Faz agora 35 anos desde a primeira vez que Ruth Falcão cozinhou o muzongué, um prato tradicional angolano, um caldo de peixe acompanhado com banana-pão, batata-doce e mandioca. Tinha então apenas 13 anos. Hoje com 48 anos, Ruth ajuda na associação Legião da Boa Vontade a cozinhar a sopa para os sem abrigo. Admite que encontra na cozinha uma forma de demonstrar preocupação e carinho pelas pessoas que a rodeiam. Ruth é um dos convidados que dará um tempero ao festival É um Encontro, entre 13 e 15 de setembro, no Parque Central da Amadora.

“Em Angola dizem que é um prato para tirar a ressaca [o muzongué]. Eu lembro-me que o meu tio tinha bebido, chegou a casa e disse: ‘façam-me um caldo!’. Era aquele tio bom, sempre presente, pronto, lá fui fazer o caldo e ficou bem. Toda a gente gostou e desde então, pronto, passei a fazer o caldo”, recorda-se Ruth.

Os sabores do mundo servidos no festival É um Encontro. Foto: Catarina Ferreira.

Ruth adora reunir amigos e família à mesa e foi justamente isso que fez no último encontro da Associação Crescer, um micro evento que antecede o festival É um encontro, que ocorre em setembro.  A Crescer é uma associação de intervenção comunitária e o festival sugestivamente é mais uma das suas iniciativas, realizando uma viagem pelos sabores do mundo, este projeto procura promover o diálogo pela interculturalidade. 

“É um festival que reúne chefes nacionais e internacionais de renome, pessoas que trabalham nesta área já há muitos anos e que passaram por restaurantes com estrelas Michelin, trabalham em restaurantes, em grandes hoteis. E queremos juntar estes chefes com pessoas da comunidade local, em particular de duas freguesias do Concelho da Amadora, a Costa do Sol e Mina d’Água. E estamos a trabalhar com dois bairros em específico, que é o Casal da Mira e o Casal da Boba”, explica a coordenadora de projetos da Associação Crescer, Teresa Bettencourt.

Quem está à frente da equipa multicultural que está a preparar a refeição para o micro evento que antecede o festival é o chef Nuno Bergonse, de 36 anos, consultor da cozinha do restaurante É uma mesa, em Carnide, também parte da Associação Crescer.

“Vamos ter culturas dos países todos. Temos aqui a tia Emília e a Ruth, são pessoas que cozinharam a vida toda e nunca tiveram essa oportunidade de mostrar aquilo que estão a fazer, são pessoas que têm uma mão para a cozinha incrível e nesses três dias de festival as pessoas que lá forem vão poder comer esta comida boa”, garante Nuno.

Nuno nasceu e cresceu no Brasil, tem pai brasileiro e mãe portuguesa, e a sua herança cultural é o tempero não só para os pratos que prepara, mas também para participar nos projetos que servem na mesma travessa a cozinha e a área social, admite que este festival é uma oportunidade para juntar à mesa a comunidade.

Além dos showcookings e dos mercados de venda de produtos, estão previstos  pequenos espetáculos. “Vamos ter neste palco pequenas demonstrações culturais de grupos locais, por exemplo, grupos de dança locais, vamos ter, por exemplo, as batucadeiras do casal da Mira a atuar, também uma forma de dar palco às pessoas da comunidade local”, explica Teresa.

🎧 Ouça a história na íntegra aqui:

Esta reportagem faz parte da “Mensagem Rádio”, um programa que passa quinzenalmente na RDP África (do grupo RTP), à terça e sexta-feira, e em permanência: no site da Mensagem, em rdpafrica.rtp.pt e no Spotify.


Mariana Vital

Alfacinha de gema, criada no elétrico 28, foi nas ruas onde cresceu e através das pessoas que a cidade lhe foi dando a conhecer que descobriu a paixão por contar histórias. É através da palavra – lida, escrita, falada ou cantada – que chega, por esses carris fora, à sua paragem. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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