Eu tenho uma amiga, a Maria José Oliveira, que é sábia e conta bem o que sabe. De vez em quando ela entra por Espanha adentro e vai de 1936 por ali fora, pela Guerra Civil. Doutorou-se à conta disso, mas do que mais gosto é quando, na viela dela, em Alfama, abanca com “mis abuelitas”, como chama às filhas e netas das antigas peixeiras do bairro. Um dia destes, a D. Alzira, na rua de São Pedro, dizia à Maria José que “ele há chás e ele há chás, os de pétalas roxas são os melhores.”

Ou talvez a velhota tivesse dito “de pétalas rosas”, mas não interessa. O que havia para tirar da conversa linda, e a minha amiga investigadora tirou, contou-se no Twitter [@majoliv]. Isto é, Alfama morreu, o tanas! Falta é olhar com argúcia, saber ouvir, amar sem vergonha. Pessoas e pétalas andam sempre por aí, a nutrir a cidade.

O infinitamente pequeno is beautiful está outra vez na moda. Outro instruído, falo de António Barreto, também está na mesma onda. Escreveu ele há pouco no Público que para decidir o que votar nas próximas autárquicas já tinha um exigente caderno de reivindicações.

Ele vota, disse, em quem cuidar do Jardim da Estrela.

Apoio. Embora Barreto talvez pudesse ter sido mais ambicioso: porque não estender o seu programa-jardineiro às presidenciais? Seria exemplar, como projeto nacional, não só de cidade, salvar aqueles 4,6 hectares de Portugal metidos em cinco cantos de pequenas ruas lisboetas. De Vilar de Perdizes a Tavira, com salto às ilhas, comícios, debates na tevê e nas paragens de autocarro, manifestações – tudo e só sobre o Jardim da Estrela.

Candidatos a Belém escrutinados por saberem da poda, não por terem lábia ou por combinações lá atrás . Uma campanha, não de promessas, mas de medidas exequíveis e imediatas: por exemplo, para cada grupo de quatro idosos, um baralho de cartas para jogar a sueca. Uma campanha combatendo os problemas com factos e não promessas.

Demografia, a pique? Eis o Jardim da Estrela como exemplo, a não freguesia do país com a maior proporção, pelo menos das 7 à meia noite, de carrinhos de bebé por habitante!

Em todo o caso, o método de construir a ambição através de programas mínimos, mas incisivos, micro propostas de vistas largas. Sabendo cada vez mais de um bocadinho, acabamos por saber um bocadão do todo, o país.

Então fala-nos de ti, Jardim da Estrela.

Ilustração de Nuno Saraiva
Leia aqui os outros artigos desta série Fala-me de ti, Lisboa

Em 1921, os patrões do jornal O Século convidaram António Ferro a cuidar da Ilustração Portuguesa, a revista semanal de um grupo em crise. Salazarista em construção (ele ainda não o sabia), mas homem de bom gosto, o Ferro pegou nos seus amigos, modernistas e não, o António Soares a fazer capas, o Bernardo Marques a desenhar transeuntes à volta do lugar contado, o André Brun a deitar olhares cínicos de quem acabara de chegar da guerra de trincheiras, o Almada a fazer o que lhe dava na gana, o piscar de olho aos bons, apesar de não correligionários (Aquilino, por exemplo, e ilustrado por Leal da Câmara), o preparar talentosos para voos mais altos, Leitão de Barros, Cottinelli Telmo… – enfim, o António Ferro a fazer o que melhor sabia, apaparicar patrões para mais e melhor comandar com fulgor.

Aquela experiência da revista moderna durou só meses, teve azar de acontecer no pior ano da República, o desgraçado 1921. Numa madrugada de outubro, foram mortos Machado dos Santos e José Carlos da Maia, que derrubaram a monarquia, e António Granjo, primeiro-ministro, três homens bons e não videirinhos. Meia década restava à democracia e nesse prazo mais de vinte governos sucederam-se. Naturalmente, quando surgiu um professor coimbrão e seco, a ditadura plantou de estaca. Durou meio século.

Em todo o caso, aquelas Ilustração Portuguesa do Ferro foram meses de um grafismo surpreendente e narração vívida, do melhor que já tivemos. Todas as semanas, na secção “A Descoberta de Lisboa no Ano 1921” (sim, a nossa Fala-me de Ti, Lisboa é um plágio), o repórter da revista andava por um lugar da cidade – um só, porque o singular sublinha e a chusma dilui.

Na primeira semana de dezembro de 1921, Fernanda de Castro andou pelo Chiado e contou-o em poema, aberto pela quadra:

Rua Garrett, dizem as esquinas
Mas que importa o que dizem os letreiros
Chiado velho, moço, das esquinas
Dos ourives dos ‘teas’ e dos livreiros.

Reparem, Fernanda de Castro não era neta de peixeiras de Alfama, mas também ela, já então, citava pétalas de chá.

