Tiago Torres da Silva diz-se letrista, em vez de poeta, mas o teatro é sempre a base para escrever uma canção. As saudades de Amália emergem constantemente na conversa, bem como a necessidade perene de passarmos a gostar de nós próprios. Essa é a chave para despertar mentalidades e para a cultura conquistar o protagonismo devido, assim extingamos extremismos e etiquetas. O camaleónico autor (adjetivo seu) olha para diante e vê gente capaz. Para isso é preciso ócio e vida: o tempo é hoje.

Nasceste em Lisboa, mas foste para Trás-os-Montes estudar Engenharia Zootécnica. Que caminho foi esse?

Convencem-nos de que não podemos ser o que somos e que temos de ter um ‘plano A’ para sobreviver, e eu acreditei. Ali, ou ia ser professor ou ia ser uma outra coisa em que acreditei. Tinha 17 anos, estava em Vila Real, e foi o maior erro que fiz na vida, mas está feito. Ao ir para um ambiente que me era hostil, aprendi sair de mim e a ser arrojado, e isso teve reflexo no que escrevo e na maneira como chego às pessoas.

Perdeu-se um bom engenheiro ou percebeste cedo que todos ficámos a ganhar?

Há coisas que são maiores do que as tuas escolhas, é a vida que não te deixa ir. Quando a vida escolhe não há nada a fazer, e ela escolheu esta vida para mim. O meu primeiro livro foi há 35 anos, e há mais de 30 anos que pago as minhas contas com o que escrevo. Essa é a maior vitória.

Com que idade descobriste que era por aí o caminho?

Sempre soube. Quando os meus pais morreram, encontrei os poemas que a minha mãe guardava desde os meus 5 anos. Ela dizia que eu ficava a ver o Natal dos Hospitais à espera da Amália. Portanto, sempre esteve lá.

E quando sentes que Lisboa te chama de volta?

Em 1992, no fim do curso, ao pensar “como é que vou dar a volta à minha vida?”. Durante algum tempo achei que ia ser aquilo; se eu não tivesse a audição no Teatro Aberto não sei se teria sido capaz, acho que foi um ato de coragem. A vida estava a puxar-me para ali, e eu a dizer que não, mas naquela altura disse ‘sim’. É estranho como passou tudo tão depressa. Mas passou e vai continuar a passar. O meu tempo é hoje.

Carlos Leitão e Tiago Torres da Silva, no Museu do Fado. Foto: Inês Leote

Leia aqui a entrevista completa:

Entre teatro, jornalismo, encenação e canções, atingiste o reconhecimento das pessoas. Tens alguma área em que te sintas melhor?

Tenho mais prestígio como letrista, é onde dediquei mais tempo, mas o lugar que eu mais gosto é o teatro. Na verdade, sempre que escrevo letras de canções é como se estivesse a escrever teatro, a fala de uma personagem. A personagem é o fadista ou o cantor que lhe vai dar voz. Penso sempre de um ponto de vista teatral. 

Há uma razão especial para isso?

Acho que é muito fácil as canções caírem num lugar onde não dizem nada; são poeticamente bonitas, mas não dizem nada. O teatro tem a força de dizer, e face aos tempos complicados que estamos a viver, a arte tem de reclamar o lugar de contrapoder, eu preciso disso porque as oposições são muito frágeis.

Letrista ou poeta, o que preferes?

Letrista. Li uma entrevista do Leonard Cohen em que ele disse que “ser poeta não é um ofício, é um veredito”. Quando escreves, queres tocar na poesia, chegar-lhe, mas se chegares uma ou duas vezes na vida, já é muito bom. 

Entretanto, no percurso, o surge o Brasil…

Na Expo 98. Foi a vida a querer. Tinha uma peça em cena na Barraca, e a produtora de um grupo de chorinho que veio atuar à Expo, quando saiu do aeroporto, o táxi capotou e ela partiu um braço. Como não podia trabalhar, aproveitou para ver espetáculos, e foi ver o “É o mar, Alfonsina, é o Mar”, baseado na canção da Mercedes Sosa. Pensou levá-lo para o Brasil, e o Festival de Curitiba convidou-me. Estava lá a responsável pela publicidade do Roberto Carlos, Marília Pera, e nas estreias tínhamos a Elza Soares, Ney Matogrosso, Bibi Ferreira, todos na plateia. Dois anos depois eu estava a dirigir a Bibi Ferreira, e o Ney a gravar uma canção minha.

Quando voltavas trazias a frase do Artur Ribeiro, “Lisboa é sempre Lisboa”?

O Tom Jobim disse que “Nova Iorque é muito boa, mas é uma merda. O Rio de Janeiro é uma merda, mas é muito bom”. Digo que passei a olhar para Lisboa de uma maneira diferente. São Paulo é uma cidade bruta, concreta, onde tens de estar à procura dos detalhes. Isso não acontecia em Lisboa porque é bonita de todas as maneiras, é fácil. Em Istambul aconteceu-me o mesmo; acho-a parecida com Lisboa.

