“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
A Casa-Museu Medeiros e Almeida é uma arca do tesouro no centro de Lisboa que, por razões insondáveis, continua pouco conhecida dos lisboetas. A qualidade das peças e o cuidado da manutenção são de primeira ordem. Talvez a designação artes decorativas desencoraje um público mais propenso a outro tipo de expressões. Certo é que, da cerâmica aos relógios, do mobiliário às pratas, o espólio reunido por António Medeiros e Almeida abunda em matéria para a admiração.

Embora a pintura seja um entre vários núcleos importantes do acervo, e embora fosse um lamentável desperdício passar ao lado de obras como o relógio de sistema rolling-ball, o piano de meia-cauda Maison Erard ou as seis tocadoras de música em terracota chinesa, já valeria a pena pagar o bilhete só para ver quadros.
Um retrato de liceal feito por Delacroix, que em tempos pertenceu a Degas e levou o irmão do retratado a dizer: «É mesmo ele! Tinha mesmo esta cara de fuinha.» Um Arquimedes de porte imponente – a personificação da sabedoria emergindo do fundo negro da tela – que terá sido criado na oficina de Jose Ribera. Uma caricatura da exploração do homem pelo homem intitulada Cobrador de impostos, a castigar num riso vermelho-vivo as nossas misérias morais e colectivas, com a assinatura de Peter Brueghel, o Novo. A pintura que me impressionou mais foi, no entanto, um pequeno óleo sobre placa da autoria do irmão deste artista flamengo, também ele um pintor reputado. Trata-se de A Paragem, por vezes referido como Entrada em aldeia com moinho, de Jan Brueghel.
A quantidade de pintores ligados por esse apelido levou a que os editores do Dictionnaire des Peintres, Sculpteurs, Dessineurs et Graveurs apresentassem uma árvore genealógica para orientação do leitor. O nome mais célebre é Pieter Brueghel, O Velho, de quem são filhos os dois artistas expostos no Museu Medeiros e Almeida. Jan, porém, conviveu pouco tempo com o pai, morto quando o criador de A Paragem era ainda criança. O seu talento para pintar em formatos pequenos dever-se-á em parte ao tempo passado com a avó materna, responsável pela educação do órfão e miniaturista. Com um “vasto currículo”, que inclui passagens por Bruxelas, Antuérpia, Colónia, Nápoles, Roma ou Milão, e encomendas de cardeais e homens de negócios por toda a Europa, Jan Brueghel de Veludo não se cingiu a um único género pictórico. Uma visita ao catálogo disponível neste site dá-nos a ver pinturas tão variadas como grinaldas de flores e paisagens infernais. Trabalhou muitas vezes em conjunto com outros pintores, entre os quais o seu amigo Rubens – um exemplo da parceria é o excelente ciclo sobre os cinco sentidos exposto no Museu do Prado. Rubens fazia as suas figuras entrarem em paisagens e interiores previamente trabalhados por Brueghel.

Mas deixemo-nos de contexto e concentremo-nos em A Paragem, datado de 1606 e adquirido por Medeiros e Almeida em 1955. Vemos uma cena campestre, com dois viajantes em primeiro plano e muitas formigas humanas no seu labor diário. Comerciantes em trânsito, amigos na cavaqueira, camponeses que trabalham, pedintes de mão estendida, patos em fuga que parecem acrescentar à imagem ainda mais ruído e rebuliço. Um moinho do lado direito, em posição elevada, confere à tela um charme pitoresco, piscando o olho ao mito da “vida no campo”. A rasgar o espaço sobrepovoado que agarra desde logo a nossa atenção, vemos também um caminho que não se percebe bem onde termina, semi-bloqueado por uma árvore ao fundo, a perder-se na nebulosidade do horizonte. Esse elemento abre a realidade imediata do quadro a outra dimensão, introduz uma nota dissonante no pitoresco da cena. O encanto de A Paragem parece-me vir sobretudo desta mistura entre a representação de um certo tipo de experiência humana – viajar pelo campo, no meio da natureza e dos homens, na Europa do século XVII – e a insinuação de que a viagem maior na qual essa viagem se integra se encaminha para um destino sem nome.

Jan Brueghel deu à luz um quadro em que, coisa rara, o familiar e o desconhecido coabitam sem que nenhum dos dois perca força. Por um lado, temos o rame-rame da vida normal, um cortejo de imagens curiosas mas típicas. Por outro, a pintura está montada de forma a dirigir o nosso olhar para lá de tudo isso, para aquilo que se seguirá à paragem evocada no título, para o desfecho incerto da história já em marcha. Um artista menor forçaria a nota – e nós, espectadores, levaríamos com o esguicho de uma estética moralizante em cima dos olhos. Em A Paragem, de maneira diferente, há uma resolução suave do conflito entre a banalidade do quotidiano e a incógnita do paradeiro final para onde nos encaminhamos. Jan Brueghel dá corpo a um todo harmonioso, mas inquietantemente harmonioso, e concretiza assim um ideal artístico diante do qual tiro o meu chapéu.
Quando a vontade de escrever ficção se tornou mais séria, passei a anotar num caderno fórmulas sobre o que queria fazer. Escrevi a certa altura que tinha como objectivo criar histórias em que o quotidiano aparecesse sob pressão do infinito. Lembrei-me da fórmula ao visitar o Museu Medeiros e Almeida porque é uma descrição possível para esta pintura setecentista, esta cena com “mais um dia na vida dos camponeses” e um caminho misterioso a sobressaltar a nossa perspectiva, onde o comezinho da existência comum e o assombro do horizonte humano se fundem sem o histerismo das obras explicitamente simbólicas. O quotidiano sob pressão do infinito, por Jan Brueghel.


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