Bernardo Marques, com caneta de ponta azul-turquesa, debruou os versos com desenhos. Um ardina descalço e calça remendada, um modernista com chapéu Fedora, um galego com corda grossa ao ombro, pronto a carregar às costas o que lhe dissessem, uma elegante com perfume Coty, um vendedor com mostrador portátil de gravatas, um oficial medalhado da Grande Guerra…

Na semana seguinte, a revista acedeu ao pedido da poetisa Castro, ainda por cima mulher do diretor Ferro, e foi emendada a repetição da última palavra do terceiro verso. E este ficou assim: “Chiado velho, moço, das meninas”. O jornalismo é vivo ou não é. Há um século e quatro anos, pelo menos, era assim.

Por exemplo, o tal vendedor de gravatas, quando o vi pela primeira vez (por estes dias, ao compor esta crónica), logo o reconheci.

Vinte anos depois de ter sido desenhado por Bernardo Marques, ele foi fotografado na esquina do Loreto, a estender um sapato a alguém mais pobre do que ele, um engraxador. Lisboa passeia-nos por lugares e tempos. O tal fotógrafo, outro exemplo, foi um judeu parisiense, Roger Kahan, aqui de passagem para se salvar, 1940.

Fotografia de Roger Kahan com um vendedor de gravatas.

Então, fala-me de ti, Jardim da Estrela.

Antes, porém, um pormenor. Em 1925, vésperas da ditadura, tendo Ferro ido estudar ditadores para o estrangeiro, a Ilustração Portuguesa chamou, para a direção, Carlos Malheiro Dias (1875-1941), homem de ideias, mas desastradas. Acabara de publicar uma Exortação à Mocidade, onde anunciava a chegada do Desejado já para uma próxima madrugada, séculos depois do invocado ter levado uma trepa num deserto aqui ao lado.
A Malheiro Dias, então, respondeu António Sérgio, um intelectual com ideias, ponto. Muito prático, Sérgio disse ao outro que o problema com D. Sebastião não era o seu iminente regresso do deserto (séc. XX), era o que raio tinha ele ido lá fazer, ao tal deserto (séc. XVI). O assunto ficou arrumado. Mas outra questão é mais complicada e traz-nos Malheiro Dias à atualidade e ao Jardim da Estrela.

Ele era luso-brasileiro, nascido no Porto de pai português, e filho de brasileira. Essa dupla pertença levou-o a interessar-se, toda a vida, pelo destino comum de Portugal e Brasil. Ainda hoje raros são assuntos mais interessantes.

Machado de Assis

Carlo Malheiro Dias foi para o Rio de Janeiro e lá publicou, muito jovem, mas já seu segundo romance, A Mulata, em 1896. Olha, o ano da primeira sessão da Academia Brasileira de Letras, que nesse mesmo dia elegeu Machado de Assis para presidente. Assis era mestiço, filho de um mestiço, pintor de paredes, que se casou com uma açoriana branca, lavadeira. O escritor mestiço casaria com a portuguesa Carolina, burguesa do Porto, de família frequentada por Camilo.

Na linda vivenda do Rio, que já foi demolida, nº 18 da Rua do Cosme Velho, ele assinava “Machadinho” nos bilhetinhos para ela, a quem chamava “Minha Carola”. Viveram 35 anos juntos e quando ela morreu, 1904, quatro anos antes dele, ele fez o soneto “À Carolina” e morreu de tristeza,

Manuel Bandeira disse que era um dos poemas mais comoventes da literatura brasileira. Manuel Bandeira pode dizer coisas sobre poemas, pois tem um que é assim: “

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa de pedir licença.

Mas onde é que eu estava… Ah, já sei, então, no ano em que o maior escritor do Brasil foi considerado o maior escritor do Brasil, eleito pelos seus pares, o jovem Malheiro Dias publicou um romance. E chamou-o A Mulata.

O título podia ser só relevar a tez da protagonista, um pormenor como chamar ao livro “Honorina”, que era o nome da mesma pessoa. Podia ser A Negra ou A Ruiva, a Desidéria ou a Maria. Ou O Corcunda de Notre Dame, que é nome de outro romance. Mas o autor, depois de titular A Mulata, explicitamente escreveu ser isso, ser mulata, uma abominação: “Ela não era só morena, tinha o sangue mau da raça negra.”

E mais, explicou que essa cor, errada para o autor, era a condição relevante que conduziu todo o enredo do romance.

Para Malheiro Dias, o determinismo da função histórica das mulatas, na sociedade brasileira, permitia à raça negra “degenerar os brancos pela miscigenação”.

Escreveu Carlos Malheiro Dias, escreveu no contexto, no subtexto e em palavras corridas: “A raça negra feita escrava, degenerou-se no sofrimento. Vingou-se assim dos brancos, dando-lhes, quando livre, um sangue terrivelmente mau, em que escorria ódio, cobardia e perversidade”.

Sim, ficou escrito.

Já não era só a nação interpretada pelo viés tradicionalista exacerbado, aquela coisa do Desejado e da madrugada a chegar em breve, isso, o conservador Malheiro Dias iria, ele próprio, encarregar-se de ridicularizar.

A Mulata é outra coisa. É racismo. É imputar a um grupo social ou étnico um preconceito que torna qualquer elemento desse grupo, inevitavelmente, portador de um defeito. E, dessa suposição, dada como um facto, concluir-se a necessidade de perseguir e diminuir direitos ao putativo criminoso. Por exemplo, dirão outros, “és preto, logo não podes jogar futebol.”