Foto: Inês Leote

Como é que a apresentas?

Lisboa é tudo e o seu contrário. Quando olhas para ela no fado, nas marchas, ela é quase freira, no primeiro, e na outra anda a sair com uma data de namorados; ou é recatada ou chega a casa às sete da manhã, bêbada. Eu acho que Lisboa é indecifrável, indefinível, é uma coisa que será sempre outra.

Continua a ser fado aquilo que lhe vês ou já é outra coisa qualquer?

O fado tem a força que suplanta tudo, mas não está a ser cronista de Lisboa, e o fado sempre foi cronista de Lisboa. Quando os jovens me pedem fados sobre ardinas e varinas, eu pergunto: “Onde é que vocês estão, e onde é que está isso?”. Há mais de 20 anos escrevi “A última varina” para a Maria João Quadros. Pronto, não há mais.

Tal como Lisboa, também as célebre tertúlias de artistas se transformaram. Como imaginarias a ‘tua’ Amália na atualidade?

Curiosa, à procura dos poetas jovens que estão a aparecer. Ela, já depois de deixar de cantar, era ávida por ler a poesia dos novos poetas, não gostava de cantar a ser uma repetição de si mesma. Lamento que quem a quer imitar não a emite na curiosidade, na vontade, apenas no que é inimitável. O António Vitorino d’ Almeida disse, sobre isso, que “o homem que imite as ondas apenas dá cambalhotas”.

Queres ser mais específico?

Acho que foi muito bom ter morrido na hora em que morreu, porque ela levava isto muito a sério. Houve uma mudança muito grande depois da sua morte: os artistas passaram a ter menos peso, os managers e os produtores passaram a ter muito mais.

Como decorre o teu processo criativo?

Quanto mais escreves para uma pessoa, melhor escreves para ela. Eu gosto de mergulhar com a pessoa e ir à procura de um objeto artístico que não seja uma compilação de canções, uma história que não precisa de ser uma história. Gosto de correr a vida de um cantor e não a escrever pontualmente. A Mísia disse-me que eu era o mais corajoso dos poetas do fado; quando estava para morrer gravou o último álbum, e pediu-me um fado como se já estivesse morta. Pensei que, de alguma maneira, tinha de ir a esse lugar. É um mistério como consegui “As Palavras vestem luto”, é das letras que mais me orgulham.

Portanto, a proximidade faz-te escrever melhor?

Sim, gosto de acompanhar percursos, de ver como as pessoas evoluem, às vezes tu não descobres as coisas importantes nas grandes conversas, mas numa coisinha qualquer, uma xícara, um olhar, algo que te desperta. Por falar nisto, vai ali o João Nunes, um grande fadista para quem nunca escrevi.

Alcanças a realização pessoal sem a profissional, ou são indissociáveis?

Eu não tenho vida profissional, eu tenho uma vida; ou estou sempre de férias, ou nunca estou de férias. Estou aqui a falar contigo e a pensar numa peça que tenho de escrever, e não sei o que é que vai acontecer. Para mim, só existe a vida. Eu nunca me vou reformar, posso deixar de trabalhar porque fisicamente não sou capaz, caso contrário não.

Daí, os workshops de escrita que dás. Surpreendes-te?

A poesia do fado andou por vários lugares e a qualidade subiu muito com a chegada do Alan Oulman à vida da Amália. Essa é a grande revolução poética que a trouxe a um lugar incrível que foi mantido na geração seguinte: Teresa Tarouca, Maria da Fé, João Braga, Beatriz da Conceição, Maria José da Guia, são pessoas que gravaram poetas incríveis. Depois da morte da Amália, com este ‘novo’ Fado – não gosto da expressão – a palavra perdeu lugar. As pessoas acham que, porque sentem uma coisa, podem escrever um poema. Não é assim. Tu não podes ser um bom poeta se não fores um bom leitor. Hoje, a maior parte das letras estão a ser recicladas de reciclagens do que foi muito bem feito pelos poetas populares e pelos eruditos. Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, Mário Rainho, João Monge – são mestres – mas acho que ainda há um gap. A Terezinha Landeiro, o Flávio Gil ou o José Quintela são ótimos exemplos de uma nova geração.

Mas, afinal, o que continua a faltar?

Tudo está ligado com aquilo que falámos da tertúlia e da proximidade; eu tento muito ser um elo nesta cadeia, e se um dia falares com eles, podes comprovar que eu estou sempre a tentar passar-lhes coisas, puxá-los, levá-los para longe, e às vezes tenho a noção de que sou muito chato. Estou muito interessado em contribuir para que uma nova geração de poetas apareça no fado com força. 

Por falar em novas gerações, como vês a realidade social deste tempo?

