As igrejas e os antigos conventos e mosteiros mantêm-se, até hoje, as infraestruturas predominantes nas sete colinas de Lisboa. Isto apesar do terramoto de 1755, um cataclismo inaudito que foi ao mesmo tempo trágico e redentor, já que, porventura inspirado pela mítica luz da cidade, acabou por trazer o país e o mundo para a modernidade e os braços do Iluminismo. Talvez por isso, os seus indígenas, como eu próprio, são hoje apelidados de lisboetas e não de uns aborrecidos ou pouco instagramáveis “lisbeatos”.
Quando confrontamos a Lisboa setecentista com aquele que é, desde meados do primeiro quartel do século XXI, um dos mais vibrantes destinos do mundo, não podia ser mais curiosa a transformação dos inúmeros e seculares espaços de clausura e contrição em casa da democracia, albergue dos restos mortais dos nossos heróis, sede de tribunais, universidades, cervejarias centenárias ou, mais recentemente, em hotéis de exceção.
Senão, vejamos. O antigo convento da Santíssima Trindade é, desde 1836, morada da cervejaria homónima; o da Boa Hora, foi tribunal de 1843 a 2009 e palco de alguns dos mais mediáticos casos já em democracia e dos mais marcantes julgamentos a opositores do Estado Novo (incluindo Mário Soares, Álvaro Cunhal ou as três Marias, autoras das Novas Cartas Portuguesas); o da Madre Deus, é museu do azulejo desde 1965 e acolhe o painel da Lisboa pré-terramoto que inspirou esta crónica; o de São Francisco, alberga o Museu do Chiado desde 1911 e a Faculdade de Belas-Artes desde 1836 – à qual, em meados dos anos noventa do século passado, no final de cada período letivo, eu ia “religiosamente” ajudar a minha irmã a carregar as peças criadas nesse ano.
São, de facto, muitos os exemplos de espaços pensados para o recolhimento e a penitência e que, hoje, celebram as artes, a ciência, a mera convivência ou, claro, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, as três máximas de uma revolução inspirada num mundo que desabou em Lisboa três décadas antes. Aliás, os três conventos que se seguem, e com os quais tenho uma relação muito próxima, são emblemáticos de tudo isto.
Começo, inevitavelmente, pela Casa da Democracia. Construída como Mosteiro de São Bento da Saúde em 1598, transformou-se em Palácio das Cortes em 1834. Mais tarde, em finais do século XIX, uma profunda remodelação de inspiração neoclássica, assinada pelo prolífico Ventura Terra, conferiu-lhe praticamente o aspeto atual (ainda sem a monumental escadaria, erigida em 1936) e que me habituei a olhar com admiração, desde sempre, a partir de um camarote muito especial: a casa dos meus avós no nove da Rua Correia Garção, mesmo defronte da atual Assembleia da República. E, em meados da primeira década dos anos 2000, quando fui jornalista, passei também a maravilhar-me com a grandiosidade e a simbologia dos seus interiores.
Prossigo com dois exemplos de conventos seculares, em ambos os casos contíguos ao outrora habitado por monges beneditinos e que, atualmente, acolhe o órgão legislativo do Estado português. Um deles é o antigo Convento das Inglesinhas ou de Santa Brígida e sede do atual ISEG (de 1930 a 1972, o ISCEF), a primeira escola de Economia e Gestão em Portugal (fundada em 1911) e um enorme complexo edificado com uma história muito particular e fértil ligada à implantação da República e à luta antifascista, onde me licenciei em Economia. Já o outro, o velhinho Convento das Francesinhas, foi demolido nos anos 1930 e é, praticamente desde essa altura, o luminoso e alegre jardim homónimo, onde brinquei amiúde com as minhas irmãs e as minhas primas na infância e, já no início da idade adulta, confraternizei com os meus colegas da universidade.
Quando pensamos nos tempos conturbados e divisivos que vivemos agora, em que uma parte minoritária e particularmente ressentida da sociedade vive entretida a tentar condicionar a outra parte, que é bastante maior e mais decente, nada como olharmos para a história da nossa cidade para percebermos onde está a luz. E não, não está no céu. Está nas suas ruas, na história dos seus edifícios e na diversidade das suas gentes.
E a transmutação de uma Lisboa conventual lúgubre e penitente numa outra calorosa e arrebatadora, é a prova provada de que é possível acreditar num futuro comum mais radiante e luminoso. Só não vê quem não quer.

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