Aqui me confesso. Se ‘Atrasados’ fosse nome de marcha popular, eu seria a madrinha do bairro. Comecei por me atrasar no parto, a nascer, talvez por ser época de cerejas e as comer aos quilos, compradas diariamente no Frutalmeidas de Alvalade, daquela forma que toda a mãe alimenta o filho ainda feto, crente, quem sabe, de que no mundo exterior seria condenada à ingestão de líquidos – pelo menos, nos primeiros meses – como os pacientes de ambulatório.

Ainda agora, depois de um ‘boa tarde’ culposo, oiço com frequência preocupante ‘se é tarde, viesse mais cedo’, frase dita do outro lado do balcão, da casinhota de bilhetes, do consultório, da mesa do almoço de família ou do fundo da sala de espera. Algo em mim ainda me faz revirar os olhos, baixar a cabeça ou, já sem paciência, encolher os ombros.

Também enfrento os enrosques e os desenrosques na cadeira, os sons de pedido de silêncio perdigotados ou rugidos, os semblantes condenatórios, quando, entre pés, joelhos, casacos e malas, suspiro por passagem até ao meu lugar, já as letras do genérico do filme acabaram e começou a música indie de um dramalhão sul-coreano, ou o cantor da moda diz ‘boa noite, Madrid’ depois do primeiro acorde e o maralhal levanta-se entre apupos e dou por mim sentada ao colo de um interailer de camisa de alças e tórax farfalhudo.

Os atrasados ou são coitadinhos ou são mal-educados. Quando nos tomam por coitadinhos, tratam-nos com paternalismo imbecil, acham-nos incapazes de estacionar o carro à primeira, dar com a morada, antecipar percalços, fugir de arrumadores, mas – pelo menos – não nos obrigam a dividir a conta do jantar ao qual chegámos pela altura da sobremesa. Isso acontece quando nos vêem como atrasados mal-educados. Cabe ao atrasado justificar-se ou enunciar os benefícios dos atrasos. Ando nisto há alguns anos, sou atrasada de mão na bíblia, e só me ocorreram até ao momento as mais-valias do atrasar dos orgasmos defendidas por Marta Crawford, sendo que – apesar de boa – não é justificação para tudo.

Como os pacientes terminais, os atrasados têm a sua fase de negação. Uma espécie de ‘eu contra o mundo’, mundo que nos empurra para o atraso. A terapêutica passa por pôr à prova o mito de que não se consegue ser pontual em Lisboa e juntar no mesmo dia afazeres que os mais destemidos agendariam para um mês e os cautelosos distribuíam por um ano completo: trânsito, transportes públicos, Loja do Cidadão, médico, banco e estacionamento.

O dia começou no trânsito e o trânsito é a desculpa mais recorrente dos atrasados, logo seguido da meteorologia esquizofrénica, que nos faz, entre a cozinha e a porta de entrada, mudar de casaco três vezes e optar por sair em manga curta. A frase não tem comprovação científica, mas poucos devem ser aqueles que não equilibraram o volante no joelho ou puseram as mudanças com o antebraço ou aproveitaram um sinal vermelho para escrever de forma clandestina no telemóvel ‘atrasado.5m.bj’. O taxista apita e ultrapassa com os modos de acasalamento entre lagartixas africanas, muito violento por sinal, levanto os olhos do telemóvel e arranco, mas devagar porque ainda me falta encontrar na lista o nome da pessoa de destino. Os telemóveis tornaram os atrasados menos mal-educados, porque assim se defendem com o argumento de que avisaram. Mesmo que os cinco minutos signifiquem meia hora ou ainda nem tenham saído de casa ou no espaço de uma manhã mandem várias mensagens de garantia que chegarão onde os esperam nos cinco minutos seguintes. O telemóvel também causa ansiedade nos atrasados. ‘Já cheguei’, ‘Já cá estou’, ‘Demoras?’. Mensagens totalmente inconsequentes, porque quem está atrasado não ficará mais a tempo quando as lê.