Com o que a minha geração e a anterior fizeram, não pensei ver o mundo como o vejo agora. Uma das coisas importantíssimas da minha geração era ninguém ter uma etiqueta, e agora toda a gente quer ter uma etiquetazinha.

Era proibido proibir, e agora são os mais liberais que estão a querer proibir uma série de coisas. Isso assusta-me imenso.

É por esses lugares que começam a entrar ideias perigosas de extremismos. Mais uma vez é nos detalhes que os começo a ver, e esta loucura das redes sociais faz com que se perca um tempo de ócio que é fundamental para que possas progredir.

Foto: Inês Leote

E de que forma é que o fenómeno influi nessa progressão?

A criação exige muito tempo, daquele que as outras pessoas acham que tu não estás a fazer nada. Às vezes dizem-me que sou muito rápido a escrever; eu levo é muito tempo a preparar a escrita, e quando me sinto preparado então já é rápido. Mesmo que eu viva pior financeiramente exijo de mim um tempo diário de ócio, de me dedicar a olhar para a janela, e mais nada. É importantíssimo.

Há pouco dizias-me que há uma parte do teu cérebro que está sempre a pensar na criação. O que vem aí?

Teatro. Vem uma peça em dezembro. No ano que vem, a “Imitação dos Pássaros”, uma peça que eu escrevi por causa da “Gaivota”, do Tchekhov; no ano a seguir também já tenho outra estreia marcada. Vou fazer um disco que me agrada muito com uma cantora portuguesa e músicos estrangeiros. Não quero continuar a escrever letras como fiz até aqui, isso para mim é claro.

É então uma questão de desafio ou de serenidade?

Eu só quero coisas que me entusiasmem, tenho um entusiasmo pela vida infantil, continuo a acreditar que vamos mudar o mundo, e se o artista perder a criança, perde o artista também; é uma coisa entre a criança e o louco que o artista tem de ter sempre. Se perder isso…

Mas esse processo criativo empanca de vez em quando, ou não?

Já me aconteceu com dois cantores: eu dizer que sim, mas não ser capaz de escrever. Quando escrevo, tenho de encontrar a pessoa dentro de mim, ou não serei capaz de escrever, mas houve dois ou três que eu busquei e não encontrei, e não fui capaz.

E eles?

Ficaram zangados porque acharam que eu não quis escrever para eles. Ao fim e ao cabo é uma espécie de exercício mental; consegues decifrar o fim e o cabo. 

És fácil de aturar?

Eu sou uma pessoa alegre. Todos os que dividiram casa comigo dizem que sim, mas quando as pessoas são violentas, congelo. Se me derem 10 segundos para me recompor, eu fico 10 vezes mais violento. Se algum dia forem violentos comigo, não me deem esses 10 segundos. Contudo, profissionalmente, sou fácil, pelo menos os atores dizem que é muito bom trabalhar comigo.

Além de Amália, que referências trazes no percurso?

Aprendi a escrever para o fado nas conversas com a Amália, e ainda hoje há muita coisa que ela me disse e que me serve. Uma vez o João Lourenço deu-me um livro do Ray Loriga, escritor catalão, e mudou a minha vida: passei a escrever de outra maneira por causa de “Caídos do Céu”, tinha uma secura contrária a tudo o que eu tinha lido, ganhei a coragem de tirar a adjetivação, e acho que foi um salto gigantesco na minha escrita. A Clarice Lispector: lembro-me de ter 15 anos, e pensar que não entendia nada do que estava a ler, mas adorava. Depois o Chico, gosto da liberdade com que o Chico Buarque escreve, ajuda-me a ir buscar outras coisas. Mas são tantas referências, e isso é tão bom!

Ouvi, algures, que “o Tiago Torres da Silva é um escritor com vários escritores dentro”…

Eu sou bastante camaleónico. Lembro-me de estar no mesmo dia a escrever para a Celeste Rodrigues e para a Daniela Mercury, e adoro isso. E adoro poder, no teatro, escrever um drama e depois escrever uma revista. Eu canso-me muito das coisas, portanto, quando me canso, quero ir fazer outra coisa. E não gosto de fazer o que já sei.

O que falta à cultura de Lisboa e à do país inteiro?

Falta gostarmos de nós próprios. A Amália começou a cantar em 1939, começou a fazer espetáculos no mundo inteiro em 1942, e fez o primeiro espetáculo em Lisboa em 1985. A Beatriz da Conceição ou a Teresa Tarouca, no auge, nunca fizeram um espetáculo em Lisboa. É tão ridículo! Por exemplo, o fado não pode perder a câmara do tempo. Quando a Amália cantava o fado Cravo, “Maldição”, ela estava à espera de sentir a maldição para a poder dizer, e isso causava uma tensão no público que o mantinha agarrado. É o fadista que manda no tempo. Precisamos mesmo de passar a gostar mais de nós.


Carlos Leitão

Fadista e com amor ao Fado, Carlos Leitão é um cantautor, compositor e músico português.

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