É insídia insistente, capaz de aparecer num romance editado em 1896 e pronto a ser servido, hoje, todos os dias, no Twitter. E a comparação temporal, há cento e tal anos e repetida hoje, só nos faz recear que o presente seja menos capaz de reagir ao crime. Entre outras razões, porque o jovem luso-brasileiro, ao menos, assinava o que dizia. Não é a peste difusa, de hoje. em grande parte anónima.

Dias no Jardim da Estrela. Foto: Inês Leote

Mas o Carlos Malheiro Dias, que teve ele, afinal, a ver com o Jardim da Estrela? Já lá vou, por enquanto há gente mais importante a ser referida. Em fins da década de 1950, Rómulo de Carvalho tinha casa em Campo de Ourique e era professor de Química no Liceu Pedro Nunes. Ganhou o hábito de casa-trabalho, vindo a pé pelo Jardim da Parada, descia pela rua da Estrela, virava à esquerda na rua de São Jorge e no monumento do Pedro Álvares Cabral, ofertado pelo Brasil em 1940, aceitava o gesto do Pero Vaz de Caminha – “É já ali!” (dizia o bronze do famoso repórter, apontando para as suas costas) – e assim entrava o professor no seu laboratório do liceu. Vinte anos disto.

Que o professor Rómulo de Carvalho frequentava o Jardim da Estrela quando havia um largo intervalo entre duas aulas, sabe-se. Na verdade, não era bem ele, era o outro ele, o poeta António Gedeão. O pseudónimo António Gedeão fez versos por toda a cidade – por exemplo, na calçada de Carriche, um dos mais célebres:

Luísa sobe
sobe a calçada
sobe e não pode
que vai cansada…

Já ele próprio descansava no vizinho Jardim da Estrela, depois da estátua do Cabral era logo o portão norte, por onde entrava para que a vida se expusesse a ele:

E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol…

Foto: Inês Leote

E o Carlos Malheiro Dias? Por enquanto está de castigo, eu não lhe perdoo o racismo em A Mulata. Mas, já agora, uma explicação a um amigo que me lê por cima do ombro. Diz ele que não percebeu aquela minha definição de ato racista, lá atrás: “És preto, então não jogas futebol”.

Eu explico. Em 1923, o Vasco da Gama, o clube mais português do Rio, ganhou, pela primeira vez, o campeonato carioca e repetiu a vitória no ano seguinte. Por acaso, Malheiro Dias estava mais uma vez no Rio, lançavam-se os três volumes, que ele coordenou, da monumental História da Colonização Portuguesa do Brasil. A obra deu vontade de mais – ah, as ilustrações de Roque Gameiro! – mas só se falou do primeiro século da colonização. Tem graça, parou naquela tolice de Alcácer-Quibir, 1578, que ia deitando toda a grandeza para o galheiro…

É pena a História da Colonização Portuguesa do Brasil não poder repescar mais um episódio do andarmos mais ou menos juntos há muito. Eu escolheria um acontecimento do ano 1924, glorioso, que se pode resumir a uma palavra. Uma. Eu sei que o Brasil já era independente, e há um século, mas Portugal foi determinante neste caso, ajudou a dizer a tal palavra.

Como já foi lembrado, o Vasco da Gama ganhou, então, dois campeonatos de futebol seguidos. Sim, o clube dos tasqueiros e dos Manéis e dos imigrantes pobres e dos pobres em geral. Já na primeira, e repetiu-se na segunda vitória, o Vasco foi prevenido pelos outros clubes: se quiseres continuar a jogar, tens de despedir 12 jogadores!

Por acaso, todos negros, ou mais ou menos. É verdade, desta vez, não se falou de “sangue mau” e que “escorria ódio”. As justificações do racismo são sempre irrelevantes, sempre quaisquer, aumentam na veemência o que lhes falta em juízo. Louis Armstrong há de ter ouvido alguma vez “és negro, porque insistes tu em tocar trompete?”. Pois em 1923 e 1924, houve 12 cariocas que ouviram: “És negro, não jogas futebol.”

E se depois apareceu a possibilidade de ter havido Pelé e Garrincha foi porque a 7 de abril de 1924, o presidente do Clube de Regatas do Vasco da Gama, o português José Augusto Prestes, mandou uma carta aos outros clubes do Rio de Janeiro, onde basicamente dizia: “Não”. Essa carta ficou conhecida no futebol brasileiro como “Resposta Histórica”. Devia fazer parte da História da Colonização Portuguesa do Brasil, porque também a Resposta Histórica é monumental.

José Augusto Prestes nasceu no bairro de Benfica, Lisboa, em 1875. Na questão das relações culturais entre Portugal e o Brasil ele é o maior português nascido em 1875. Têm outro para a troca? Sim, Carlos Malheiro Dias, tirando o crime, muito embaixador foi de Portugal no Brasil e vice-versa. Mas o outro fez mais.

Sem o José Augusto Prestes, eu não teria, nas palavras de ordem da primeira manifestação pública da minha vida, 1958, sete palavras sagradas para dizer: “Djalma e Nilton, Didi e Zito, Garrincha, Pelé e Vavá!”.

