O Zé Povinho nasceu há exatamente 150 anos, num desenho sobre a tradição lisboeta das Festas Populares de Santo António: crianças que colocam na rua um altar ao santo e pedem aos passantes umas moedinhas para o seu culto.
Foi no dia 12 de Junho do ano de 1875 que este desenho foi publicado por Rafael Bordalo Pinheiro no seu jornal A Lanterna Mágica. Nascia uma personagem que iria perdurar no tempo e ganhar um lugar no imaginário dos portugueses como um dos mais consensuais símbolos nacionais.
Calendário Portuguez
No desenho, a criança que faz o peditório é o Ministro da Fazenda (Finanças) António Serpa Pimentel, e o santo António é o Primeiro-Ministro Fontes Pereira de Melo, cujo primeiro nome era… António. O menino Jesus que este “santo” tinha ao seu colo era, de facto, o rei D. Luís.
Faltava a esta cena o pobre infeliz que daria o dinheiro que iria para o governo que suportava o rei – não podemos esquecer que Bordalo era republicano. Esse era o povo. Também aqui não faltou do barão de Rio Zêzere para persuadir o Zé a fazer o pagamento.
Estava criado o Zé Povinho uma personagem coletiva, que representa todo o povo português, que dá as suas últimas moedas (notem-se os bolsos revirados) para sustentar o governo monárquico. Por ser uma novidade, a personagem teve de ser identificada, e Bordalo apresentou-o aos seus leitores escrevendo na perna o seu nome “Zé Povinho”. Foi assim que surgiu este Zé Povinho.
Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em Lisboa, na Rua da Fé, em 21 de Março de 1846 e morreu em 23 de Janeiro de 1905, na casa onde viveu grande parte da sua vida, no largo que fica entre o Chiado, o Carmo e a Trindade, então chamado da Abegoaria e que hoje tem o seu nome. Foi, portanto, o que podemos chamar um verdadeiro alfacinha – mesmo não esquecendo a passagem pelo Brasil entre 1875 e 79, nem a profunda relação com as Caldas da Rainha desde que, em 1884, aí instalou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Lisboa é o grande cenário onde Bordalo se movimenta e o pano de fundo de grande parte da sua obra.
No final do século XIX Lisboa era o palco onde se desenrolava a vida política, social e cultural portuguesa, num pequeno perímetro delimitado por S. Bento, onde o Parlamento legislava, o Terreiro do Paço onde o governo governava e a Avenida da Liberdade/Passeio Público e o Chiado onde se assistia ao desfilar da vida social e cultural.
Este era o universo em que Bordalo se movimentava e onde recolhia as informações que alimentaram os jornais que começou a editou. Os primeiros foram A Berlinda e O Binóculo (1870 a 71) e A Lanterna Mágica (1875) para, depois de uma estadia no Brasil, lançar O António Maria (1879 a 1885) com que iniciou um período quase ininterrupto de 26 anos a publicar jornais: o Pontos nos ii (1885 a 91), uma 2ª série de O António Maria (1891a 98) e, por fim, A Paródia (1900), que publicava na data da sua morte, em 1905.
Estes jornais são uma fonte riquíssima de informações sobre a história portuguesa da 2ª metade do século XIX, mas também da história de Lisboa, o seu crescimento e as suas vivências, uma vez que Bordalo é também um cronista de Lisboa.
Esta cidade está povoada de personagens que vão desde o Rei e os políticos do governo e da oposição, aos membros de uma burguesia em ascensão, até aos tipos populares, como são as varinas, os galegos aguadeiros, os ardinas ou os carvoeiros que Bordalo traz para os seus desenhos.
O génio republicano de Bordalo vai acrescentar a personagem que criou: o Zé Povinho, como representante do povo português no seu todo, de uma forma muito peculiar.
Neste artigo, faço um passeio pela Lisboa do final do século XIX guiado por Rafael Bordalo Pinheiro e pelo seu Zé Povinho. O percurso passará pelos mais significativos espaços da cidade, numa escolha criteriosa de espaços e monumentos com um elevado valor simbólico e metafórico, como protagonistas ou simples cenário urbano em composições onde o efeito humorístico se alia à mensagem política dos seus cartoons.
