Foto: Oliver Zaciu.

Em 2020 fiz da minha missão experimentar os restaurantes com estrela Michelin em Portugal — que, surpreendentemente, são muitos — mas apenas um deles me deixou verdadeiramente sem fôlego. O chef Ljubomir Stanisic é exatamente o tipo de artista que se espera encontrar num restaurante aprovado pelo Michelin: um criador ousado, cuja visão não se deixa ofuscar por modas culinárias passageiras nem pelo kitsch das folhas de ouro.

Em vez disso, a história bósnia apresentada no 100 Maneiras é um caminho sinuoso pelos sabores da infância de Stanisic, marcada pelos traumas da guerra e pelo calor de uma família a tentar tirar o melhor partido da comida racionada. Enquanto a maioria dos chefs de fine dining usa a sua plataforma para contar “uma história”, Stanisic usa o seu restaurante para contar “a sua história”. É uma experiência profundamente pessoal, que realmente faz sentir como se tivéssemos sido teletransportados para um episódio de Chef’s Table.

Faz todo o sentido que a escassez possa gerar criatividade, porque o 100 Maneiras é tudo, menos previsível. O facto de ter perdido a estrela em 2025, enquanto restaurantes muito menos inovadores a recuperaram, lembra-me porque é que não levo o Michelin assim tão a sério.


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