Quando Álvaro Filho tinha 9 anos e vivia no Recife, muito antes de engrossar o contingente da imigração brasileira em Portugal, recebeu uma visita da sua avó, vinda do sul do Brasil. Num passeio pelas ruas da sua infância, os dois passaram por uma antiga casa onde Álvaro morara em tempos com os pais. Apontou para ela e anunciou: “Vovó, aqui morou um grande escritor”. Surpreendida, a avó perguntou: “Quem?”. E o menino respondeu-lhe: “Álvaro Filho”.

Passados mais de quarenta anos, e depois de uma breve carreira de informático e um longo percurso enquanto editor e jornalista desportivo (com a literatura sempre a contaminar o seu jornalismo), a profecia auto-imposta cumpriu-se. Álvaro Filho, jornalista da Mensagem, traçou uma carreira como escritor, autor de sete romances, publicados no Brasil e em Portugal.

O jornalista e escritor brasileiro Álvaro Filho volta aos romances, mais uma vez com Lisboa como cenário. Foto: Rita Ansone.

Depois de Alojamento Letal, Lisboa volta a ser cenário de um livro do autor, O Mau Selvagem, editado pela Urutau, com lançamento marcado para sábado, dia 21, às 16h, na Biblioteca dos Coruchéus, com apresentação da jornalista e crítica literária Isabel Lucas.

O livro é fruto dos oito anos a viver em Lisboa, quando Álvaro decidiu, por fim, escrever sobre o que ainda não escrevera nas seis obras anteriores: a sua experiência enquanto imigrante brasileiro.

De bom para Mau Selvagem numa livraria

No centro da trama está um imigrante brasileiro que chega a Lisboa engrossando a última leva de imigrantes do Brasil, auto exilados do recente governo de extrema-direita no país. Um “bom selvagem” inspirado na teoria de Jean Jacques Rousseau, reticente, obediente, temeroso em ser um convidado a estar na “casa do outro”.

O protagonista consegue trabalho numa histórica livraria lisboeta, onde ouve relatos de um antigo funcionário, conhecido apenas como O Mau Selvagem do título, que costuma reagir de forma tempestiva às humilhações impostas por alguns clientes, como rejeitar a sugestão de um livro do poeta Drummond por preferir um escrito em “português de verdade”.

Aspirante a escritor, o livreiro passa a buscar o paradeiro do antigo funcionário, uma busca que o leva a conhecer mais sobre O Mau Selvagem até tornar-se uma perigosa obsessão. Aos poucos, o imigrante “bom selvagem” começa a sofrer uma mutação e também ele a mudar de pele.

Uma transformação que, guardando os recursos literários na trama, também foi vivida pelo autor.

“Cheguei a Lisboa como um bom selvagem, uma visitante que acata tudo e acha que realmente está na casa das outras pessoas e precisa de se comportar, mesmo se não estiver fazendo algo de errado. Não via Lisboa como a minha casa, sentia-me um estranho.”

Tal como o protagonista do seu livro, também Álvaro fugiu da política no Brasil para fazer um doutoramento em Lisboa. Durante os anos como lisboeta, foi colhendo experiências pessoais ou relatadas por terceiros sobre a relação não tão pacífica assim entre os imigrantes brasileiros e os portugueses. “Quando consegui a cidadania, comecei a sentir-me mais confortável. Portugal era a minha casa e tinha espaço para dizer: ‘espera aí, há coisas que estão erradas na sociedade portuguesa’.”

Essa transformação seria a ideia basilar do livro.

O Mau Selvagem acaba por fazer um raio-x da experiência de um imigrante brasileiro em Lisboa, da vida em “repúblicas”, dos quartos partilhados, da dificuldade de trabalhar na área de atuação de origem, dos diplomas esquecidos num roupeiro da Ikea, da saudade de casa, dos relacionamentos pessoais e amorosos falhados com os portugueses.

Mas sem nunca apelar para o maniqueísmo, do tipo o brasileiro é o herói e o português, o vilão. Há espaço inclusive para um tipo de imigrante brasileiro com caráter duvidoso, claramente espelhado nos eleitores da ultradireita do Brasil que cá vivem. “No fundo, são todos maus, brasileiros e portugueses, com laivos de bondade e aspirações de heroísmo, um pouco como todos nós”, resume.

Um policial como reflexão sobre a imigração

Não foi por acaso que Álvaro Filho elegeu o policial para contar a história, um género literário tido como “menor” mas que para ele é capaz de fazer uma crítica social. “O policial é uma ferramenta através da qual se revelam nas entrelinhas da história alguns contornos da sociedade.”