O arraial de Santo António. O saltar da fogueira
A Paródia, 13 de Junho de 1900
Em 13 de Junho de 1900 vamos encontrá-lo no desenho O Arraial de Santo António. Vemos o governo de Luciano de Castro e seus ministros (Veiga Beirão, José Maria Alpoim, Manuel Espregueira e outros) a saltar a fogueira onde ardem as liberdades de imprensa, de reunião e de associação e também a constituição, a história e a fortuna pública. O Zé Povinho, a bailar alegremente, assiste à cena sem se preocupar com os desmandos do governo. A cena é decorada com um trono de Santo António e manjericos e alcachofras. Bordalo quereria dizer que este Zé preferia dançar e divertir-se a estar atento ao rumo que as políticas do governo seguiam.
A procissão política
O Zé Povinho surge de novo em 12 de Junho de 1879, num desenho onde faz uma paródia à procissão do Corpo de Deus, a mais importante do calendário religioso. Nesta procissão todas as figuras da política se queriam fazer representar. O Zé Povinho está sentado num canto observando as autoridades que desfilam sobre as abas do grande casacão do Ministro das Obras Públicas, Saraiva de Carvalho em direção à Sé de Lisboa, no topo do desenho. Entre elas vemos a cavalo o Rei D. Luís e o Infante D. Augusto, ladeados por quatro figuras de Anselmo Braamcamp (o Primeiro Ministro) e Fontes Pereira de Melo, como a figura de S. Jorge. A figura de Fontes é repetida várias vezes no desenho, como participante no desfile e como público. As duas figuras gigantes representam José Rosa de Araújo e Pedro Franco, presidentes das câmaras de Lisboa e Belém (que mais tarde foi extinta). É também um Fontes que está junto ao Zé Povinho, como que lhe explicando o que se está a passar.
A semana política. Uma borga na horta das tripas
O Zé gosta dos espaços de diversão, e vamos encontrá-lo numa casa de petiscos dos arredores da cidade, que os lisboetas gostavam de frequentar nos tempos livres. O Zé está sentado à sombra de uma parreira, completamente embriagado, alheado ao fado dançado (alusão à alternância no poder) que António Serpa e Luciano de Castro, chefes dos partidos Regenerador e Progressista, ensaiam ao som das guitarras do “orçamento” e do “Diário do Governo”, enquanto uma assadora de castanhas (a “política”) cozinhava “crises” no seu fogareiro. Entre os participantes, destaca-se o banqueiro Henry Burnay, vestido de cozinheiro, transportando um prato de favas. A embriaguez torna o Zé incapaz de perceber a situação política e a legenda é muito clara: “Amigo Zé Povinho!… Em vez de os mandares à fava, és tu que pagas as favas!…”
A barraca do suffragio. Lista à boca da urna.
– É também nas hortas que vemos o Zé a ser disputado pelos representantes dos dois principais partidos, Anselmo Braamcamp (Progressista) e Fontes Pereira de Melo (Regenerador). Os políticos estão a vestidos de tasqueiros em frente a um fogareiro e tentam cativar o voto do Zé: “Seu Zé, vote nas pescadinhas do governo que estão muito frescas. – Não acredites, Zé. Vota com os mexilhões da oposição, que estão mesmo a saltar”. Bordalo pretende criticar a compra de votos com falsas promessas populistas.
O fado da política
Ainda em ambiente popular, vemos o Zé a participar numa cena de taberna lisboeta, onde dança o fado com Anselmo Braamcamp e Fontes Pereira de Melo. Tradicionalmente, o fado era dançado, perdendo depois esta vertente, perdurando apenas como canção. Este desenho é das poucas representações gráficas do fado enquanto dança e integrou a candidatura de Fado a Património Imaterial da Humanidade.
O testamento
O Zé também frequenta ambientes mais seletos. E é assim que o vamos encontrar a acompanhar a família real. O desenho refere-se à leitura do testamento de D. Fernando II, onde ficou escrito que deixava os bens à sua viúva e não ao rei, deixando a família real com uma grande deceção ou, em linguagem popular, “a ver navios do alto de Santa Catarina”. Bordalo, neste desenho ilustra de forma realista a expressão colocando a família real no miradouro de Santa Catarina.
