Quero falar-vos de Lisboa, das palavras de Lisboa e das línguas de Lisboa — e também responder a esta pergunta: por que falamos como falamos? E mais: por que será que algumas maneiras de falar de Lisboa irritam o resto do país? Há razões para isso… Mas começo por dizer: todas as pessoas têm sotaque.
Não acredita? Ora, basta pensar na forma como, em Lisboa, dizemos “Mem Martins“. Por cá, o nome da freguesia de Sintra é igual ao nome de uma mãe que tem por apelido Martins.
Se não quisermos sequer sair do concelho, basta pensar em “Benfica”, que dizemos como se fosse “Bãifica”.
Estas palavras não se dizem assim em todo o país (ou nos outros países da nossa língua) — e não se disseram assim em toda a história da língua. São formas características de uma área que inclui Lisboa e de um tempo que nos inclui a nós.
A verdade é que todas as pessoas têm um sotaque, uma maneira característica de falar — pode é ser um sotaque mais localizado do que outros.
Há zonas onde encontramos sotaques que distinguem aldeias diferentes. Basta estar atento e conhecer — afinal, os sotaques não estão só na boca de quem fala, mas também nos ouvidos de quem ouve. Cada um tem mais ou menos capacidade de distinguir este ou aquele sotaque.
Dizem, aliás, que havia sotaques próprios dos vários bairros de Lisboa. Hoje, há, pelo menos, sotaques próprios de vários grupos sociais…
Agora, o sotaque de Lisboa muitas vezes irrita algumas pessoas do resto país — ao mesmo tempo que é usado por muitas pessoas do país inteiro. Eu próprio não sou de cá — já cá vivo há muito tempo, mas sou de Peniche. No entanto, no resto do país, se me ouvirem a falar, dirão: “bem, ele parece usar um sotaque de Lisboa”.
Mas temos de começar do início! No tempo da Maria Cachucha! Mais para trás! No tempo dos dinossauros!
Talvez não seja preciso tanto, mas gostava que imaginassem um tempo muito antes de todas as línguas que conhecemos, muito antes do latim, muito antes do lusitano, muito antes do Egipto Antigo…
Imaginem Lisboa há 50 mil anos. Já existiriam por aqui seres humanos. O que sabemos — e é consensual na linguística — é que já existiam línguas.
Não eram escritas, claro (a escrita só apareceu há cinco mil anos), mas eram línguas, com gramáticas, com vocabulário, como as línguas de agora. Com as palavras necessárias para viver nesse tempo.
As línguas daqui eram algumas das muitas línguas humanas espalhadas pelo mundo.
Todas terão vindo de África, há muito tempo, e espalharam-se pelo mundo na cabeça e nas bocas dos seres humanos que emigraram por esse mundo — até chegar a Lisboa, que era, para quem aqui chegava, o fim do mundo! Para diante não era possível! Para se chegar ao que é hoje à América era preciso ir pelo outro lado e a viagem ainda demorava umas quantas gerações…
Imaginem mesmo uma rapariga nos seus 15 anos a andar por estas colinas e a olhar à volta. Teria palavras para falar das estrelas, do rio, da família…
Estas palavras, provavelmente, perderam-se todas.
Ou não!
Dou apenas um exemplo de uma palavra que usamos muitas vezes e que ninguém sabe bem de onde vem: “manteiga”. Talvez venha de uma língua antiga que se falava por aqui há umas dezenas de milhares de anos.
Vamos fazer um “fast forward” (sim, o inglês também se ouve muito por Lisboa) até há cinco mil anos. Já existiam línguas escritas, mas não por aqui. Era lá mais para oriente. Que línguas se falavam por cá?
Não sabemos bem. Conhecemos algumas línguas da Península Ibérica, através de inscrições posteriores: tartéssico; ibérico; basco. Esta última sobreviveu até aos dias de hoje.
Sobre as línguas da zona onde é hoje Lisboa, em particular, não sabemos muito, mas sabemos que existiam línguas, claro, e talvez se ouvissem alguns desses idiomas de que falei, de que restaram vestígios noutras zonas da península.
Nos últimos três mil anos, o que aconteceu?
A história torna-se mais nítida.
Conhecemos, aliás, dois nomes de pessoas que viviam por aqui há 2700 anos. Em 2014, uma equipa de arqueólogos encontrou uma pedra funerária com uma inscrição em que se falava de Wadbar, filho de Ibadar.
A inscrição estava em fenício, o que mostra que essa língua foi falada por aqui. Provavelmente, também se ouvia grego por estas bandas…
Há algo importante a dizer neste ponto: provavelmente, várias das pessoas que viviam onde estamos sabiam falar várias línguas.
Saber falar várias línguas sempre foi a condição normal dos seres humanos e haver várias línguas numa só região nunca foi nada de extraordinário. Só nos últimos 200 anos é que começámos a acreditar que cada território só deve ter uma língua.
Voltemos à época de Wadbar! Um pouco anacronicamente, podemos dizer que é o mais antigo lisboeta que se conhece. Ou melhor, o Ibadar é o lisboeta mais antigo: era o pai de Wadbar. Terá vindo de fora? Não sabemos. Enfim, a cidade nunca se fez só de pessoas que aqui nasceram.
Por essa época, tínhamos línguas antigas que se falavam por aqui e de que pouco se sabe; temos o fenício que vinha de bastante longe, e já era escrito — e chegam então, em várias ondas, línguas que provêm de uma língua que hoje chamamos proto-indo-europeu, e que se falava — provavelmente — na zona da actual Ucrânia.
Tivemos aqui a que podemos chamar onda celta. Hoje, já não se fala nenhuma dessas línguas por cá, mas são línguas da família do irlandês, do galês, do escocês.
Depois, veio a segunda onda de línguas da família indo-europeia: estou a falar, por exemplo, do latim, a língua que se espalhou e consolidou através do Império Romano. (Há quem diga que o lusitano, uma língua que se falava numa zona a norte de Lisboa, seria da mesma subfamília do latim, mas não se tem a certeza.)
Lisboa passou a ser uma cidade onde se falava latim, a língua do Império! Mas, atenção, as línguas anteriores não desapareceram completamente. Ficaram palavras, ficaram, certamente, entoações próprias…
O latim não veio para cá porque os romanos substituíram a população de cá. Não: a população de cá é que aprendeu latim e começou a transmiti-lo aos filhos. Foi um pouco como se os portugueses de agora começassem a falar apenas inglês com os filhos (não aconselho, já agora). Qual seria a língua nativa desses filhos? Inglês com sotaque português…
Na altura do Império Romano, a língua tinha vários sotaques. Mesmo nessa época já haveria um sotaque lisboeta — do latim!
Depois, como sabemos, chegaram mais povos. Vieram povos germânicos, que não substituíram o latim, vieram os muçulmanos, que trouxeram o árabe…
Aqui, já o latim tinha mudado muito. Se andarmos 1000 anos para trás, se aterrarmos na Lisboa de 1025, que línguas encontramos?
Tínhamos o árabe a ser falado por parte da população, mas tínhamos ainda o velho latim, já muito mastigado, pelas ruas. Essa língua latina com muita influência árabe é denominada, pelos historiadores, moçárabe.
Ora, lá no Norte da Península, começaram a desenvolver-se variedades do latim bastante diferentes. Uma delas é o latim mastigado no Noroeste da península, onde é hoje a Galiza e o Norte de Portugal.
Esse latim era chamado pelos seus falantes “linguagem” e a linguagem do Noroeste tinha características próprias: a queda do “N” entre vogais — “luna” por lá era “lua” — e do “L” entre vogais: “color”, por lá, era “cor”…
Em Lisboa, há mil anos, essas transformações não se tinham dado. Ouviríamos “luna” e “color” (ou palavras parecidas).
No século XII, Lisboa foi conquistada por Dom Afonso Henriques e começou a fazer parte de um novo reino. Este novo reino foi povoado por muitas pessoas lá de cima, que trouxeram a língua, que também começou a ser falada por quem já cá estava — e, mais uma vez, as línguas anteriores, o moçárabe, o árabe, influenciaram a forma como se aprendeu essa língua do Norte a que hoje chamamos português.
Ou seja, a língua mudou, mas continuou a haver um sotaque lisboeta…
Como a capital ficou estabelecida aqui, a forma particular de falar a nossa língua em Lisboa tornou-se cada vez mais importante. Quem escreveu as primeiras gramáticas, dicionários e livros de bem pronunciar (que os houve) olhava principalmente para a língua falada na corte…
O português de Lisboa — e, como disse, a língua não se desenvolveu aqui — começou a ser tão importante que começou a ser imitado.
É por isso (ou também por isso) que o português de Lisboa irrita: afinal, uma forma particular de falar começou a ser vista como “o português correcto”, começou a ser visto por muitos como melhor do que o português das zonas onde a própria línguas se tinha desenvolvido…
Claro que as pessoas reagem!
Ainda por cima os lisboetas começaram a dizer que não tinham sotaque! As pessoas de outras regiões dizem logo: “como não têm sotaque?” Então, não dizem “coalho” e não “coelho”? Não dizem “Mãe Martins” em vez de “Mem Martins”?
Não têm sotaque? Não têm é pouco!
Claro que temos sotaque! Mas a culpa não é nossa. Se calhar é do Wadbar! É dos fenícios, dos árabes, dos galegos, de todos os que por aqui andaram.
A nossa língua não nasceu aqui, mas a forma como aqui foi cozinhada deu-lhe sabores de muitas paragens.
Ainda tenho algumas coisas para dizer: primeiro, só nos últimos 100 anos começámos a ouvir-nos uns aos outros todos os dias. No ano de 1900, por exemplo, um transmontano poderia passar toda a vida sem ouvir um lisboeta a falar; um lisboeta poderia passar toda a vida sem ouvir um transmontano.
As irritações são sinal de que nos ouvimos uns aos outros.
Ironicamente, também estamos numa época em que falamos todos de forma mais parecida, com algumas excepções. Os bisavós dos portuenses falavam de forma bem mais distinta dos bisavós dos lisboetas do que os portuenses e lisboetas do século XXI.
Foi para ir para a faculdade que vim para Lisboa. Em muitos casos, é nesse momento que muitos de nós encontram as outras formas de falar português. Encontrei a minha mulher, a Zélia, que vinha do Alentejo e trazia palavras de lá. Aliás, zangávamo-nos por causa de diferenças de palavras.
Por exemplo: o que quer dizer “lambão”?
Para a Zélia, quer dizer alguém que está sentado no sofá e não quer fazer nada… Para mim, e para muitas pessoas de cá, quer dizer alguém que é sôfrego a comer.
Essas discussões também me ajudaram a ganhar esta paixão por tudo o que tem que ver com a nossa língua, mas também com todas as línguas.
O que gosto é de olhar para a língua e ver como é algo estranho! Algo que nos permite comunicar, mas ao mesmo tempo muda de terra para terra, por vezes de rua para rua. É fascinante. Não me canso de falar disto, como já devem ter reparado…
Na faculdade, encontrei também amigos do Norte, da Madeira, de muitos pontos do país, de outros países da nossa língua (ou de outras línguas).
Tal como as várias línguas, também os vários sabores do português se encontram em Lisboa. As palavras do país inteiro e dos outros países da nossa língua encontram-se aqui.
E, claro, como sempre aconteceu desde os tempos de Wadbar, também encontramos palavras de outras paragens nesta Lisboa de agora: desde palavras africanas (como “bué”), palavras chinesas (como “chá”), palavras americanas (como — vejam bem — “piaçaba”) — palavras de todo o mundo. As próprias palavras latinas vieram de muito longe e já traziam palavras ainda de mais longe. “Azul” vem do Afeganistão (a sério)!
Portanto, esta nossa forma de falar o português, este nosso sotaque e estas nossas palavras, são muito lisboetas, ou seja, são do país inteiro e do mundo inteiro.
O texto baseia-se na investigação realizada para o livro “História do Português desde o Big Bang”, que inclui a bibliografia relevante. Foi o tema apresentado por Marco Neves na segunda sessão da Mensagem ao Vivo – jornalismo ao vivo no Teatro Municipal São Luiz. Reveja aqui:
Os sotaques de Lisboa… e um amor proibido: o São Luiz esgotou para ver Mensagem ao Vivo. Voltamos a 1 de março!

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Muito engraçadas são duas formas de dizer tipicamente “lisboetas”: 1/ o “treuze” em vez de treze e 2/ “menistro” (e todas as muitas palavras semelhantes) em vez de ministro! Não têm maneira de fugir, os lisboetas. Identificam-se logo! Engraçado!