
“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos existentes na cidade. Entre a abordagem historiográfica e a investigação jornalística, publicaremos todos os meses uma história da memória cultural de Lisboa, procurando assim contribuir para a sua biografia. Este projecto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Passavam poucos dias sobre a proclamação da República na varanda do edifício da Câmara Municipal de Lisboa quando um obscuro empregado de uma firma da Baixa arranjou finalmente tempo para escrever “alguma coisa” sobre o que acontecera na capital. Fê-lo em sete páginas, numa caligrafia elegante e quase sem rasuras, aproveitando o papel pré-impresso da “Commercio Frigorífico Limitada”, que tinha estabelecimento e escritórios nos números 179 a 183 da rua dos Douradores.
Aparentemente, tratava-se de uma carta (ou a sua cópia), mas também poderá ser um memorial (género moldável à epistolografia). Certo é que o destinatário nunca é enunciado, nem o manuscrito está assinado ou datado. No inventário dos fundos do Gabinete de Estudos Olisiponenses foi prudentemente identificado como “relato de um anónimo sobre a implantação da República”. Há, no entanto, algumas pistas no próprio escrito (supomos que inédito): sabemos que trabalhava na rua dos Douradores, vivia no Bairro Alto com a mulher, Ester, acreditava nos ideais republicanos, não apreciava vírgulas e redigiu a carta a 13 de Outubro de 1910 (quase a despedir-se, escreve que naquele dia saíra o decreto de extinção da Guarda Municipal, publicado no Diário do Governo nesse mesmo dia). Nem tudo nestes papéis é penumbroso.

“Quando um doido se lembrou de matar” Miguel Bombarda
A última carta que escrevera ao mesmo destinatário era anterior às eleições gerais de Agosto de 1910, as últimas da monarquia constitucional, porque preparava-se para relatar o que acontecera “desde as eleições de deputados”. “Foram uma grande derrota da monarquia pois que o partido republicano fez eleger 14 deputados.” O aumento da votação no Partido Republicano, sobretudo nos grandes centros urbanos (Lisboa e o Porto, em suma), duplicara a sua presença na câmara parlamentar, mas mantinha-se o rotativismo, cabendo desta vez a vitória aos regeneradores.
A atenção narrativa do nosso anónimo recaiu inicialmente sobre o Tejo e a Armada, contando ele que o Governo de Teixeira de Sousa decretara que os barcos levantassem âncora dos cais da cidade “só para furtar as guarnições a quaisquer motins que sobreviessem”. Autorizou-se apenas a permanência de um rebocador, o Lidador, “que como sabes não tem artilharia”.
A ordem governamental valeu de pouco porque nesta altura já a Carbonária convertera grande parte da marinhagem. Mas provavelmente o narrador não sabia disto – diz que depois da ordem governamental “estava tudo em sossego”, aguardando a reabertura das Cortes, “quando um doido se lembrou de matar um dos novos deputados o Dr. Miguel Bombarda”. Lembrou-se, por puro acaso, nas vésperas de uma revolução planeada há muito, a 3 de Outubro, sentenciando o médico republicano e maçon, envolvido na conspiração republicana, a uma morte sem glória.
Aconteceu isto às duas da tarde do dia 3, segunda-feira, e por volta das cinco “já havia pancadaria no Rossio com a polícia e o povo indignado”. Os ajuntamentos populares eclodiram quando se espalhou a notícia da morte de Bombarda. Na Baixa sucederam-se escaramuças com a Guarda Municipal, mas daí a poucas horas ascenderam para confrontos armados e tiroteios. Cerca das 20 horas, à saída do trabalho na rua dos Douradores, o narrador viu que “já os revólveres trabalhavam”. Apressou o passo e subiu para a colina de São Roque.
Pouco dormiu nessa noite. Às cinco da manhã, acordou com o som da fuzilaria: “Parecia o fim do mundo.” Quando se calaram as armas, gritaram os homens. Assomou à janela quando ouviu um sonoro “ai Jesus quem me acode!” vindo da rua e viu “um desgraçado caído por terra varado com duas balas e outro com uma perna no ar a fugir”.
A imagem, porém, não o apoquentou em demasia. Era terça-feira, dia de trabalho, apesar de aqui e ali ainda se ouvirem disparos de canhões, morteiros e armamento diverso. Fez a sua higiene, vestiu-se, almoçou (o catálogo de refeições das classes trabalhadoras ainda não decalcara o francês ‘petit-déjeuner’) e saiu de casa apostado em ir para a firma de “caves frigoríficas para conservação de carnes, peixes, fructas, flores, hortaliças e outros géneros alimentícios”.
Quando chegou à rua de São Roque (daí a umas semanas rebaptizada rua do Mundo, em homenagem ao jornal que ali tinha sede e redacção, e actual rua da Misericórdia) ficou “aterrorizado” com o que viu: elementos da Guarda Municipal “emboscados” nas travessas e ruas adjacentes, joelhos em terra e “prontos a fazerem fogo”. Nessa altura ficou indeciso sobre se ia para o trabalho, cumprindo a rotina quotidiana, ou se regressava a casa, mas ganhou “coragem” e continuou a caminhar em direcção à Baixa. A meio da rua ouviu um guarda gritar aos poucos transeuntes que ali passavam: “Para baixo passa tudo, para cima não vem ninguém”. Seguia, portanto, no sentido correcto.
“Cercado” na Baixa
Já no Rossio, caiu-lhe “o coração aos pés” com nova visão assustadora: identificou soldados de Infantaria 5 e Caçadores 5 “com as metralhadoras assestadas nas embocaduras das ruas em volta”. A estas guarnições de revoltosos juntar-se-iam ainda nesse dia uma coluna de militares e milicianos da Carbonária que planeavam tomar de assalto o quartel do Carmo, casa-mãe da Guarda Municipal. A ocidente, no terraço do quartel da Armada, os marinheiros “fizeram tão certeira fuzilaria que foi mais um esquadrão destroçado e de tal maneira que os cavalos já sem as praças fugiam em todas as direcções.”
O relato mais ou menos atabalhoado e distorcido do que acontecera na zona de Alcântara reproduzia o que o narrador lera nos jornais. O quartel dos marinheiros fora tomado, de facto, pelos insurgentes, mas no dia 4 estava cercado por forças do Exército, em muito maior número, e somente uma ordem de última hora para que os monárquicos se deslocassem para o alto da Penitenciária evitou o resgate das instalações pelos governamentais. Em Alcântara, valeram ainda aos militares insurrectos os grupos de anarquistas que varreram a cavalaria do bairro à força de bombas.
Quando o sossego começou a poisar em Alcântara, principiaram a ribombar os canhões na Avenida (que ainda não era da Liberdade). As baterias de Queluz e Infantaria 2 postaram-se junto à Penitenciária, escreve o nosso narrador, e dali faziam fogo para as guarnições de Artilharia 1 e Infantaria 16, acampadas no “alto da Avenida” (denominada então de Rotunda, ainda não do Marquês de Pombal).
A carta não o refere, mas quando este local passou a ser uma das linhas da frente dos combates, encontravam-se ali apenas algumas dezenas de militares e civis, que, para piorar a situação, estavam sem comando, mal armados e quase inteiramente sitiados por monárquicos. Algumas horas mais tarde, porém, a Rotunda foi reforçada com mais civis, sobretudo carbonários, e um chefe, o comissário naval António Machado Santos.
Mais abaixo, no Rossio, “fazia-se agora só defesa”, mas de vez em quando “uma granada era lançada demasiado longe e caía na praça”. “Eu posso-te afirmar tudo porque fui uma testemunha de tudo o que aqui se passou”, garantiu, contando que, por exemplo, por volta das quatro da tarde “caiu uma granada no prédio que faz o arco do bandeira e espalhou toda a metralha no meio dos caçadores”. Resultado: os soldados refugiaram-se na rua da Betesga, que, como se sabe, é pequena e estreita, pelo que rapidamente ficou a artéria “destroçada”.
Durante todo esse dia (4), o empregado da “Commercio Frigorífico Limitada” esteve “cercado”, impedido de atravessar a Baixa para retornar a casa, observando a revolução em curso desde a primeira linha. A rua onde trabalhava pertencia então ao 2º bairro da cidade, que era um dos menos populosos, com perto de 82 mil residentes, dos quais três mil eram imigrantes espanhóis, brasileiros, alemães e ingleses (por ordem decrescente).
Na capital, e segundo o censo de 1911, viviam cerca de 435 mil pessoas (um total não muito distante do actual: 575 mil).
Um passeio para ver os destroços
Novamente lá em cima, na Rotunda, as baterias de Queluz e Infantaria 2 eram esmagadas pelos revoltosos – “uma grande parte rendeu-se e entregaram dois canhões aos revoltosos”. No quartel dos Marinheiros, a oficialidade deixara tudo à guarda de populares armados e estes foram-se “entretendo” durante a noite “com o palácio das Necessidades a ponto de o destruírem quase por completo”. Esta tarefa, porém, não coube apenas aos civis.
Desde o Tejo, os cruzadores Adamastor e São Rafael bombardearam o palácio danificando a fachada, destruindo divisões e sobretudo despejando os inquilinos (a saber: a família real). Depois, dirigiram-se para o Terreiro do Paço para reforçar a retaguarda das forças estacionadas na Baixa e na Rotunda.

Ao princípio da noite do dia 4, crê-se, o narrador conseguiu furar as barricadas “por uma pequena abertura” na rua dos Capelistas (convertida pouco depois em rua do Comércio aquando da revolução toponímica da I República) e, após o jantar, passou um serão especial em família: “observar o tiroteio que era deveras curioso”, juntamente com a sua mulher, Ester. Apoiados no parapeito da janela, ouviam “tiros de canhão disparados da Avenida” e daí a pouco “respondiam as metralhadoras do Rossio com uma medonha fuzilaria” – “não sei se sabes que [os rebeldes, supõe-se] têm umas metralhadoras automáticas que dão 600 tiros por minuto” –, depois “calavam-se as metralhadoras, ouviam-se os canhões” e assim por diante, durante toda a noite. “Aqui de São Roque eram Lanceiros 2 e Guarda Municipal que entrincheirados na rua das Taipas e na alameda de São Pedro de Alcântara [jardim de S. Pedro de Alcântara] faziam fogo para a Avenida, do Príncipe Real para o Terreiro do Paço alguns canhões de Queluz a fazerem fogo estas que eram as medonhas assobiavam por cima destas casas.”

