A placa ainda resiste: “Vilafranca Centro”. Em 1994, quando foi inaugurado, prometeu ser um dos maiores centros comerciais do país, o maior do Ribatejo. E, por isso, uma revolução nos acessos a comércio e cultura em Vila Franca de Xira, onde os moradores faziam quilómetros até ao centro comercial mais próximo, em Lisboa. Ali mesmo, no coração da cidade, um gigante de quatro pisos à vista de todos os que desembarcavam na estação de comboios, com 180 lojas (quase tantas quantas as do centro Vasco da Gama, no Parque das Nações), a primeira sala de cinema IMAX do país e estacionamento subterrâneo.

“Era lindo, eu conhecia outros centros comerciais e achei este sempre muito bonito. E evitava que fôssemos para Lisboa, tinha tudo e não nos faltava aqui nada…” , partilha Fátima, moradora que não se identificou com apelido.

“Era”. Passado. Há mais de uma década que está de portas fechadas, transformado num gigante adormecido sobre o qual os vilafranquenses já ouviram muitas teorias. A resposta para o fim deste shopping está numa história conturbada: um modelo de negócio falhado e um emaranhado de proprietários – são 85 ao todo.

Vídeo: Ana da Cunha e Carolina Fernandes / Fotografias: via Facebook e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

Um centro, 85 donos

O Vilafranca Centro abriu no local onde antes funcionavam uma estalagem e um cine-teatro. O projeto, assinado pelo arquiteto Arsénio Espinosa, era ambicioso: quatro pisos, 180 lojas, duas salas de cinema, uma pista de bowling e o primeiro McDonald’s da cidade. Na altura, era o terceiro maior centro comercial do país e foi o primeiro a ter projeção IMAX.

“Teve um impacto ótimo, foi muito bom na altura porque ajudou muito a cidade”, acrescenta Joaquim Pereira, morador.

Mas a forma como foi dividido, já o estava a condenar ao abandono e é uma lição para o comércio na cidade e no país.

O Vilafranca Centro foi concebido como um conjunto de frações individuais, vendidas a diferentes proprietários, sem uma administração comum que garantisse a evolução e manutenção. “Ao dar autonomia a cada lojista para fazer o que quisesse, não havia uma lógica conducente em criar uma administração comum”, explica Daniela Ferreira, investigadora do CEG/IGOT da Universidade de Lisboa. “Tantas lojas que lá estão foram surgindo organicamente, não planeando, como por exemplo nós temos agora no Vasco da Gama ou no Colombo, onde, se uma loja não está a funcionar tão bem, rapidamente é substituída por outra.”

Por isso, quando os grandes centros comerciais começaram a surgir, o Vilafranca Centro ficou para trás.

Em 1991, este era já o panorama da distribuição das grandes superfícies nas cidades de Lisboa (em baixo) e Porto – tendo o Porto maior predominância de hipermercados e Lisboa de centros comerciais. No mapa em baixo, percebemos como a distribuição da força comercial se começava a espalhar do centro para a periferia, à mesma velocidade com que abriam shoppings na capital.

Retirado do estudo “Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses – Reconstruída para os turistas” / Autor:   Nobre, Tânia Isabel – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – 2015
Retirado do estudo “Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses – Reconstruída para os turistas” / Autor:   Nobre, Tânia Isabel – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – 2015

Para o Vilafranca Centro, a abertura do Centro Comercial Vasco da Gama, em 1999, a cerca de 30 quilómetros dali, e com acesso pelo comboio, foi um golpe duro.

Sem renovação, sem investimento e com um número crescente de lojas vazias, o Vilafranca Centro definhou. Até que, a 31 de outubro de 2013, fechou definitivamente.

Desapareceram o último centro comercial e o último cinema da cidade, revertendo a revolução que o shopping prometeu trazer para a cidade: Lisboa voltou a ser destino para grandes compras e para ir ao cinema, competindo com centros outlet como o Campera, no Carregado.

O interior, abandonado, tornou-se tão misterioso para as gerações seguintes, que até motivou uma visita dos The Yellow Jackets, um casal que anda pelo país a fotografar lugares abandonados.

Já passaram mais de dez anos, e encontrar uma solução para este edifício tem sido um desafio, tendo em conta os 85 proprietários e interesses divergentes. “O que tem tornado muito difícil uma intervenção no edifício é o facto de ter sido vendido por frações, como se fosse um prédio habitacional, e isso gerou uma ingovernabilidade do centro comercial e dívidas absolutamente insanáveis”, esclarece Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

Habitação acessível, comércio e escritórios: o que poderá ser o Vilafranca Centro?

A Câmara terá tentado intervir.

Em 2019, adquiriu os dois parques de estacionamento do centro por 200 mil euros. Mas os problemas estruturais do edifício terão impedido que fossem abertos ao público.

Para destravar este impasse, foi criada uma comissão de proprietários e aprovada uma medida que isenta do Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis (IMT) quem investir na recuperação do centro. O objetivo? Reunir o maior número possível de frações sob a mesma entidade e, assim, viabilizar um projeto de reabilitação.

Se uma só entidade conseguir comprar 51% do edifício, a Câmara compromete-se a vender os parques de estacionamento e facilitar o processo de transformação do espaço.

A ideia não é recriar o centro comercial, mas sim apostar num conceito misto, diz a autarquia: um local com comércio, escritórios e habitação acessível – especialmente para estudantes, dada a proximidade à estação de comboios.

O Vilafranca Centro hoje. Foto: Carolina Fernandes

“O facto de se estar a tentar conseguir uma solução já é um grande feito. Há muitos proprietários que ainda têm questões pendentes”, aponta Daniela Ferreira. “Claro que teria que se fazer remodelações, teria que haver um investimento, não sei se há essa disponibilidade. Não seria um centro comercial com o mesmo impacto que o anterior teve, mas poderia haver pessoas interessadas em utilizar as lojas, com uma componente mais de proximidade.”

Sobre a criação de habitação acessível e comércio, “diria que sim”, lembrando que “a questão da habitação é um problema não só em Lisboa”. Atualmente, de acordo com a plataforma Idealista, ainda que com valores bastante abaixo da cidade de Lisboa, viver em Vila Franca de Xira custa, em média, 2103 euros por metro quadrado – um valor que tem vindo a subir deste 2015.

A autarquia revela que já há entidades interessadas na recuperação do edifício: “Há muitos agentes interessados, falta alguém com um peso relativo suficiente para tomar decisões mas também para se dedicar à arte de negociação de um a um”, esclarece o presidente.

Será que é desta que veremos as luzes do Vilafranca Centro ligadas novamente?


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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2 Comments

  1. Conheci esse centro, vi todos os 4 filmes em formato Imax (sim ,sairam 4 no total, o que matou logo o cinema no início, deixando apenas as salas de formato convencional a chamar espectadores), joguei bowling até este se tornar uma extensão do bingo, e lembro-me perfeitamente que para o final o único negócio que chamava clientes era mesmo o MacDonalds.
    A arquitetura é gira, mas o espaço não é assim tão grande. Lojas com 10mts2 há muitas.
    Fosse pela escolha do formato do cinema, a posterior existência de outros centros perto, ou uma gestão que não lembra ninguém, a morte deste edifício tinha de acontecer mesmo. Vila Franca está ela própria morta, é uma cidade desprovida de eventos que não sejam do foro taurino, e tem-se tornado um dormitório, tal como as demais periferias da região metropolitana de Lisboa.
    O ornamento social é inexistente, construí-se tudo em cima de tudo, sem deixar espaço a avenidas, estacionamento e transportes públicos.

    Vila Franca só tem uma solução, tal como o vila franca centro:

    Deitar abaixo e fazer de novo.

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