Pelo círculo 95
Bordalo usa também os monumentos mais simbólicos como enquadramento dos cartoons. O palácio de São Bento, sede do Parlamento é um desses casos. Em 25 de Agosto de 1881 desenha o Zé Povinho com Elias Garcia ao colo, na sequência da sua eleição como deputado republicano, por Lisboa. No seu alforge podemos ver outros dois republicanos, Magalhães Lima e Teófilo Braga, que são aclamados pelo povo, enquanto ao fundo o Rei, Fontes Pereira de Melo e o conselheiro Arrobas (Governador Civil) se afastam. O palácio de São Bento, que iria acolher o novo deputado, serve de pano de fundo à composição da cena e a legenda, em forma de cantata de Offenbach, mostra um desejo de ocupar o parlamento com deputados republicanos. “E visto já termos / agora de novo / avante meu povo / É dar-lhe p’ra a frente!”
Depois das eleições
Este desenho mostra um Zé Povinho ainda deitado, mas a acordar e a esfregar os olhos, com o banqueiro Henry Burnay a assistir à cena. O palácio de S. Bento no horizonte sugere a razão deste despertar, que a legenda esclarece: “Zé Povinho começa a levantar-se, deixando ver que talvez possa pôr-se em pé”.
Retrato da nova política velha. O balanço da paz. Justo equilíbrio do governo
Também o Palácio da Ajuda, residência do Rei, é cenário dos desenhos de Bordalo. Neste caso, os líderes dos partidos Regenerador e Progressista, que se alternavam no governo, balançam nas costas do Zé Povinho montando a Carta Constitucional, com a Ajuda em pano de fundo, como que dando o aval real a esta rotatividade que o povo suportava.
Depois do Tratado. A nova memória do Terreiro do Paço
A estátua de D. José não escapou ao traço de Bordalo. Aqui, a propósito da assinatura do tratado que regularizava as relações de Portugal com a Inglaterra, após o corte diplomático provocado pelo ultimato inglês contra o mapa cor de rosa, Bordalo substitui a estátua do Rei a cavalo por uma da Rainha Vitória montada num burro. O cartoon insinua a perda de soberania nacional o que é reforçado pelo desenho no pedestal de um Zé Povinho a ser pisado por cavalo- John Bull (figura que representa o imperialismo britânico) que é puxado pelo ministro Barjona de Freitas, que assinara o tratado de 20 de agosto de 1890. O desenho tem por título “A nova memória do Terreiro do Paço”, mostrando o valor simbólico daquela praça.
É ainda interessante ver que o Castelo de São Jorge está escondido por algumas casas construídas na colina, que a campanha do duplo centenário do Estado Novo, em 1940, iria demolir, acrescentado ao desenho um valor documental.
Enquanto nós entramos e saímos, John Bull alambasa-se
O Terreiro do Paço volta a ser cenário de um desenho, com o título “Enquanto nós entramos e saímos, John Bull alambasa-se”. Nele vemos o britânico a refastelar-se com uma refeição feita das colónias portuguesas em África e na Índia, enquanto os Zé Povinhos portugueses sonham com emigrar para o Brasil (vendo-se uma multidão a correr para os navios transatlânticos), ou ser empregados público e ter “uma coisinha certa”, formando filas nas arcadas do Terreiro do Paço, para aceder aos ministérios que poderiam distribuir esses desejados empregos. Bordalo critica a falta de empreendedorismo para desenvolver as colónias, deixando-as ao abandono e convidando os ingleses a alambazar-se com elas.
Cavallo d’Estado… insaciável
Ainda no Terreiro do Paço, com a arcada ao fundo, Bordalo desenha um Zé Povinho montado num cavalo, que bebe água de um tanque, representando os empréstimos que o país pedia por intermédio do Burnay, (aqui sob a forma de uma libelinha que sobrevoa o tanque). Os empréstimos deviam servir para desenvolver o país, mas o cavalo não pode andar porque está cortado ao meio (como o do conhecido conto do Barão de Munchausen) e a água perde-se nos tais empregos “coisa certinha”, impedindo assim que o país “andasse para a frente”.
