Hugo tem 27 anos e atrai muitas atenções na internet: com um rosto de aparência chinesa e um português ao nível de um nativo, publica vídeos no TikTok e Instagram com opiniões únicas sobre a atualidade e gastronomia. Chega a ser exótico, para muitos dos seguidores portugueses, verem um rapaz aparentemente asiático a falar de forma tão fluente e com tanto contexto sobre o país.

O que a maior parte das pessoas ignora logo à partida é: e se ele for, afinal, português?

Foto: Rita Ansone

Português ou chinês? Antes japonês!

Quando lhe perguntam como se identifica, o Hugo ri e diz: “Talvez meio português, meio cantonês? Mas eu conheço melhor as coisas portuguesas.” Hugo é, na verdade, português, lisboeta. O pai, com antepassados cantoneses, daquela região da China, nasceu em Moçambique em 1945 e mudou-se para Portugal após a Revolução dos Cravos, tornando-se assim um residente totalmente português; enquanto a mãe nasceu cantonesa, mas migrou para Portugal com a tia por volta de 1995. Hugo já nasceu em Portugal.

Se, por um lado, a sua aparência faz com que muitas pessoas assumam à partida que ele não é português — o que lhe valeu “uma infância difícil” por cá, de preconceito; por outro lado, pôde aceder cedo a dois tipos de culturas.

Ambos os pais trabalharam na área da gastronomia. O pai geriu um restaurante português chamado “Pão de Milho” durante mais de 30 anos. A mãe teve um restaurante de pratos cantoneses autênticos.

E Hugo herdou o talento.

Mas quando o jovem abriu o seu próprio restaurante não cozinhou comida portuguesa nem chinesa. Deixou isso de lado para seguir o interesse pelas culturas japonesa e coreana, juntamente com a esposa, Thalita.

Ilustração: Marta Cruz/Lisbon School of Design

Amor e um restaurante

Thalita percebe a ambiguidade que as pessoas sentem quando conhecem Hugo. Nascida em Almada, filha de pais brasileiros, mudou-se para São Paulo quando tinha apenas um ano e viveu lá até aos 13. Depois de regressar a Portugal, também passou por um período mais difícil, em que não era vista como portuguesa pelas pessoas locais, nem como brasileira.

Mas nenhum deles ficou preso na questão da identidade… e o tema até os aproximou.

Desde adolescente que o Hugo é fascinado pela cultura k-pop do Japão e da Coreia do Sul. Viajou também duas vezes para a Coreia do Sul durante várias semanas. Ao participar num evento em março de 2019, conheceu a Thalita que, influenciada pela grande comunidade japonesa em São Paulo, se tornou fã da cultura japonesa.

Em 2020, os dois decidiram abrir um negócio centrado no seu interesse comum: a gastronomia japonesa e a coreana. Em 2020, criaram uma marca, às portas de Lisboa, na Póvoa de Santa Iria, diretamente para todo o país e mundo, oferecendo serviços de street food. Depois, partiram para um restaurante em Lisboa: primeiro no Parque das Nações, depois Entrecampos e, mais recentemente, partiram para a zona de São Sebastião.

Chamaram-lhe “Yohoshiro” — parece japonês, mas não terá significado específico nesta língua, sendo apenas uma palavra criada ao estilo japonês para representar a identidade do espaço.

“Somos pioneiros deste tipo de restaurante aqui em Lisboa.” Porquê, afinal, Hugo? Ao olhar para o menu do Yohoshiro, não se encontra sushi, considerado obrigatório nos restaurantes japoneses de Lisboa e até noutros restaurantes asiáticos; e o ramen é uma oferta limitada em alguns eventos. Mas os fãs da cultura k-pop japonesa ou coreana vão encontrar aqui muitos snacks que aparecem em séries, animações e programas de entretenimento, como hot dog coreano e o favorito da personagem Doraemon, o dorayaki.

Uma grande característica do Yohoshiro é que Hugo e Thalita trazem para a vida real a comida japonesa e coreana vista no ecrã – tendo ganho a atenção de bloguers de comida no TikTok ou YouTube, a tentar recriar essas receitas.

Nesta jornada, não só a mudança constante de localização foi um problema, como também receberam uma avaliação negativa da Embaixada da Coreia do Sul – que, segundo o Hugo, não recomenda o restaurante. Por outro lado, durante os três anos em que estiveram no Parque das Nações, alguns grupos de fãs de animação e de k-pop gostaram tanto da comida e do ambiente do Yohoshiro que propuseram fazer parcerias com eles para organizar eventos no restaurante — tradição que se mantém mesmo após duas mudanças de localização.

Foto: Rita Ansone

Dizem não ter um plano específico para o futuro. Para eles, manter o entusiasmo e descobrir mais pratos é suficiente.


Silong Zhao

Nascido e criado na China, sou estudante de línguas, cultura e ciências sociais. O desejo de experimentar um novo estilo de vida e de conhecer um mundo maior me trouxe a Lisboa. Após um ano de estadia, agora procuro descobrir mais coisas interessantes e incomuns sobre esta cidade – daí estar a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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