É hora da refeição no insetário do Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas (CEVDI), em Águas de Moura, Palmela, distrito de Setúbal. Os mosquitos batem as asas e procuram o alimento: uma refeição de sangue, servida através de um aparelho chamado hemotek pelas jovens cientistas Rita Fernandes e Inês Freitas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. “Os mosquitos é que mandam em nós. São os nossos filhos”, dizem elas. Nesta sala, as duas estudam e monitorizam o ciclo de vida dos mosquitos: de ovos a larvas, de larvas a pupas, de pupas a mosquitos. Mosquitos, flebótomos, carraças… vetores (organismos que transmitem doenças infecciosas, como é a dengue).
É isso que se investiga no CEVDI, o laboratório nacional de referência para o diagnóstico de doenças como a dengue, zika, chikunguya. Algumas das quais nos habituámos a ver como doenças de outros lugares que não Portugal. Mas o alarme soou no início do mês, com a Direção-Geral da Saúde a anunciar que fora identificado o mosquito que transmite a dengue e zika em Cascais e em Pombal: o Aedes albopictus.
Um mosquito já antes registado em Penafiel, no Algarve, no Alentejo e em Lisboa. Foi por isso, aliás, que se criou a Rede Nacional de Vigilância de Vetores (REVIVE), coordenada a partir deste centro.


Dengue em Lisboa?
Detetado o Aedes albopictus (o “mosquito tigre asiático”) em várias regiões do país, urge a questão: será que teremos dengue em Portugal e em Lisboa?
O lugar para encontrar respostas é aqui mesmo, no CEVDI. Maria João Alves, investigadora e coordenadora do REVIVE, assegura que teremos dengue, mas ainda demorará.
Vejamos porquê.
A dengue pode ser transmitida por dois mosquitos:

- O Aedes aegypti, distribuído em todas as zonas tropicais. Na Europa, este mosquito já existiu mas, nos anos 50, o uso do DDT – o primeiro pesticida moderno – acabaria por extingui-lo.

- O Aedes albopictus, do Sudeste da Ásia, foi introduzido em 1979, na Albânia, e daí ocupou a Itália, o Sul de França, a Espanha…
Entretanto, o Aedes aegypti foi detetado na Madeira em 2005 e, sete anos depois, verificou-se um surto de dengue. Mas como se explica este hiato de sete anos?
No caso da Madeira, o mosquito terá sido introduzido a partir da Venezuela. “Há um voo direto na Madeira, há muitos madeirenses lá, portanto havia essas trocas, e o mosquito foi introduzido.”
Mas não basta para o alarme. Para que este cenário se verifique, é também necessário que o mosquito exista em abundância:
“O mosquito tem de se instalar, de aumentar a abundância, de ficar confortável com o clima… E tem de se verificar a presença de pessoas infetadas”. Ou seja, para haver transmissão, o mosquito terá de picar uma pessoa infetada, e só assim conseguirá transmitir a doença.
O Aedes aegypti não foi encontrado em Portugal Continental, mas o Aedes albopictus, esse sim e é o que tem motivado as mais recentes notícias sobre estas doenças no país.
Demorará, no entanto, até se verificar casos de dengue, uma vez que o mosquito não existe em abundância. O que sabemos é que, se ocorrer, Lisboa poderá ser um foco, como explica a investigadora:
“Em Lisboa, temos uma grande abundância populacional e teremos importação de casos com a presença do aeroporto.”

A freguesia com mais casos de malária do país
O estudo das doenças transmitidas por mosquitos como o Aedes albopictus é um dos trabalhos realizados no CEVDI, um centro que é também um segredo bem guardado em Águas de Moura. Mas por que razão está este centro aqui em Palmela?
Há, pois, toda uma história que o explica. Para a conhecermos, viajamos até ao ano de 1938, quando aqui foi criado um instituto para estudar a malária: o Instituto de Malariologia.
No início do século XX, a Fundação Rockefeller procurava uma localização em Espanha para ali instalar um centro que estudasse a malária. Mas viviam-se tempos de Guerra Civil, pelo que a Fundação acabaria por procurar uma solução no país vizinho, em Portugal.
Marateca, a freguesia de Águas de Moura, era, então, a zona com mais casos de malária do país, pela sua proximidade aos campos de cultivo, e, por isso, ali se decidiu instalar o novo Instituto.
“Nessa altura, morriam muitas pessoas com malária. Dizia-se que a produção de 15 hectolitros de arroz custava uma vida pela exposição à picada de mosquitos”, explica Maria João Alves.
Estes tempos ficaram conservados em memórias expostas numa sala do CEVDI, onde resiste algum do arquivo do antigo Instituto de Malariologia (a grande maioria foi cedido ao Museu da Saúde, em Lisboa). Resistem memórias como um cartaz da época, onde se pode ler: “Protege-te das picadas dos mosquitos se não queres apanhar sezões”, ou mosquitos embalsamados, estudados para se compreender a transmissão da malária.