Aos dez anos, na caixa traseira da carrinha Chevrolet do meu pai, a apitar por Luanda fora, eu abanava uma toalha verde e outra amarela. Duvido que Brasil tivesse chegado a campeão do mundo só com quatro nomes do poema que eu sabia de cor, dos onze que, afinal, cheguei a gritar. Teriam faltado os sete que não eram de brancos. Felizmente, o poema alinhou completamente e eu fui feliz.

Admito que o episódio pessoal seja irrelevante exceto para mim, traduzo para notícia seca: José Augusto Prestes meteu os pretos no futebol brasileiro. A enormidade de ter sido necessário uma carta, vontade e coragem para essa obviedade se consumar nunca deixará de me espantar.

E porque coleciono coincidências extraordinárias (definição: aquelas que sendo banais dizem tanto), lembro que no ano da Resposta Histórica, 1924, o presidente do Sport Lisboa e Benfica – o clube com nome do bairro onde o presidente do Vasco da Gama nascera – era Bento Mântua, nascido em Luanda, mulato. Dar conta de como isto está tudo ligado e é tão contraditório é meio caminho.

Andemos.

Entretanto é de lembrar um caso em que os dois cultos e gentis indivíduos e mesma pessoa já referida, o professor de Química Rómulo de Carvalho e o poeta António Gedeão, cada um virado para o seu saber, juntaram o saber de ambos no mesmo poema. Fins de 50, princípio de 60, a autoridade da Biblioteca Nacional anotou sobre “Lágrima de Preta”: “Publicado em Máquina de Fogo, 1961.”

Ponhamos: à volta de 1960, António Gedeão esteve no Jardim da Estrela. A prova, o tal poema. Por essa altura, em Lisboa aumentavam as imigrantes cabo-verdianas, fluxo secular que nunca secara. Vinham das ilhas da Boavista e de Santiago, havia muitas jovens, empregadas domésticas ou a cuidar de bebés de outras mães no bairro da Lapa. Era costume vê-las, negras, mestiças, nas tardes do Jardim da Estrela, no seu trabalho.

Jardim da Estrela. Foto: Inês Leote

O que António Gedeão viu naquela tarde do Jardim da Estrela e depois levou ao laboratório de Rómulo de Carvalho – uma lágrima – culminou, diria Manuel Bandeira, num belo murro da poesia portuguesa.

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar…

Isso fez Gedeão, o poeta. Levou-a a si mesmo e professor de Química usou um tubo de ensaio esterilizado, olhou a gota, mandou vir ácidos e sais, ensaiou a frio e ao lume, várias vezes. Deu sempre o mesmo:

(…) nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Sessenta e tal anos depois, as acusações criminosas de um infeliz Carlos Malheiro Dias, no Rio de Janeiro, foram sujeitas a uma investigação científica breve e simples, com paixão e compaixão, no Jardim da Estrela e arredores. E provou-se que A Mulata era tão-só a Honorina, mulher. As provas foram arrasadoras: uma mulher, água e um pouco de sal.

Um lugar como o Jardim da Estrela é abençoado. Tem cinco lados, mas é um pentágono modesto e soberbo, sem capitular e de paz. E com sucesso imediato desde o início. No álbum Esta Lisboa, Alice Vieira cita um velho olisipógrafo que assistiu, ainda garoto, à inauguração do Jardim da Estrela, em 1852: “As enchentes foram tantas que Júlio César Machado dizia ‘às cinco horas já custa a andar, às cinco e meia já ninguém anda, e às seis andam uns pelos pés dos outros’.”

O Jardim da Estrela teve sempre o condão de ser “o sino da minha aldeia” para cada um de nós. Em Lisboa – Livro de Bordo, Vozes, Olhares, Memorações (já aqui trazido, mas como perder mais uma oportunidade de saborear tamanho título?), José Cardoso Pires topa os velhos à sueca, batendo o às e a manilha: “No Jardim da Estrela, que é território de crianças, transformam-se em arquipélagos de conspiração de naipes, matando o tempo que lhes resta com encartes e destrunfos.”

Antes do portão norte, que já conhecemos, está o Museu João de Deus, inaugurado a 1917. A traça do edifício, de Raul Lino, é de lavar os olhos, quem lá passa, depois da curva apertada à volta da estátua de Cabral enrolado à bandeira, acentua o vagar para não perder aquela varanda aberta de meio círculo e seis colunatas. O traço dos interiores é de Leal da Câmara, suave, inesperado. Nas paredes, ele fez frisos de letras para enfeitiçar crianças para o vício de ler.

Leal da Câmara era goês, este Jardim da Estrela está sempre a chamar o vizinho, o mundo redondo, reconfirmamos. Na primeira passagem por Lisboa o caricaturista meteu-se com o rei D. Carlos, com uma espada fina, satírica, cruel. Conta-se uma parceria desigual de 105 encontros, com um sempre a ferir e outro a ser achincalhado. Era um duelo desigual porque um satirizava e o outro, que até também tinha artes, mas aguarelas de marinas, não serviam para ripostar.

Restava ser rei e ter um juiz às ordens, um tal Veiga que proibiu Leal da Câmara de desenhar a família real. Grande indignação de Guerra Junqueiro, poeta antimonárquico e anticlerical desde que lera Victor Hugo e matara Deus em A Velhice do Padre Eterno.