Parada, atrás de uma carrinha de açougue que atravanca a passagem, entre a Estrela e o Rato, recebi a mensagem da minha mãe garantindo que já tomava o pequeno-almoço na Versailles. Não foi por isso que o matulão da carne transportou mais depressa as carcaças dos cabritos ao ombro ou gritou menos ‘estou a trabalhar’, enquanto lhe buzinávamos o vagar. Não foi por isso que o pedinte diligente não me encheu o vidro de líquido de lavar a loiça e não tive de arrancar com a cabeça de fora. Não foi por isso que os sinais, até ao Marquês, me agraciaram com a luz verde. Com meia hora de atraso e sem trocos para o parquímetro estacionei no Saldanha (os atrasados não descarregam aplicações). A minha mãe terminava o croissant e o galão, enquanto lia o jornal com a placidez dos pontuais. Já o meu estômago roncava de fome: os atrasados tendem a saltar refeições.

Um dos pontos que une atrasados e quem espera é o facto de ambos os espécimes praguejarem. Os primeiros porque tudo os atrasa, os segundos porque vivem a impaciência de aguardar por quem demora. O consultório médico, o primeiro ponto de paragem deste roteiro de horrores, é campo fértil para tal observação. Existem vários perfis de pacientes, mas – de uma maneira ou de outra – todos se encaixam em três grandes grupos. 1) O conformado, que vê na sala de espera o seu habitat natural, tenta a sociabilização com exemplares do mesmo temperamento através de troca de experiências médicas e conhecimentos de posologia, quando descontraído também costuma mostrar fotografias da família; 2) O contribuinte, irascível e insatisfeito, no primeiro olhar de relance, perante a sala cheia de doentes, mastiga palavrões e salta com fúria sobre qualquer fardamento branco; 3) E, por fim, o trapaceiro, que gane de dores até ser posto entre os casos urgentes e passa no corredor, dez minutos depois, com o sorriso tolo de quem vai no segundo saco de soro. Por norma, aparecem no médico ao domingo, depois na novela, com a marca do sol da Ribeira das Naus.

Terminada a consulta, segui de metro para as Laranjeiras, no desconhecimento feliz de quem não sabia que estava – por aquela altura – a ser multada pela EMEL. A loja do cidadão é, à partida, um ambiente hostil, onde cada utente espreita pelo canto do olho para identificar o número da senha do vizinho. ‘A bem da verdade, só não se faz aqui o piquenique do Tony por falta de espaço, tempo para isso não falta’, ouvi o gracejo atrás de mim. Quarenta pessoas bocejavam à minha frente.

Quatro horas passadas, fui traída pela fome e pela tecnologia. Enfiei-me novamente no metro, atrasada para o almoço em Picoas, e pelo caminho enviei uma mensagem que me garantia, em troca de alguns cêntimos, que seria avisada a tempo do ritmo do atendimento. Depositei o telemóvel ao lado do molho de soja e wasabi, esperançada de que os serviços da administração central do Estado comunicassem comigo. O aparelho manteve-se mudo e quedo durante a refeição e continuou mudo e quedo quando, sem conferir as rotinas dos pensionistas, entrei numa filial da Caixa Geral de Depósitos. ‘Big, big mistake’ poderão estar a pensar. A frase cinematográfica aplica-se. O erro foi, de facto, evidente, depois de observar quatro idosos a dialogarem com as Caixas Automáticas no mesmo tom com que acusavam os empregados do balcão de má fé e de má conduta.

Regressei às Laranjeiras por descargo de consciência, para verificar que a minha vez tinha passado há vinte números, e dei por mim à porta do atendimento ao cliente da EDP, trinta minutos após a hora de fecho. Já desmoralizada, tive vontade de pôr os pés ao sol.

De elétrico até à Lapa, percebi que diferentes tipos de transportes públicos criam diferentes tipos de passageiros. Quem anda de elétrico é, por norma, mais calmo e contemplativo do que quem anda de autocarro, poucos se encostam a babar junto à janela e até se ouvem risos. A caminho de casa fiz um desvio para umas compras rápidas, que nunca são rápidas, e nos encavalitam a agenda.

Terminei o dia a dizer palavrões, entre o circuito dos parques do Chiado, sempre lotados à sexta-feira à noite. Com quarenta minutos de atraso, cheguei ao São Luiz. O porteiro apontou-me com autoritarismo as escadas, exigindo silêncio e cuidado ao entrar na sala de espectáculos. Por precaução, pedi-lhe o número de telemóvel. Para a próxima, porque vai haver uma próxima, mando-lhe uma mensagem a dizer ‘atrasada.5m.até já’, com sorte retarda o início do concerto.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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