Se recuássemos no tempo, chegando a Lisboa, ao Largo Trindade Coelho, no dia 11 de janeiro de 1905, talvez tivéssemos a sorte de ver, no meio da azáfama, o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, que ali se encontravam para celebrar a inauguração de um dos primeiros museus de arte do país: o Museu de São Roque.
O museu de São Roque abria portas com um objetivo principal: exibir o Tesouro da Capela de São João Batista, a capela mandada construir pelo rei D. João V aos arquitetos romanos Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi (o mesmo da Fontana di Trevi, em Roma). Integrada na Igreja de São Roque (que, depois do terramoto de 1755, foi cedida à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), a Capela de São João Batista tinha um valioso acervo que, no início do século XX, se transformou em museu.
Em modo de celebração dos 120 anos do museu, foi agora anunciado que a Capela de São João Batista se encontra em processo de candidatura a Tesouro Nacional. “Deve-se à sua importância patrimonial e histórica. Esta capela é feita por dois grandes artistas italianos”, diz Teresa Nicolau, diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).


Para assinalar a data e a candidatura, este sábado, dia 11, o Museu de São Roque abre as portas à cidade, com uma programação de entrada livre e gratuita que se estende das 10h às 22h. A programação inclui uma conversa sobre a candidatura da Capela de São Roque a Tesouro Nacional com a professora Teresa Vale, uma visita temática, uma atividade em família, o concerto “As Amelianas” (com música dedicada à estética musical do período da rainha D. Amélia) e uma exposição documental, na qual se recordará o dia de inauguração do museu.
Lisboa, uma segunda Roma
Na Igreja de São Roque, que resistiu ao terramoto de 1755 graças ao seu teto em madeira, encontramos, pois, a Capela de São João Batista, sonhada pelo rei D. João V. com os seus bronzes dourados, os embutidos em madeira, a pedra e os painéis que, à primeira vista, parecem ter sido pintados a óleo.
Teresa Nicolau desfaz a ilusão: “Reparem que cada mudança de cor é um mosaico.”
Em 1742, o rei D. João V, também conhecido pelo cognome “O Magnânimo”, tinha um desejo para Lisboa: torná-la uma “segunda Roma”. E foi com esse desejo que mandou construir esta Capela de João Batista, incumbindo os mais conceituados artistas da época, desde arquitetos a escultores, artesãos e mosaicistas, todos eles a trabalhar em Roma, de concretizarem esta empreitada.

Uma das decisões tomadas pelo rei foi a de que os quadros da capela fossem criados com recurso à técnica do mosaico, que permitiria mais durabilidade. Foram então feitas pinturas que serviram de modelo aos chamados “mosaicistas”, que compuseram os quadros da capela.
“São pedras, são mosaicos, são mármores… se pensarmos nas figuras e nos mosaicos que sobreviveram à grande erupção do Vesúvio em Pompeia e Herculano, foi esta técnica que permitiu a sua preservação”, explica Teresa Nicolau.
Um tesouro… e um frontal de altar que vale uma quinta em Belém
É numa sala do Museu de São Roque que se conserva o acervo da Capela de São João Baptista, uma coleção composta por cerca de 200 peças, todas elas bem documentadas, sobrevivendo informação quanto à autoria de cada peça e ao valor pago a cada artista. “Estamos realmente perante um núcleo do tesouro da Capela de São João Baptista, um tesouro que veio de Roma, e que é de uma importância única, pela qualidade individual de cada peça, mas sobretudo pelo conjunto coerente”, explica Teresa Morna, diretora do Museu de São Roque.
As 200 peças compreendem 150 paramentos, divididos em paramentos bordados em fio de ouro para as missas solenes ou para as missas festivas (neste caso, em seis cores litúrgicas, que eram usadas de acordo com o calendário litúrgico), e em paramentos bordados em fios de seda, para as missas quotidianas.
“Há esta sofisticação que podemos considerar única e que, no fundo, respondia ao desejo do rei em reproduzir o cerimonial litúrgico romano em Lisboa. Não existe uma coleção de paramentos equiparada a esta, nem mesmo no Vaticano!”, resume a diretora.

E 50 peças de ourivesaria, concebidas pelo mais conceituado núcleo de ourives da Europa que, na altura, se encontrava… em Roma.
“Quando foi feita a encomenda, as grandes oficinas de ourives em Roma estavam todas ocupadas com a Capela de São João Batista. Houve um pedido da corte francesa a um atelier que foi recusado exatamente por isso!”.
Estas 50 eças de ourivesaria não representam, no entanto, a totalidade das peças concebidas. Algumas terão sido perdidas, provavelmente na altura das Invasões Francesas, quando foram derretidas e transformadas em moeda.
As peças dividem-se em peças de aparato, com uma função decorativa, como os tocheiros, “peças únicas no mundo, só comparáveis a outros exemplares italianos”, com as figuras humanas nelas representadas trabalhadas em toda a sua volumetria; e as peças com uma função litúrgica (as sacras, as galhetas, a salva) de apoio à celebração e à missa.
Teresa Morna dá particular destaque ao frontal de altar, do ourives António Arrighi, um baixo-relevo com um fundo em lápis lazuli, que foi encomendado para ser usado no festival de São João Batista, e pelo qual o rei terá pago o equivalente a uma “quinta do rei na zona de Belém.”


O museu que conservou a memória
A origem do Museu de São Roque, que conserva toda a memória da Capela São João Batista, remonta ao ano de 1898 quando a Sacristia da Igreja de São Roque recebeu uma exposição com as peças de ourivesaria e paramentaria da Capela de São João Batista, assinalando-se assim o IV centenário da Fundação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e os 400 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia.
Seis anos mais tarde, inaugurava-se o Museu de São Roque, no lugar de origem do acervo da Capela de São João Batista.
Essa coleção, vinda diretamente de Roma, permanece no exato lugar para onde foi encomendada no século XVIII. Uma raridade, diz Teresa Morna: “Não muito fácil encontrar, associado a um Monumento Nacional Classificado, um tesouro composto por esta quantidade e qualidade de peças, ainda hoje no seu contexto de origem.”
A sua capela é agora candidata a Tesouro Nacional.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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