Em 1898, Leal da Câmara exilou-se em Madrid, frequentou os modernistas, e foi para Paris onde se tornou um dos grandes nomes de l’Assiette au Beurre, que estava para as revistas satíricas como o cancan para as danças enérgicas – era a marca universal.

Isto para dizer que quando a República surgiu, 1910, Leal da Câmara regressou com o seu talento imenso mais aprimorado. Depois, como a verve crítica esmorece quando as nossas ideias chegam ao poder, ele reconverteu-se parcialmente em mobiliário e decorações de interior, como no Museu João de Deus.

Também o seu velho protetor Guerra Junqueiro estava em deriva de arrependimento religioso. A República deu um suspiro de alívio quando ele morreu em 1923 e ainda pôde, enfim, dar-lhe um funeral de Estado no Mosteiro dos Jerónimos. Pouco antes, rebatizou o Jardim da Estrela em Jardim Guerra Junqueiro, não fosse a sua velha e popular bandeira parecer que se bandeara para outro lado.

É altura, pois, de entrarmos. Comecemos por saber que é no Jardim da Estrela que entramos, os lugares assim não se batizam por decreto, segregam eles próprios a sua fama. Do portão do lado sul, frente à basílica, passa o elétrico 28, hoje é “O 28”, Graça-Prazeres, uma marca internacional que faz turistas pacientarem em filas imensas.

O 28 dos turistas. Foto: Inês Leote

Quando vim estudar para Lisboa, em meados de 60, tive quarto na rua do Quelhas, a mesma da minha faculdade e próximo da Estrela. Um dia, na cantina, falando eu dos maximbombos (autocarros) luandenses, um colega lisboeta disse que esse era nome antigo dado ao elétrico-elevador, que, noutros tempos subia e descia, entre, ali ao lado, o parlamento e a basílica.

Eu tentei calá-lo com palavra em quimbundo, que inventei na hora. O maximbombo era genuinamente angolano, disse. Ele insistiu, deu pormenores, que já existia em Lisboa no virar do século e também lhe chamavam Mata-Cães por causa do cabo subterrâneo, que por uma ranhura no solo o puxava e era dado a acidentes.

Mais tarde, vim a saber, nem Luanda, nem Lisboa, o Recife era mais antigo. Importou em 1867 um engenho movido a acetileno, uma “machine pump” que, pela sonoridade, ficou conhecida como maxambomba.

O de Lisboa, mais recente, acabou em 1913 e a sempre disponível Ilustração Portuguesa fez uma longa reportagem, A Morte do Maximbombo.

Fiquei um pouco abalado pela falta de exclusividade da minha terra, mas ainda hoje me digo que o essencial estava salvo: “É com x.” E esse “x” rodava, assim mesmo, parava e rodava, frente ao Jardim da Estrela para voltar a descer – há foto de Joshua Benoliel, logo, é História.

Mais importante e o que interessa para este texto: estão a ver como o Mundo está sempre a intrometer-se no nosso cantinho, quando o cantinho é o Jardim da Estrela, poço sem fundo de acontecimentos?

O coreto, agora em obras. Foto: Inês Leote

No Jardim da Estrela até o coreto não tem raízes locais. O verde ferro forjado dele foi plantado no Passeio Público e só depois, quando este foi substituído nos Restauradores, para aqui veio, em 1936.

Também as suas árvores são um mapa-múndi: cedro dos Himalaias, figueira da Austrália, palmeiras das Canárias (e uma do México), louro do Japão, chá da Sibéria…

Foto: Inês Leote

Aqui, até em latim viajamos: Agapanthus africanus, Fraxinus angustifólia… Não perceberam a sugestão geográfica deste último? É um simples freixo das ribeiras portuguesas. Há um Fraxinus angustifólia perto do coreto, uma das raras árvores ainda com placa de identificação.

O Jardim da Estrela, apesar de ter usurpado, e bem, o nome a Guerra Junqueiro, é capaz de uma gentileza para com a terra natal do poeta. No centro de Freixo de Espada à Cinta, há um freixo com lenda: ali, D. Dinis amarrou a espada ao tronco e encostou-se a descansar (a lenda empurra o freixo a ter pelo menos 700 anos).

Se alguma daquelas próximas campanhas eleitorais de que falámos for avante, a autárquica ou a presidencial, só com o Jardim da Estrela como assunto, já temos uma cerimónia a fazer: a geminação dos dois freixos separados por 446 km.

Além do mundo entranhado, o Jardim da Estrela são histórias. Vou falar-vos de mais uma, como quem conta um filme.

Um africanista de Moçambique do séc. XIX, caçador de elefantes e empresário imaginativo, – até de uma companhia de cultura e comércio de ópio se lembrou – em 1869 chegou Lisboa com uma ideia e um chamariz. A ideia de Ignácio Paiva Raposo era chamar a atenção em Lisboa e, depois, procurar capitalistas em Inglaterra. Tipo Elon Musk, impressiona com uma moto-serra e depois vende-nos Marte.

A primeira fase (a do Raposo, não de Musk) foi um sucesso, só o atravessar da capital com um leão num caixote e o todo carregado por galegos porque todo o cuidado era pouco com a ferocidade do rei da selva, foi um alvoroço na cidade e teve milhares de sussurrações por todo o país.

Alguma coisa deve ter chegado a Londres, pois a segunda fase teve ainda maior sucesso. Capitais ingleses vieram dar à Sena Sugar Estates, a maior açucareira de Moçambique. Lisboa ganhou uma refinaria em Alcântara e, no Jardim da Estrela, uma jaula à entrada do portão norte com uma juba enorme, embora pachorrenta. Na verdade, o africanista tinha trazido um par, mas a viagem marítima matara a leoa. O leão trazia nome que logo se esqueceu, ficou o Leão da Estrela. Não virou o século, morreu de tristeza.

O Leão da Estrela numa ilustração do Diário Ilustrado. 1873.

Mas o mito ficou. O Leão da Estrela. O filme? Não, primeiro foi a peça. No teatro também houve Leão da Estrela? Sim, mas o melhor é começarmos pelo mito, senão ainda caímos na dúvida do Chiado, “quem primeiro, o poeta ou a praça?” Então, o mito ficou.

Tão mito que A Parceria, o trio dos mais populares autores de teatro de revista se lembrou dele, do Leão da Estrela, em 1925. Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos tinham o costume de escrever juntos a seis mãos. Para não perderem tempo, havia um sistema de fios que unia os três a um chocalho de cabresto. Se alguma ideia parva surgisse, bastava um deles não gostar, puxava o fio, o chocalho tlintava e saltava-se para outra ideia sem discussão. Eram companheiros de verdade, Ernesto e Félix até de carteira de escola… No ano de escrita da peça teatral O Leão da Estrela eles acabavam de fundar a Sociedade Portuguesa de Autores, da qual Bermudes foi presidente.

Daquela vez decidiram que a peça tivesse intriga política, pois Lisboa tresandava a golpe (que, aliás, sucedeu mesmo, no ano seguinte, a 28 de Maio). Sobre isso, chocalho calado, ok de todos. Depois, alguém sugeriu, como suplemento, desenhar o protagonista como fanático do “foot-ball”, paixão recente da cidade. Nem um chocalho buliu, quieta melancolia, ok. E nome p’ra coisa? “Leão da Estrela”. Quem disse? Ernesto Rodrigues, que era sportinguista e o clube já andava com o mito ao peito há vinte anos? Félix Bermudes, tão encarnado que já fora e iria voltar a ser presidente do Benfica, e na imaginação já lhe saltavam chistes para ridiculizar o ferrenho sportinguista da peça? Ou foi João Bastos porque sim, pois não ia em futebóis? O certo é que o chocalho não soou e o título foi aprovado.

Sabemos hoje a resposta. O título ficou porque A Parceria era profissional até ao tutano e “O Leão da Estrela” era um grandessíssimo título, um letreiro para enchentes. E, no entanto, havia ainda outra infeliz razão. Ernesto Rodrigues estava doente, morreria meses depois, aos 50 anos. Os amigos sabiam que se despediam. “O Leão da Estrela” seria a última peça de A Parceria, que durou 15 anos.

De cada vez que A Parceria encantava, o público queria saber quem era quem no grupo. Félix Bermudes escreveu: “O Ernesto respondia que o autor era o João; o João declarava que era eu; eu revelava com ar confidencial que era o Ernesto.”

Em 2009, o jornalista Pedro Caldeira Rodrigues fez tese de mestrado sobre o seu bisavô “Ernesto Rodrigues, Um Homem do Teatro na I República” que nos faz doutores sobre o assunto. Lisboa é sempre um encanto (até numa tese de mestrado), então quando mete o Jardim da Estrela à baila…

A peça em três atos estreou-se no Politeama no verão de 1925, caricatura, sátira, ironia, crítica de costumes, chalaça nacional, Lisboa. O protagonista, o sportinguista Anastácio da Silva, foi o ator Chaby Pinheiro, “inesquecível”, disse a crítica. O sportinguista queria ir ao Porto ver um jogo, não conseguia bilhete e explodia contra o Governo: “Corja de mandriões, quer uma pessoa divertir-se e não há comboio, não há nada!”

Um tipo pediu calma ao Anastácio e a bondade de o escutar, e o nosso exaltado respondeu: “Bondade! Ainda querem que eu tenha bondade! Bondade dava-lhe eu, mas era com uma bomba ali na estação! Não ia eu, mas também não ia mais ninguém.”

Tão lisboeta, tão tuga, tão giro quanto metafórico. Embora, em 1925, o riso já fosse um bocadinho do nervoso pelo que acontecia nas ruas.

O Chaby Pinheiro não se tornou inesquecível, já toda a gente que o viu no Politeama morreu. Por acaso, a peça de teatro O Leão da Estrela, em 1925, alertava para esse lado perecível que era o palco: durante a peça exibiu-se um filme curtíssimo, só para mostrar modernidade como já se fazia nos teatros lá fora. Mas também dizia que o futuro estava ali, no cinema. Arte que se guardava em bobinas.

Mais uma coincidência, a peça teatral O Leão da Estrela parecia que anunciava o filme O Leão da Estrela. Que de facto aconteceu em 1947, com António Silva a substituir o Chaby Pinheiro como Anastácio Silva, leão até às pontas da juba. E de António Silva ainda hoje se pode dizer: inesquecível. Porque o podemos ver todos os dias, em casa.

YouTube video

O filme abria com a cúpula da basílica da Estrela e as duas torres sineiras rasgadas por um nome escrito e sublinhado: “António Silva”.

O espírito da Estrela e a estrela que vendia. E depois surgia o nome do herói do nosso jardim: O Leão da Estrela. Baloiçam palmeiras e outro arvoredo, ao fundo: o Jardim da Estrela. O filme faz questão de mostrar as vedetas e só depois começa o enredo: foca as letras gordas da primeira página do jornal O Século. “Amanhã no estádio do Lima o Sporting e o Porto disputarão a final da Taça de Portugal”.

Que grande mentira! O filme é de 1947 e se a Taça de Portugal sempre se disputou desde a primeira, em 1939, a verdade é que em 1947 não houve Taça. No sofá, comendo pipocas, fiquei logo deliciado. Isto é mesmo ficção, é disto que gosto!!!

Entretanto, parei o vídeo para confirmar se O Século, em 1947, escreveu mesmo aquilo. Foi rápido, não vi. Aos diários importantes que me podem contar o século XX nenhum português tem acesso digitalizado: os arquivos do Século estão perdidos, os do Diário de Notícias estão a caminho disso. Só o Diário de Lisboa está digitalizado e como é sua obrigação e honra, de acesso público.

A antestreia do filme O Leão da Estreia foi a 25 de novembro, no São Luiz, às 21:30. Estou a ver o anúncio, e sob ele, outro, do Café Luso, casa de fados, prometendo Toni de Matos e, para a semana seguinte “Amália Rodrigues (A Alma do Fado)”. É tão bom falar tu cá tu lá com o passado.

Andei à procura da tal final de futebol e, nada, nesse ano não houve mesmo Taça. Mas folheando, é um prazer, um vício, ver a história quotidiana e digitalizada a passar por nós, dei conta que a 23 de novembro 1947, domingo, houve um jogo de futebol transmitido em escrita direta pelo Diário de Lisboa, que era vespertino. Jogava-se no Jamor e o DL deixou escrito:

“(…) Canto bem marcado por Albano, magnificamente recebido por Jesus Correia e rematado pelo nosso centro-avançado Peyroteo…” E golo! Era um Portugal-França amigável, jogado dois dias antes da estreia do Leão da Estrela, filme.

Desculpem, ide confirmar, não acreditem em mim. Em casa ou na praia, não precisam de ir à Biblioteca Nacional, http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=05781.045.11347 . Na primeira página do DL, 23-11-1947, escreve Tavares da Silva essa sequência “Albano-Jesus Correia-Peyroteo-golo!” Está logo em cima duma notícia dizendo: “(…) Se os judeus procuram um asilo, será melhor que lancem as vistas para outros lados porque prevejo que a Palestina virá a ser um verdadeiro inferno” (Agência United Press).

Portanto não estou a mentir.

Voltei ao meu sofá e à minha ficção, ia o filme com o Anastácio na sua sala de estar – rua da Oliveira à Estrela, nº 21, confirmei mais tarde, a pé, os azulejos da frontaria ainda são os mesmos, alaranjados e em caleidoscópio, na esquina vê-se o portão sul do jardim, virado à basílica.

Nessa rua estacionou o Lincoln amarelo descapotável, modelo 1947, do chauffeur Artur Agostinho que namorava a criada Laura Alves; de lá partiu o casamento rico da filha da família pelintra dos Silva; chegou o táxi com o regresso do misterioso Sr. Comandante, o proprietário do andar mais caro, o primeiro, da porta de rua nº 21… E de cada vez as imagens sempre estreladas pelas palmeiras das Canárias, do Jardim da Estrela.

Mas onde eu quero chegar é ao minuto 13:50 do filme, vejo o Anastácio [António] da Silva, na sala de estar pequeno-burguesa. Ele levanta-se e diz: “Vai ser um grande jogo, já os estou a ver… A bola…” E enquanto relata, joga com o corpo à volta da mesinha com toalha bordada e centro de mesa com flores… “(…) Albano passa a Jesus Correia, Jesus Correia a Peyroteo, que corre, chuta e golo!”, minuto 14:14. Paremos aqui, no pontapé do Anastácio ao tampo mesa, tolha, flores e enfeite, tudo pelos ares.

São os 24 segundos da história do cinema português mais misteriosos. Como é que aquela sequência – Albano, Jesus Correia, Peyroteo e golo – ocorrida num domingo, 23, (aconteceu mesmo, lembrem-se, está no arquivo gratuito do DL), vai aparecer, tal e qual, reproduzida numa longa-metragem na terça, 25?! Como é que o argumentista põe na boca de um ator uma intrincada sequência realmente acontecida e o filme estreia logo dois dias depois? Nem em Hollywood se acaba hoje um filme tão depressa, quanto mais em Portugal, que nesse ano, 1947, só fez dois filmes, aquele e o Capas Negras.

Só pode ter sido o sortilégio do Jardim da Estrela.