Re-outorga da Carta Constitucional
Quando se discutia a reforma da Carta Constitucional, a constituição portuguesa outorgada por D. Pedro IV, Bordalo satiriza a proposta do Primeiro Ministro, Fontes Pereira de Melo, dizendo que mais do que uma reforma era uma re-outorga. Para ilustrar esta opinião, desenha o Rossio, com o teatro D. Maria ao fundo e o monumento a D. Pedro IV em primeiro plano, onde substitui o Rei pelo Primeiro Ministro. O monumento erigido em 1870 era muitas vezes comparado a um candelabro, por isso Fontes é representado como uma vela com o respetivo pavio apagado na cabeça. Na base do pedestal, as figuras alegóricas da justiça, prudência, fortaleza e moderação, foram substituídas pelas do General Macedo, chefe da guarda e do Marquês de Valada, presidente da Câmara dos Pares, mas figura de moralidade duvidosa. O Zé Povinho espreita com ar de espanto este novo monumento, escondido atrás do pedestal.
Zé Povinho ao capitalista machucho
Apesar de ser um grande amante de ópera, e de trazer os diferentes espetáculos para as páginas dos seus jornais, Bordalo sabe que o financiamento do teatro de ópera é muito oneroso para o erário publico. Neste desenho coloca o Zé Povinho em frente ao teatro São Carlos, a dar dinheiro para a ópera enquanto terá de se contentar com ouvir um pedinte, dizendo “Toma lá dez libras para ires ouvir a Patti [uma famosa soprano] e eu cá fico com dez reis para ouvir o Gaspar da viola”.
Estamos vendidos!
Neste desenho, Bordalo indigna-se com as políticas financeiras seguidas pelo governo e apresenta um Zé Povinho em atitude de desespero, a assistir a uma figura feminina (a Pátria), que se abraça à Torre de Belém e aponta para a frase “Estamos vendidos!”. Mais abaixo, em desenho esbatido, temos a explicação desta indignação: a negociação entre os reis Afonso XIII de Espanha e Luís de Portugal, para a construção da linha de Caminho de Ferro que ligaria os dois países e que Bordalo considerava ruinosa. Participam na negociação o Primeiro Ministro, Fontes Pereira de Melo e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Hintze Ribeiro, além do banqueiro Burnay, que financiou a obra. A Torre de Belém enfatiza a indignação e coloca a (má) negociação ao nível de um crime de lesa-pátria.
Ascensores políticos
Pela mão de Bordalo podemos também ficar a conhecer as inovações da cidade:
Os lisboetas habituavam-se a usar a novidade dos ascensores do Lavra (1884) e da Glória (1885) e da Bica (1892) para subir as colinas da cidade. Bordalo desenha uma página que intitula “Ascensores Políticos”, em que se inspira no seu funcionamento com um sistema contrapesos que faz com que quando uma composição sobe, a outra desça, para ironizar a alternância no poder dos partidos Regenerador e Progressista, anunciando um “Desastre imminente”, de que o Zé Povinho foge aterrorizado.
Gaz novo
Neste desenho o Zé está feliz, um sentimento que raramente é o seu, ao lado de um novo candeeiro a gás, que dá uma luz tão forte que faz com que “as noites pareçam dias (…), tão scintillante, tão clara, tão excessiva é a luz que deles jorra”. A personagem do Zé Povinho é geralmente crítica, mas sabe também elogiar. Neste desenho ele agradece ao Presidente da Câmara, Fernando Palha, que se apresenta vestido como se fosse uma alegoria da cidade.
O novo gasómetro
Bordalo usa também este Zé Povinho lisboeta para criticar soluções urbanísticas da sua cidade. Se a iluminação a gás tinha sido um motivo de grande alegria, ele vai indignar-se com o projeto de instalação do “Novo Gazometro”, uma fábrica de gás, junto à Torre Belém, contribuindo para a campanha que procurou evitar a sua construção. O desenho, publicado em 16 de Novembro de 1888, mostra um Zé horrorizado a imaginar uma fábrica negra junto à Torre de Belém “um dos mais primorosos monumentos nacionais”, onde fora instalada uma chaminé. A legenda do desenho ironiza com a situação: “Um gasómetro entre a torre de Belém e o convento dos Jeronymos, é, sobre um cumulo de boa administração camararia, um cumulo de bom gosto”. Esta causa seria perdida e a fábrica seria mesmo instalada naquele lugar. Já depois da construção, Bordalo voltaria ao tema, com um desenho apelando à participação num abaixo-assinado para a demolição da fábrica, que só a “estupidez e a ganancia dos srs. Argentarios” justificava, num desenho publicado em 28 de agosto de 1891. A fábrica só seria demolida em meados do século XX.
