Quantas lojas podem dizer ter durado 90 anos em Lisboa? A histórica Farmácia Gomes – antes, chamada Farmácia LAB – fez parte da rotina da Rua Rodrigo da Fonseca, a uns passos do Marquês, na freguesia de Santo António, Lisboa. Abriu em 1934, atravessou décadas de mudanças na cidade e resistiu onde tantas outras lojas históricas fecharam portas, foram descaracterizadas ou transformadas em algo irreconhecível. Hoje, o espaço está fechado, mas quase intacto – e a história deste lugar, vazio, pode ainda não ter terminado.

O nome LAB vinha de “laboratório”, escolhido por Bernardo Augusto da Costa Simões, o dono que tinha alugado o espaço, para ali fundar uma farmácia que não se limitava a vender medicamentos: produzia-os. Cremes, comprimidos, fórmulas feitas à mão – primeiro ali, depois num laboratório no Campo Grande. Uma farmácia de bairro, mas também um lugar de saber e prática.

Bernardo Augusto Simões, o farmacêutico por trás da histórica farmácia Gomes/LAB

Bernardo Augusto, também conhecido por “mestre Simões”, terá sido farmacêutico, professor de cursos superiores de farmácia e trabalhado diretamente com grandes nomes da medicina. Num documento assinado por Guilherme Pereira, do Gabinete de Estudos Olisiponenses da CML de 2011, conta-se que “a pedido de Egas Moniz [conhecido médico, investigador e político] lhe preparou o líquido para contraste nas suas operações de neurocirurgia”.

Em 1917, chefiou o Serviço Farmacêutico do Corpo Expedicionário Português, sendo mobilizado para França na Primeira Guerra Mundial. Apesar da internacionalização e reconhecimento nacional, foi neste bairro e loja que deixou a sua maior marca.

O edifício que “curava” o bairro

O negócio foi gerido sempre pela mesma família ao longo de quatro gerações: passou do avô para a nora, depois para uma tia e, por fim, para Anabela Morais Sarmento, neta de Bernardo Augusto.

Anabela esteve mais de 30 anos atrás do balcão. Mas, antes, já era assídua por lá. “A minha infância é aquilo. Comecei a ir àquela farmácia ainda na barriga da minha mãe.” Conta sobre as visitas ao avô e as brincadeiras… a fazer misturas.

Talvez por isso, quando assumiu a farmácia, em 1986, recuperou uma tradição que tinha sido interrompida em 1970: a produção de medicamentos manipulados por receita médica. Uma verdadeira fábrica de fazer medicamentos, ali, no bairro. Anabela conta que muitas dessas receitas vinham do consultório no andar de cima, onde trabalharia o médico da família proprietária do prédio.

O edifício funcionava como um pequeno ecossistema de cuidados, algo hoje quase desaparecido da cidade.

“Uma pianista nossa cliente queimou a mão e veio cá: nós aplicamos-lhe várias camadas de um creme nosso à base de peroxipiridina e curou-se completamente. Aliás, a minha irmã também se curou bem e depressa depois de ter sido queimada nas costas por uma terrina de sopa a ferver! Era conhecida pela clientela como a ‘pomadinha’, o melhor dos nossos cremes dérmicos de entre muitos outros que produzíamos aqui e depois no Campo Grande. Também vendíamos chás, papas de linhaça, raízes de alteia e outras plantas!”

Anabela, para o documento do Gabinete de estudos olisiponenses da cml, 2011
A direção técnica da farmácia, entretanto com Anabela ao comando. Foto: DR

A Farmácia LAB fechou há cerca de dois anos, quando Anabela decidiu reformar-se, já perto dos 70. Vendeu o alvará e saiu.

E, para muitas lojas históricas de Lisboa, este momento marca o início do fim: obras profundas, descaracterização, transformações que as tornam irreconhecíveis. Aqui… talvez não.

Recortes de jornais nacionais sobre a Farmácia Gomes/LAB. Foto: DR

Uma farmácia-museu, a tentar resistir ao tempo

O espaço – com 111 metros quadrados – mantém-se intacto desde a sua origem. O mobiliário, os materiais, a decoração Art Déco por dentro e por fora continuam como sempre estiveram. E, por isso, durante anos, diz Anabela, era habitual ver estudantes de arquitetura visitarem a farmácia para observar aquele interior raro, quase congelado no tempo.

Terá sido decorado em 1936, dois anos após a construção pelo sobrinho do dono, Álvaro de Landercet Simões, vindo de Paris. Tornaram-se imagem de marca um relógio quadrado de mármore claro, as paredes e o balcão de madeira, e a característica coluna que parece uma palmeira estilizada, também em madeira.

Era como entrar num museu. Por isso foi classificado como património de interesse municipal – formalmente identificada na Carta Municipal do Património Edificado e Paisagístico da Câmara Municipal de Lisboa.

Estar incluído na Carta Municipal do Património significa que o edifício está, por isso, sujeito a normas de proteção do edificado, o que condiciona alterações exteriores e interiores significativas e exige parecer técnico municipal para intervenções que modifiquem aspetos relevantes do edifício. Mas o estatuto em nada previne o fecho de uma atividade – para isso, seriam necessários outros mecanismos legais adicionais.

Após o fecho, o local passou a ser usado como estúdio por Filipe Pinto Soares, um artista plástico e membro da família proprietária do edifício. Foi ele quem anunciou recentemente que o espaço está disponível para arrendamento.

O anúncio fala de “um espaço com alma, história e presença”, deixando claro que a intenção não é apagar o passado, mas dar-lhe continuidade. Filipe diz ter “muitas pessoas interessadas”, mas que estão a ser criteriosos na escolha.

Ele e Anabela recusam o destino mais comum das lojas que têm visto desaparecer à volta: a transformação da velha farmácia em algum serviço ou negócio indiferentes à cidade. A família quer que o espaço seja recuperado e volte a ter vida – não como peça de museu, mas como lugar ativo, aberto, com uso e significado.

O que Filipe gostaria era de ver este espaço tornar-se “algo interessante, como um café literário ou algo similar”, que mantivesse a traça antiga. A renda exigida é de 4 600 euros mensais.

Anabela assiste a este processo com sentimentos mistos: sabe que o futuro do espaço já não lhe pertence, mas espera que aquilo que o torna único seja preservado. A parede da frente, a coluna, os elementos mais característicos. Houve detalhes que já teve de retirar, como as letras com o nome do avô.

A histórica farmácia, hoje. Foto: Filipe Pinto Soares

Hoje, a Farmácia LAB está num ponto raro em Lisboa: está suspensa entre o que foi e o que ainda pode ser. E, numa cidade onde tantas lojas históricas desaparecem sem deixar rasto, este espaço permanece inteiro, à espera de alguém que lhe devolva uso – e de uma cidade que ainda saiba reconhecer o valor de continuar.


Sara Bassini

Nasceu em Itália, Veneza, e migrou para Lisboa, onde é estudante de jornalismo na Universidade Católica. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *