1.

Calor à sombra.

Normalmente no Verão, embora agora nunca se saiba se precisaremos de sombras no Inverno.

Pensar no paradoxo do tempo que se passa no escuro numa cidade cheia de luz. Pensar que se escolheu uma casa pela luz ainda assim.

2.

De manhã, a minha filha pede-me para ver o tempo. Não me pede para ir à janela. Nem vai ela à janela. Pede-me para ver no iPhone. Ou vê ela. Já sabe seleccionar a App da Apple, Weather, e ver o que quer dizer cada símbolo. E até sabe espreitar como vai estar ao longo do dia, hora a hora. Muitas vezes, há uma discrepância entre o ecrã do telemóvel e a janela mas quase sempre confiamos mais no ecrã. Talvez esteja a chover mas o iPhone diz que não chove e, então, não levamos guarda-chuva. Talvez esteja sol mas o iPhone diz que está nublado e levamos uma camada de roupa extra.

Podemos ser enganados pelo telemóvel mas ele dá-nos a sensação de que sabemos o que vai acontecer a seguir. De que até o clima pode ser controlado. Os nossos olhos, por outro lado, nunca sabem o que vai acontecer a seguir.

3.

Céu limpo.

Estado comum em qualquer estação do ano em Lisboa.

O que fazer: atravessar o rio, ir à praia, molhar os pés, sentir a areia, pensar nos amantes, ou nos turistas, nas pessoas que estão felizes simplesmente porque não há nuvens por cima delas – e isto não é metafórico. Pensar também nas pessoas pelas quais a visão do mar da mesma cor do céu não faz nada. Que podiam viver aqui como noutro sítio qualquer, que o azul não os afeta.

4.

Até há muito pouco tempo, nessa mesma aplicação de meteorologia, tinha uma enorme lista de cidades: Londres, Dublin, Edimburgo, Milão, Nova Iorque, Cartagena das Índias, Ubud… Mas também Moledo, Soajo, Covilhã, Aveiro, Alter do Chão, Odemira, Tavira… Eram sítios onde tinha estado de férias, ou passado em reportagem, ou ido participar num festival literário ou noutro evento.

Era como se continuando a ver o tempo em cada um alguma coisa ainda me ligasse a eles. Era o equivalente da conversa como-está-o-tempo-aí mas sem ter que falar com ninguém. Em quantos lugares o tempo estava melhor do que aqui? E em quantos estava pior? E, como noutras conversas, falando do tempo, não é preciso pensar noutras coisas.

Depois, um dia, achando que a lista estava a ficar tão extensa que era impraticável, finalmente apaguei todos os lugares deixando apenas dois ou três para os quais era realista que eu voltasse mais cedo ou mais tarde. Em vez de pena, senti alívio. Como se, não sabendo o tempo, também não teria que saber da felicidade naqueles lugares onde não voltaria.

5.

Chuva.

Nem todas as cidades ficam românticas com chuva. Algumas ficam só mesmo inundadas e caóticas. Lisboa fica escorregadia – e isto também não é metafórico.

6.

Os ingleses, por exemplo, estão sempre a dizer mal do clima. Depois de viver em Londres, reparei que em Lisboa as pessoas estão sempre a dizer bem: “temos um dos melhores climas do mundo!” Só que nunca é o melhor para o plano de hoje. Está um pouco mais de calor do que é desejável. Ou está vento, que faz voar o jornal na esplanada. Ou o sol está demasiado forte para voltar para casa sem uma pequena mazela. Ou chove e, claro, cancelam-se todos os planos.

Em Lisboa, o melhor tempo é o que já passou ou o que vem a seguir –  e isto, sim, talvez seja metafórico.

7.

Céu com nuvens.

É especialmente bonito nos livros. As nuvens transformam-se em baleias e papagaios de papel e comboios nas histórias, mas na realidade os contornos nunca são tão nítidos e nunca sabemos se é um problema da nossa imaginação.

Mesmo as crianças espantam-se mais com a velocidade a que as nuvens, por vezes, se deslocam, e deleitam-se com o efeito óptico que provoca nelas aqueles breves instantes em que parece que o céu está a fugir.

8.

Por qualquer razão, sempre que escrevo a alguém que está longe – mesmo num simples email – tenho tendência para começar por dizer como está o tempo. Não é tanto uma questão de informação  –  é provável que a pessoa, onde quer que esteja, possa ir a uma aplicação ver como está o tempo em Lisboa – mas de criar um ambiente. De transportar a pessoa para junto de mim. É talvez o gesto mais básico de toda a escrita.

9.

Nevoeiro.

Normalmente, matinal. Normalmente, com uma luz que embacia os olhos.

Pensar que lá porque não vemos acontecer não quer dizer que não esteja a acontecer. Quando o nevoeiro dissipar, terá passado mais tempo do que imaginámos. Algo poderá ter mudado.

O que fazer: escutar os apitos dos barcos que chegam bastante longe desde o rio, dentro da cidade, das casas, dos corações.

10.

Descobri ao fim de alguns anos e muitas entrevistas – sobre memórias de lugares, épocas, experiências – que as pessoas dão pouca importância aos pormenores. Não se lembram, frequentemente, se fazia sol, o que vestiam, de que cor estava o céu em determinado dia. Talvez seja verdade que deus – ou o diabo – está nos detalhes, mas nós somos apenas humanos.

No entanto, mesmo nos dias em que lhes aconteceram eventos importantes, pessoais ou colectivos, mesmo nos dias em que o mundo mudou, as pessoas devem ter saído de casa mais preocupadas com o tempo que fazia e se deveriam ou não levar o guarda-chuva.

Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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