Paris e Lisboa não podiam ser mais diferentes. Como ambas são cidades únicas, é natural que as diferenças sejam imensas. Mesmo que o português se faça ouvir em cada arrondissement parisiense, são poucos os elementos que unem as duas capitais europeias. Mas existem semelhanças. São básicas, mas contam.

Uma é bastante evidente: tanto em Paris como em Lisboa — e como em qualquer outra cidade do planeta, escreva-se —, as pessoas confiam as suas rotinas nas estradas: metem-se no interior de carros, aceleram e seguem caminho.

Não é novidade, nem é de agora, mas não deixa de ser digno de apontamento.

Imaginemos agora todas as cidades do mundo. E estradas dessas cidades. Pensemos em Paris e, depois, em Lisboa. As cidades e as estradas destas cidades estão cheias de doidos. Uns cometem animalidades rodoviárias, porque, enfim, não têm muito jeito para conduzir e são cronicamente irresponsáveis. Outros estão apenas distraídos e circulam pelas estradas porque combinaram pequenos e rápidos, mas impactantes, encontros — talvez apenas porque sim, ou porque não podem agir de outro modo, acabando por descobrir um certo tipo de paz ao longo de retas e cruzamentos de alcatrão.

Por isso: Paris e Lisboa, cidades de doidos. Neste ponto, as cidades tocam-se.

Também em Berlim, em Roma e noutras cidades europeias, os doidos dos dois tipos dominam as estradas — os que não sabem controlar os impulsos dos carros e os que não sabem controlar os impulsos dos desejos.

Em Paris, essa loucura foi documentada. Em 1976, Claude Lelouch colocou uma máquina de filmar no pára-choques de uma segunda máquina – uma Mercedes Benz 450Sel 6.9 mascarada de Ferrari 275 GTB -, e, interpretando o papel de fou — doido! —, foi de Porte Dauphine a Montmartre em apenas 8 minutos. (Em condições normais, demoraria cerca de 18 minutos numa madrugada sem trânsito, de acordo com o Waze.)

Durante o percurso, raramente usou os travões. Acelerou apenas. É o que os doidos fazem, pelo menos figurativamente: aceleram, prestando pouca atenção aos espelhos retrovisores, porque o que fica para trás fica para trás e porque a cidade só se sabe expandir e revelar novos caminhos e perspectivas.

Na prática, a personagem hiper-real de Lelouch violou todas as regras do Código da Estrada francês então vigente. Colocou pessoas em perigo, desrespeitou semáforos e subiu passeios, mas apenas porque estava com pressa ou simplesmente atrasado para o encontro que, presumimos, havia marcado em Montmartre. Tudo por uma boa causa?

Em 2023, o condutor-realizador não teria tido a mesma facilidade: há mais carros na estrada e mais pessoas — no fundo, mais confusão. Ainda que os motores interiores das pessoas se tenham mantido inalterados: ainda se movem pelas mesmas coisas. E pelas mesmas pessoas. E pelos mesmos encontros e promessas. E também pelos mesmos sítios.

Talvez seja por isso que Paris e Lisboa não sejam assim tão diferentes. Os desenhos das ruas e as vistas são bem distintos, mas o espírito dos condutores amalucados que cruzam as cidades, e que fazem de tudo por um rendez-vous, assemelham-se. Ao mesmo tempo, as duas cidades parecem inspirar-se uma na outra. De repente, o Sena parece-nos o Tejo; o Palais Garnier, o D.Maria; e a Basílica de Sacré-Cœur, o Convento da Graça. Realmente, não é um sítio nada mau para um encontro. Ou para um rendez-vous.

O sol nasce em Lisboa. A chave fica na ignição. Abraçam-se os doidos algures entre Paris e Lisboa. Algures entre eles.


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