O arvoredo do Rocio
Num tom mais suave, encontramos o Zé Povinho sentado no chão do Rossio, que conhecemos pela calçada de desenho ondulante e pelo pedestal da estátua de D. Pedro IV, apontando para um rebento de árvore, com a legenda “Há de crescer! Há de Crescer!”. Bordalo, que sempre foi um amante da natureza, critica o corte que tinha sido feito às árvores que antes davam sombra ao largo, alegrando-se com a nova plantação.
Zé Povinho na História
A cidade de Lisboa é cenário de um conjunto de desenhos intitulados “Zé Povinho na História”, com a legenda “Nunca se levanta que não se deite”, onde são mostrados momentos importantes da História portuguesa do século XIX, em que o povo se levantou para lutar pelas suas liberdades e pela independência nacional e os outros, em que voltou a adormecer, deixando perigar as conquistas obtidas. Em dois destes desenhos, o cenário é Lisboa: o Terreiro do Paço, como local de embarque de D. João VI quando fugiu para o Brasil (erradamente datada de 1801 e não de 1807, como realmente aconteceu), com o Zé a dormir descansado, e a estátua de Luís de Camões, que preside à revolta contra o Ultimato inglês de 1890, onde o Zé ergue uma bandeira, apelando a uma subscrição nacional para obter fundos para combater os ingleses.
Roza Araujo
Bordalo soube sempre homenagear quem merecia e, mesmo tendo criticado muitas vezes José Rosa de Araújo enquanto Presidente da Câmara Municipal, fez-lhe uma bonita homenagem ao anunciar a sua morte, colocando uma figura alegórica da cidade de Lisboa e o Zé Povinho a entregar uma coroa de flores com a palavra “Gratidão” escrita. O desenho mostra o cortejo fúnebre a passar na avenida da Liberdade, que ele mandara abrir, com a legenda “O enterro de Roza Araujo foi uma das mais levantadas e sympaticas manifestações populares a que tenho assistido. Atraz do caixão do honrado homem que nasceu rico e morreu pobre, que viveu a empobrecer-se e a enriquecer os mais, a cidade de Lisboa, que tão singulares serviços lhe deve, seguiu magoada e agradecida”.
Nestes desenhos raramente o cenário urbano é neutro ou inocente, antes contribui para criar ambientes e contextualizar situações, participando a própria cidade na criação de metáforas críticas e humorísticas, como se ela própria fosse uma personagem da comédia bordaliana.
Bordalo era também jornalista e, como tal, os seus cartoons são comentários a momentos concretos da política nacional, e nunca cai num populismo fácil e mentiroso de achar que todos os políticos são desonestos. Ele critica situações concretas e, sem qualquer fanatismo, também sabe elogiar quando esses mesmo políticos têm acções meritórias.
Bordalo quer um Zé Povinho consciente de que deixou de ser o súbdito de um rei, para passar a ser um cidadão (idealmente republicano) com direitos e também com deveres, pelo que os seus cartoons têm uma função pedagógica de envolver o Zé na vida política. Ao desenhar o Zé na cidade de Lisboa, a proximidade do leitor com a personagem seria ainda mais empática, ajudando a passar esta mensagem.
Passaram 150 anos, desde que, na véspera de Santo António, o Ministro da Fazenda pediu umas moedinhas ao Zé Povinho; atravessámos a monarquia, a I República, o Estado Novo e o regresso da Democracia, mas a mensagem que Bordalo quis passar não envelhece: o Zé, ou seja, todos nós, temos de exigir uma governação competente e de exercer uma cidadania activa, lutando diariamente contra as injustiças, pela liberdade de pensamento e pela tolerância e solidariedade entre as pessoas.
Colocar o Zé na cidade em que nos movemos todos os dias ajuda-nos a lembrar estes valores.
Viva o Zé Povinho!
Grande parte destes desenhos, juntamente com muitos outros, podem ser vistos no Museu Bordalo Pinheiro / Lisboa Cultura, no Campo Grande.
A relação de Bordalo com Lisboa pode ser aprofundada no livro Lisboa de Bordalo (2017) e também nos passeios temáticos que o serviço educativo do Museu organiza.
A partir de 21 de Julho o Museu celebra a figura de Zé Povinho com uma nova exposição permanente onde a sua figura terá lugar de destaque.

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