Na cena seguinte o Sr. Comandante, o misterioso do primeiro andar, vai provar que não percebe nada de futebol. Falando com o vizinho de cima, o excitadíssimo Anastácio que ia ao Porto assistir à tal final da Taça, disse-lhe: “Com o Azevedo à baliza o Peyroteo não mete uma…” Emendado, toda a gente sabe, ainda hoje, que ambos jogavam na mesma equipa, o Sr. Comandante agravou a sua ignorância: “Eu pensava que o Peyroteo era do Porto.” E António Silva: “O Peyroteo é de Luanda.”.
– Preto?
– Não, verde.

O diálogo tem tantos, tantos piscares de olho… Mais à frente, no apartamento do Sr. Comandante, António Silva arma-se de espingarda, mima que caça e dá um tiro num candelabro que despenca. Ah, isto faz-me lembrar o caçador Paiva Raposo que trouxe um verdadeiro leão para a Estrela… A jaula era ali vizinha, não era?

Voltando ao delicioso curto diálogo, Peyroteo não era de Luanda, mas da Humpata, no sul de Angola. De Luanda era o ator que fazia de Sr. Comandante, nasceu lá em 1898, filho de funcionário superior colonial. Tony d’Algy, assim vem na ficha, chamava-se António Lozano Guedes Infante. O nome artístico foi construído com as iniciais do nome próprio e dos apelidos, com o “I” de Infante virando “y”, quando ele chegou a Hollywood, a meados da década de 1920. Com a irmã, Helena d’ Algy, entraram em filmes com Rudolph Valentino, tendo ele também contracenado na estreia de Joan Crawford, futura diva.

Mas ainda mais extraordinário é, no filme português, a adaptação da parte política da peça teatral. Nesta, em 1925, no palco do Politeama, gritava-se contra o Governo e isso era normal e permitido na República. Em 1947, porém, já com mais de 20 anos na Ditadura, não se permitiria tal. Salazar, nem a brincar, ou melhor, sobretudo a brincar, aceitaria manobras conspiratórias.

Ora, em O Leão da Estrela, o filme, 1947, se a parte que se convencionou ser de “intriga política” passou a ser bem menor do que no guião teatral de 1925, nem por isso desapareceu.

O papel do Sr. Comandante é central: comanda um grupo de conspiradores, com ligações internacionais; há cenas com “documentos importantes”, “encontros secretos” e até uma partida inopinada e sigilosa do Sr. Comandante para Londres… Política descarada, e isso era pecado, quando cometido por civis.

No filme, como numa boa notícia, parecia haver respostas adequadas para tudo. Quem? Alguns, entre eles o Sr. Comandante. O quê e como? Uma conjura. Quando? À frente dos nossos olhos. Onde? Num primeiro andar da Rua da Oliveira à Estrela, nº 21… Do porquê é que não transpirou a ponta de um corno de pista. Ficou tudo confuso, o que, afinal, é um truque dos bons autores do teatro de revista: dizer as coisas explícitas estraga as boas piadas, o que é dúbio mais tem picante.

Isso alimenta uma suspeita. Será que o Félix Bermudes, um dos argumentistas de O Leão da Estrela, ousou algum anti salazarismo, raridade num filme do Estado Novo?

Das cores de Bermudes (1874-1960) não é preciso insistir, e nem se fala só da camisola benfiquista. Foi um republicano de vida inteira com o Hino da Maria da Fonte tocado quando lhe deram o nome a rua modesta em Marvila. Mas aparecer em filme popular um Sr. Comandante e à civil, metido em conjuras e simpático, em 1947? Quando o regime ainda estava debilitado por relações demasiado perigosas com os derrotados da II Guerra Mundial? E quando já se previa, para o ano seguinte, uma campanha presidencial do General Norton de Matos, outro ex-militar, sem farda, contra Salazar?

Candidatura de Norton de Matos às eleições presidenciais, comício de Lisboa (Voz do Operário). Maria Lamas, Manuel João da Palma Carlos e Cesina Bermudes, entre outros. fevereiro de 1949.

A filha do Anastácio da Silva, Juju (a bela Milú), no final do filme, de repente e sem nexo, casou-se com o Sr. Comandante e foi feliz, FIM. Na vida real, a filha de Félix Bermudes, a médica obstetra Cesina Bermudes participou na campanha de Norton de Matos, foi presa em 1949 e foi para Caxias, três meses. Ela foi pioneira em Portugal do parto sem dor. O Jardim da Estrela é sempre uma caixinha de surpresas.

Nesta série da Mensagem, Fala-me de ti, LisboaFerreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.


Imagem do avatar

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

Nuno Saraiva

Fundador da Mensagem de Lisboa, lisboeta empedernido, colaborou praticamente em toda a imprensa nacional. Cartunista político, o seu traço é o traço de Lisboa, é o autor das imagens das Festas de Lisboa de 2014 a 2017, criador dos troféus das marchas, e há 10 dos seus murais nas paredes da cidade. O seu livro Tudo isto é Fado! ganhou o prémio do Festival internacional de BD Amadora. Dá aulas na Lisbon School of Design e na Ar.Co. São dele a maior parte dos desenhos na homepage da Mensagem.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

1 Comment

  1. Texto excelente, com enquadramento cultural e temporal bem documentado, mas ao mesmo tempo leve, que só a “pena ” de Ferreira Fernandes consegue produzir. Parabéns e que se mantenha cá por muitos e bons anos!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *