagem sobre o projeto e a ligação tornou-se tão próxima que, em abril de 2025, quatro das avós viajaram até ao Japão, guiadas por ele, numa experiência de imersão cultural que atravessou gerações e geografias.
Trazer o Japão (de volta) a Lisboa
Cá dentro, é Izumi quem seleciona os sakes a importar, orientado por um princípio simples: escolher saqué japonês autêntico, verdadeiramente bom, feito “do coração”, permitindo que Lisboa sinta que está a viajar até ao Japão.
Mais do que um espaço de consumo, a Sakaya tornou-se um lugar de permanência. Um sítio onde se fazem amigos, se cruzam línguas, se trocam histórias e se aprende a ficar. Um lugar para parar durante uma ou duas horas, respirar fundo e perceber que às vezes basta um chá à temperatura certa para construir uma ponte entre o Japão e Lisboa.
Por isso também, promovem ali cursos de sake sommelier e iniciativas como o Sake Sunday, que democratiza o acesso a sakes premium. Tal como o vinho ou a cerveja, o saqué apresenta uma enorme diversidade de estilos, preços e teores alcoólicos. No Japão, tanto se bebe sozinho, no comboio ao fim do dia, como em celebrações partilhadas.
Há também chá. Chá biológico japonês, produzido em Yame, a terra natal do pai de Yuki, numa região montanhosa de Fukuoka reconhecida pela produção. As temperaturas frias permitem cultivar várias variedades sem químicos — matcha com arroz torrado, chá verde, chá preto, koji cha. Todos são servidos a cerca de 80 graus, temperatura precisa para preservar aromas e tempo.
Natsuko prepara ainda onigiri (bolinho de arroz japonês) em casa, pensados para serem nutritivos (não fosse essa a sua área de especialização, a nutrição), com ingredientes escolhidos para equilibrar níveis de ferro.
Yuki e Natsuko têm planos simples, mas exigentes, para o futuro do Sakaya: melhorar continuamente o espaço e reforçar o seu papel enquanto polo cultural, tornando-o cada vez mais um destino de referência para a comunidade de Lisboa, através da língua, da comida, das bebidas e do bem-estar.
Uma sala modesta onde duas culturas continuam a encontrar-se, um gole de cada vez.
*Texto editado por Catarina Reis

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