A certa altura, o casal refugiou-se “na casa mais interior possível” – Artilharia 1 lançou “um fogo tão nutrido” que caiu sobre uma parte da cidade “uma chuva enorme de metralha” e ainda “estilhaços de vidros de candeeiros, chumbo, etc”. A descarga durou “perto de uma hora”. Quando acalmou, ele espreitou novamente à janela e viu soldados de Lanceiros escondidos na rua da Atalaia.
Perto das seis e meia da manhã do dia 5, “calou-se tudo”, ou melhor, pararam os combates porque na rua já se ouvia “dizer vitória para a República” e a bandeira vermelha e verde foi arvorada no Castelo de São Jorge. “Começa tudo a sair para a rua para ir ver de perto os estragos causados pela batalha.” Ele e Ester também foram, claro, em passeio pelas ruas da Baixa, mas o cenário era “simplesmente horroroso”: “algerozes furados de lado a lado, candeeiros de iluminação desfeitos na rua de São Roque, bocados de carne espalhados pela calçada em frente do jornal Mundo [hoje a sede da Associação 25 de Abril].”
No Rossio, na rua do Príncipe (actual Primeiro de Dezembro) e na Avenida “seria pouco quanto papel houvesse para descrever tudo”. “Tudo” englobava, segundo a sensibilidade do nosso anónimo, mobiliário urbano, património edificado e natural e seres humanos. “O sangue era às postas houve desgraçados nalguns lados que parecia que tinham ficado em massa tal era a quantidade de sangue em frente do café Suisso [na praça D. João da Câmara, onde está hoje uma filial da Caixa Geral de Depósitos] todo em mármore cravejado de furos, o mesmo prédio mas da frente da Avenida com quatro enormes furos que cabia por qualquer deles um homem deitado, árvores enormes da avenida furadas de lado a lado, uma granada rebentou num telhado que fez incêndio um prédio ardeu tudo quanto havia para arder.”
A concentração de mirones avolumou-se de tal forma que a certa altura a artilharia recomeçou a disparar para dispersar a multidão. Fugiu “tudo para suas casas”. O casal também. A República fora já proclamada por José Relvas na varanda dos paços do Concelho, mas o narrador não mencionou o acontecimento, notando antes que nos dias seguintes aos combates a cidade regressou ao seu estado habitual: reabriram os teatros, voltaram a montar-se as tendas e bancas nas feiras, circulavam já comboios e eléctricos e no Rossio os únicos confrontos que existiam eram duelos entre bandas musicais militares que duravam a noite toda.
“RIP finou-se a monarquia”
Nos dias seguintes fizeram-se também batidas em busca de padres, monárquicos, polícias e guardas municipais. Na imprensa republicana corriam os mais variados e rebuscados boatos sobre o clero regular, com especial preferência pelos jesuítas. E o nosso autor embarcou e reproduziu alguns, concretamente os que propagavam a ideia de que os religiosos estavam escondidos nos subterrâneos da cidade, movimentando-se em túneis que eram verdadeiros arsenais de armas e munições. Estavam “preparados”, escreveu, apontando os “alçapões” descobertos no convento de Campolide, “disfarçados com lajes e portas de pedra nas paredes”.
No cenóbio do Quelhas, que estava vazio, havia até “uma santa com a mão em posição de abençoar uma vez que se levantasse a mão logo se abriram umas portas falsas de onde saíram 18 frades que foram imediatamente presos.” Por isso, o Governo ponderava barricar outros túneis “com enxofre e alcatrão para ver se eles saem”.
Na Ericeira, D. Manuel II e a família real embarcavam “em dois buques das armações do Catatau em direcção ao iate Amélia que os levou a Gibraltar”. A partida para o exílio tinha sido “tão apressada” que mal tinham tido tempo para “levar roupas e dinheiro”. “Foram quase só com o que tinham no corpo”, lamentou. Mas “RIP [Rest In Peace, Descansa em Paz, em português] finou-se a monarquia”. O país esperava agora pelos “progressos da nova civilização”. Esperemos que o nosso narrador não tenha tido um desgosto.
FONTES:
Gabinete de Estudos Olisiponenses, manuscrito, maço 1510 – “relato de anónimo sobre a implantação da República”.
Vasco Pulido Valente, “O poder e o povo”, Lisboa, Alêtheia Editores, 2010.
Hemeroteca Digital: Ilustração Portuguesa, nº 243, 17 de Outubro de 1910
A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria José Oliveira
Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios.

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Maria José Oliveira
Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios.

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