O Instituto seria determinante para a erradicação da malária em Portugal. De facto, a primeira zona a erradicar a malária foi mesmo esta, Águas de Moura. “Passou de zona endémica a ser a primeira zona erradicada”, diz Maria João.
A malária seria erradicada em finais dos anos 50 e, nos anos 80, o diretor do Instituto Ricardo Jorge, Aloísio Coelho, transferia para este edifício o setor de Arbovírus do Laboratório de Virologia, com o objetivo de criar o Centro de Estudos de Zoonoses (doenças de animais, domésticos ou não domésticos, que são transmitidas aos humanos).
Já no final do século XXI, o centro passou a ter a designação atual, sendo mais tarde acrescentada a homenagem ao “Doutor Francisco Cambournac”, membro fundador e primeiro diretor português do Instituto de Mariologia.

Dengue: o que permite que a doença sobreviva e viaje?
Hoje, é aqui que se procede à identificação e monitorização de mosquitos, fleobótomos e carraças a partir da rede REVIVE. “Identificamos, pesquisamos a atividade viral e assim conseguimos perceber se há flutuações.” É um trabalho importante, pois 30% das novas doenças são transmitidas por vetores (organismos que transmitem doenças infecciosas), diz Maria João Alves.
Em Portugal, as doenças mais prevalentes são as transmitidas pelas carraças, como a febre da carraça e a borreliose de lyme. Mas tem surgido uma preocupação crescente com a dengue, com o aumento de casos no mundo.


O crescimento destas doenças tem, aliás, uma explicação muito atual: a globalização. A transmissão da dengue só se verifica desde que há cidades com mais de 10 mil habitantes, explica Maria João Alves.
O que está aqui em causa é o transporte de mercadorias e a circulação de pessoas, que permitem a introdução do mosquito e a chegada de pessoas infetadas. Por exemplo, a febre amarela disseminou-se no século XVII com o transporte de escravos de África para as Caraíbas. Foi assim que o mosquito – o Aedes aegypti – foi introduzido na América Central e do Sul.
E as alterações climáticas? Que impacto têm na proliferação dos mosquitos? É difícil prever, diz a investigadora. “O aumento da temperatura pode levar a que haja mais mosquitos, mas o aumento excessivo pode ter o efeito contrário. Ainda não sabemos exatamente como é que os mosquitos reagem às alterações climáticas, dependerá das espécies e de muitos outros factores ambientais.”
A participação cidadã na ciência
Com o crescimento das cidades e a facilidade em circular, as doenças transmitidas por vetores têm, claro, aumentado. E o CEVDI tem desempenhado um papel ativo no estudo destas doenças.
Mas como nos podemos precaver contra elas?
Maria João Alves elenca: “Se uma pessoa for para uma zona tropical, deve fazer uma consulta do viajante. Há muita vacinação disponível. E ter conhecimento da proteção, do que deve fazer individualmente: o repelente, a manga comprida, calças em vez de calções…”.
Mas, para além de tudo isto, há uma questão que é fundamental, até mesmo para o funcionamento da CEVDI: a participação cidadã. “As pessoas têm de estar informadas”, adianta a investigadora.
E, para tal, o REVIVE tem à sua disposição uma ferramenta que permite a ligação entre as pessoas e a ciência: o MosquitoAlert, uma aplicação através da qual as pessoas podem submeter fotografias de mosquitos que encontram para que sejam identificados e localizados.
Maria João Alves partilha mesmo com alegria: “Há muita gente a participar, e temos feito um grande esforço para divulgar! E já conseguimos podem ser consultados os mapas com a localização dos mosquitos”. Só assim se torna possível o estudo destes seres e a luta pelo combate às doenças por eles transmitidas.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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