Se Lisboa fosse corpo, esta avenida seria uma cicatriz. Somos obrigados a atravessar a artéria em fúria numa linha recta, seja no asfalto, ou entre os corpos desalinhados no passeio. A Almirante Reis é de (quase) todos e não é de ninguém. É impossível agarrá-la. Sobretudo, quem cá vive ou arrisca numa tentativa inglória descrevê-la. Líquida.
A memória é caprichosa e funciona assim, pelo menos a minha: um homem negro caminha com os pés descalços sobre as pedras brancas; do outro lado do passeio está um rapaz a coçar-se da barba aos pés; uma pessoa trans encosta-se a um trabalhador das obras pela sombra aveludada de uma arcada; um sem-abrigo levanta-se e parte com estrondo a montra de vidro da loja de colchas e naperões; um lagarto sobe o murete da minha varanda. Por trás de todos estes sinais estranhos esconde-se, com alguma maquilhagem é certo, a história perdida do nosso caminho – o que fomos, o que somos e o que temos medo de vir a ser?
Cheguei aqui há pouco mais de um mês. De Maio, vim de malas, como os turistas Airbnb do prédio do lado direito, e bagagens, como os imigrantes que descansam algumas horas nas camas no prédio do lado esquerdo. Sentado observo para vos tentar contar.
As mudanças são em nós um mergulho profundo. Adentramos num mar desconhecendo-lhe a espessura. E o meu mergulho inicial nesta avenida foi a pique, sem braços nem boias, nadando contra marés. Nadar entre cheiros, gritos, vizinhos, estoiros, bicicletas e lojistas. Remar contra uma crise imobiliária sem fim à vista, contra os salários mileuristas, contra os estigmas fáceis das redondezas.
Quando informei, Vou para a Almirante Reis, os rostos burgueses que me circundam contorciam-se como quem se depara com um diagnóstico terminal. Sobrancelhas arqueadas e rugas que se apertam como as curvas que aqui nem há. Tens noção das ambulâncias e das sirenes, das obras constantes, E tem garagem?, Não há onde estacionar!, insistiram como uma campainha ininterrupta. Como se o sítio onde escolhemos morar só pudesse ser habitável na mesma medida em que somos domesticados, anestesiados, assépticos e conformados. Todos querem fugir do coração. Artéria dos Reis. O pulsar da cidade nova ouve-se junto ao coração, esquecem-se que este é o órgão que bombeia o sangue e espalha a vida?. Devolvo o conselho: façam como a Lena d´Água e decidam Hipocampo.
Cai a noite enquanto vos escrevo. E arrisco abrir a janela dupla que calava a sinfonia do coração. Do lado de fora, a cidade perfeita para nos enlouquecer ignora o relógio escandarado a zeros; meia-noite e ainda há carros, há bicicletas e uma carrinha branca a dividir as frequências da orquestra grave com restaurantes e bares de luzes resistentes. A lua transforma-se num grande C, suspenso no canto superior do meu quadro leal. Letra de Cidade? Capital? De Começo? De Confusão? Ou talvez apenas: Casa.
Na primeira segunda-feira de Maio, volto do trabalho às onze da noite e parecem onze da manhã. Adormeço ao lado do meu filho e acordo um escritor diferente. Saio para tomar café, a jovem brasileira serve-me uma bica, e tropeço no rosto internacionalmente plastificado do político anti-imigração costumeiro em capas de jornal em estado terminal. Recebo um sms do rapaz nepalês, a mudança de casa tem estado nas suas mãos, nas suas costas, na sua cabeça e agora vai finalizá-la, Obrigado, Rossan.
Abro outra notificação e a notícia repete-se: o jornalismo morreu, a finança das emoções trágicas viverá sustentável. Não é informação, é entretenimento para ressentidos. Aquele rosto de plástico político outra vez, como se a minha cidade fosse apenas outro eco desse mapa-múndi repetido por mil capas, mil televisões, mil ecrãs. E a mensagem final: afinal não somos excepção. Mas há projectos jornalísticos a tentarem ser excepção, a trazerem-nos raízes de esperança.
Vou jogar uma partida de ténis em terra batida com o meu amigo Ben – nascido no Sul da China, trabalhou a vida inteira em Londres, veio reformar-se no nosso país. A tarde finda, os meninos guineenses brincam no parque junto ao meu filho. À noite, telefono à família que vive no Mindelo, São Vicente, Cabo Verde. E pergunto-lhes, depois de tantas linhas imaginárias, em crioulo: como travamos a estupidez mundial em curso?
Essa estupidez que não reconhece que o próprio mundo — como a nossa vida — é deslocação constante. Somos o outro. Somos a mudança que estou a viver. Como salvamos quem esqueceu os pais e avós a lavar pratos e escadas, na Suíça? A servir às mesas em França? A descarregar caixas na Alemanha? E agora votam em quem os expulsaria. Emigrantes contra imigrantes? Ironias impossíveis sem tradução simultânea.
Percorro o mundo inteiro a subir e descer o elevador do prédio. Em cima, uma australiana; em baixo, uma peruana; ao lado, casais chineses; à frente, uma florista ucraniana. Os calceteiros que alinham os símbolos da cidade também são cabo-verdianos — um badio, o outro sampadjudo. Um deles, solidário com as injustiças urbanas, pergunta-me, Quanto pagaste por esse multas? Ainda nem percebi bem a pergunta quando Mariana, emeliana de profissão e velocista de vocação, grita, feliz, na minha direcção, Não sabe que o passeio é para os peões? Em silêncio, boquiaberto, apenas consigo fitar a ausência de multas das motas reluzentes que pisam o tapete da cidade pintado pelos rapazes caboverdianos, os símbolos da cidade.
Tenho que dar razão a quem me avisara antes da mudança. A avenida é barulhenta. É insuportavelmente ruidosa, movimentada e confusa. E no entanto é a mais lisboeta das avenidas — aquela onde todos passam, mas poucos se detêm.
A Almirante Reis, esse lugar onde cabem todos e não cabe ninguém. Onde a cidade pulsa e expulsa. Consequências de um movimento progressista internacional, a constante destes corpos imóveis. Onde a multidão se transforma numa ilha. Nesta avenida híper-povoada onde também somos, tantas vezes, essa ilha: o lugar mais solitário da cidade. É aqui que me encontro, do alto do rés-do-chão da minha varanda navegante, tento alcançar tudo para vos contar nos próximos meses. Perscruto o silêncio suave da despedida de uma cidade que já não sabemos ser, mas onde corre um vento de esperança, quando o trânsito abranda. Ainda conseguimos abrandar o trânsito?
A Almirante Reis é o espelho que Lisboa evita, mas onde se convoca. Está aqui a cidade inteira, suja de fantasmas, cheiros, línguas, e com a promessa de um futuro que — apesar de tudo — já chegou.
*Texto editado por Catarina Carvalho e Manuel Afonso

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