Para o autor, o género policial permite atrair o leitor através de uma boa trama para refletir sobre uma realidade social. Foto: Rita Ansone.

Álvaro cita como exemplo o policial inglês, que numa Inglaterra conservadora expôs nos livros de autores como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie a vida privada dos reservados ingleses, de esposas traídas e herdeiros ressentidos por não constarem no testamento, vingados pelo veneno num frasco. Crimes resolvidos não pela polícia, mas como pede um contexto liberal, por detetives privados, como Holmes e Poirot.

Uma realidade que constrasta com o policial produzido no outro lado do canal, em França, com o inspetor Maigret da Polícia Judiciária. “Nesse caso, é um funcionário que honra o Estado Social francês que assegura a resolução do crime.”

Outro exemplo é o noir norte-americano do início do século XX, com os seus políticos e empresários corruptos e as loiras fatais, mulheres levadas ao desespero por causa do contexto social, desamparadas numa sociedade machista, viúvas de maridos mortos nas trincheiras ou herdeiras de fortunas arrasadas pelo crack da bolsa de Nova Iorque.

Álvaro percebeu a potencialidade do romance policial: de atrair o leitor pela trama para falar de algo maior. Foi o que fez neste livro, lançando o debate sobre a imigração e a comunidade brasileira em Lisboa, recorrendo a um enredo alucinante, combinando os ingredientes do policial, num tributo especial a esse noir.

Um brasileiro que escreve sobre a realidade portuguesa

Antes de enviar o manuscrito d’O Mau Selvagem para a editora Urutau – uma editora independente, criada pelo filósofo e agora editor brasileiro Wladimir Vaz – Álvaro ofereceu-o a editoras portuguesas. A ideia dele era trazer para o mercado editorial português o debate sobre a imigração brasileira que ainda não se encontra nas páginas dos livros, como outros assuntos pertinentes ao olhar de um imigrante.

“Nas cinco editoras que tentei, ouvi sempre a mesma história de escritor brasileiro não vender em Portugal”, conta o escritor, que vê na resistência das editoras portuguesas, condicionadas pela lógica comercial em publicar apenas os best sellers brasileiros, uma maneira inconsciente de influenciar o pensamento do leitor português sobre o papel do escritor brasileiro.

“Durante décadas, as editoras portuguesas acostumaram os leitores portugueses a lerem os autores brasileiros escreverem apenas sobre a realidade brasileira, a violência urbana, nas favelas ou no interior do Brasil. O que criou uma barreira para o escritor brasileiro que vive em Portugal, como se não fosse permitido a ele falar sobre uma realidade diferente, a realidade portuguesa, do país onde vive, onde trabalha, paga impostos e vota, de poder assim também contribuir para a reflexão sobre essa sociedade”, explica.

Essa realidade do mercado editorial, ainda de acordo com o escritor, acaba reduzindo a importância do papel do autor brasileiro na ótica do leitor português, o que por sua vez influencia na procura e nas vendas dos livros.

Álvaro pensa que deveria haver mais espaço nas editoras portuguesas para os autores brasileiros que vivem em Portugal. Foto: Rita Ansone.

“Recentemente, os jornais portugueses abriram espaço para jornalistas brasileiros estabelecerem um diálogo com a imensa comunidade brasileira que vive em Portugal. Um diálogo que também pressiona o poder público a dar respostas não apenas a assuntos restritos ao imigrante vindo do Brasil, mas pertinentes à da sociedade portuguesa. Falta o exemplo ser seguido pelas editoras locais, afinal, uma das funções da literatura é contribuir com a reflexão nacional e nesse tema o autor brasileiro também tem o que contribuir”, completa.

Agora, Álvaro aguarda pela receção que o livro terá quer em Portugal, quer no Brasil. Cá, espera que os leitores não se limitem à comunidade brasileira. Lá, que o livro não se limite a ser uma lista dos “maus exemplos” da vida de um imigrante brasileiro em Lisboa. “O Mau Selvagem não é um livro de reclamações, é uma obra que pretende fazer reflexões.”

Tudo para que se continue aquela que, no seu entender, é a missão da literatura: dar voz. “No mundo em que vivemos, num contexto de guerra, de privações e aumento da extrema-direita, se você tem a condição e a oportunidade de falar, seja na literatura, seja no jornalismo, fale.”


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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