É entre as 17h e as 19h, à hora da pequena fome vespertina e do frio do anoitecer de outono, que sentimos no caminho de casa o cheiro delas. “Quentes e boas”, apregoa um fado antigo ou uma memória distante; mais silenciosa agora, continua viva esta tradição na nossa Lisboa. E são muitos os lisboetas a contar com o cheiro e a visão da fumarada vira-volteante trespassada pelas luzes que se acendem entre os prédios para não se entristecerem com a chegada dos dias mais cinzentos.
É aqui mesmo, na ruela que da Praça da Figueira desemboca no Rossio, que há três anos encontramos o Miguel a vender castanhas. Aos turistas, por certo, mas também aos locais, entre os poucos que moram por perto e os tantos que se dirigem à estação de comboios, rumo a casa.

No bairro contíguo onde mora (São Cristóvão ou “Mouraria de baixo”, consoante as opiniões), é mais conhecido como “Miguel fadista” ou “Miguel viola”, sendo a música o seu talento e ocupação principais. No documento: Miguel Loureiro, 48 anos.
As castanhas surgiram mais recentemente. Toca desde que é adolescente, aqui no bairro que o viu nascer a ele e a várias gerações ascendentes.
Fadista por gosto e improviso
Cantar para turistas e mostrar o que é o fado vadio é a sua forma de ganhar a vida, seja numa esquina de rua, com grupos trazidos por guias turísticos que já o conhecem, ou no bar onde é músico residente habitual na rua de São Cristóvão, o Catedrais Tapas Bar.
Mas a sua música não se resume apenas a isso: canta tantas vezes por puro prazer, com amigos, vizinhos e curiosos, em partilhas de boémia aleatória pelas tardes e noites dentro, em associações da sua Mouraria como o Grupo Gente Nova ou em improvisos na rua com o coro da Achada, também vizinho.

“Sabes… é que no inverno como há menos turistas e está mais frio é mais difícil fazer dinheiro com a música na rua, então isto das castanhas é um bom complemento, e assim também só começo nas cervejinhas mais tarde”, graceja, explicando a sua dupla vida.
Castanha na brasa: o talento que “puxou à avó”
Porque a jornada, a das castanhas, começa bem mais cedo e obriga a uma certa disciplina. Logo pela manhã, sai da sua casa na rua da Madalena e numa dúzia de pulos escadaria abaixo está no seu local de trabalho, pronto para começar o dia.
Ainda moram pessoas na rua da Madalena?, perguntará o leitor. E a resposta de Miguel é um pedaço de história da cidade. “Este prédio foi ocupado no pós-25 de abril durante o PREC, a minha mãe participou nesse processo”. É por isso que e o prédio não pode ser vendido enquanto ainda morarem aqui pessoas dessa geração, que “agora já são só dois velhotes”, explica Miguel, ciente de estar quiçá a aproveitar os últimos anos na sua casa, antes que lhe seja dado o destino habitual.
Quando chega lá abaixo, começa por meter fogo ao carvão e enquanto espera que aqueça vai dando um corte no meio das castanhas cruas uma a uma com uma lâmina curta, sem olhar, com o gesto do hábito típico do artesão. Atira-as para o balde lateral do carro, salga e depois está na hora de lançar a primeira fornada. “As primeiras castanhas que saem ponho-as aqui à vista para as pessoas verem, mas muita gente não sabe que na verdade as que estão mais quentinhas são as que estão guardadas aqui de lado nesta gaveta.”




As vocações de fadista e de vendedor de rua, Miguel atribui-as ambas às histórias das mulheres da sua família, ancoradas neste território. “Isto da castanha puxou à minha avó. Eu cresci no Largo da Achada, tenho quatro gerações neste bairro. A minha avó ia buscar fruta ao Mercado da Ribeira para depois a vender ali em cima, no Largo do Caldas. A fruta que tinha um toque já, ela oferecia a uma senhora que fazia uma salada de frutas que segundo consta era a melhor do bairro.”
Já quando lhe perguntam do fado, fala de uma outra mulher que o inspirou, uma tia “que cantava em casas de fado, chamava-se Maria Fernanda Pinto. Era mais conhecida por Maria Fernanda Tinto porque só cantava com tinto e eu também, se me deres um copinho de tinto fico logo bom”, continua, sempre com a réplica em riste.
Muitas vezes, mesmo depois de fechar e arrumar o carro das castanhas junto à boca do metro do Rossio, Miguel segue pelas escadinhas acima reencontrar a sua “namorada”, a guitarra que está à sua espera.
No Rossio ou no fado: a arte de bem receber
Os clientes das castanhas da Praça da Figueira são, hoje em dia, mais turistas do que locais, e Miguel comunica em inglês, castelhano, francês e italiano.
Apesar de ser nascido e criado na Mouraria e de assistir às mudanças radicais, incessantes e nem sempre positivas que lá vão ocorrendo, Miguel não se deixa abater e também não guarda rancor contra os turistas. Acolhe-os, com a sua teatralidade habitual, em becos e travessas com um sonante “welcome to our neighborhood” ou “bienvenus à notre quartier“. E isto não apenas numa perspectiva comercial para benefício próprio, mas com uma simpatia e uma hospitalidade genuínas.
Isto porque, sendo um puro bairrista, não se limitou sempre a sê-lo: já esteve do outro lado do espelho e por 10 anos foi um português pelo mundo na Guiné-Bissau, de onde voltou a falar um crioulo guineense que também surpreende as suas clientes. “Eu pessoalmente sempre me interessei por tudo, vivi dez anos em África e quando vais para África aprendes muito, então para mim não faz sentido não ser acolhedor com os turistas.”
“Lá em Bissau eu geria uma empresa com a minha mãe e a primeira coisa de manhã era oferecer o mata-bixo às trabalhadoras, e de repente começam-te a te convidar para ir a casa delas.” Reversamente, e apesar das vicissitudes sentidas como fruto das políticas praticadas pelos poderes públicos neste território, no micro-cosmos daquilo que é praticado individualmente de um para um, Miguel acaba por considerar a hospitalidade como um valor supremo de conduta.
Talvez não haja melhor modo de resumir esta sua filosofia do que partilhando um excerto escrito há mais de 100 anos por Nietzsche, ensinando-nos por vias do acaso essa dura arte de manter os corações intactos por baixo das cascas duras… das castanhas, é claro. Dizia ele que “ficar um minuto a mais sobre as brasas ardentes e queimar-se um pouco – que lhes importa, aos homens e às castanhas! Essa pequena amargura e essa pequena dureza permitem, afinal, sentir-lhes o coração doce e macio.”


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Só para dizer que não existe Mouraria de cima nem de baixo. S. Cristovão e S. Lourenço foi uma freguesia agora Santa Maria Maior, Mouraria é um bairro. Nasci nessa freguesia S. Cristóvão, no Largo da Achada em 1956. Não induzam as pessoas em erro, O Miguel Angelo não é da Mouraria, mas sim de S. Cristóvão e S. Lourenço.