Olá vizinhos!

Assim que aluguei uma bicicleta à porta de casa do meu amigo, pedalávamos os dois tranquilamente por uma ciclovia do tamanho de uma estrada. Ele vivia na periferia e precisávamos ainda de apanhar um comboio para chegarmos ao centro. Havia rampas de acesso à linha da estação e não éramos os únicos assim. Aliás, não dava para contar pelos dedos quantas pessoas se juntaram à nossa volta à espera da carruagem. Para quem tudo isto era novidade, obviamente me questionava: onde é que esta gente toda vai caber? Assim que as portas do comboio abriram, tive a resposta: as carruagens tinham dezenas de suportes para encaixar o pneu da frente. Lugares sentados? Não muitos…

Isto foi há quase dez anos, numa curta passagem por Copenhaga. E, nessa altura, sentia que viajava noutro mundo. Ali havia uma rede de transportes a fazer a sua função, em vez de só cumprir os serviços mínimos. Havia também parques de estacionamento com vários andares onde bastava alguma distração para não saber onde se tinha deixado a bicicleta – entre as muitas centenas. Havia pais a levarem os filhos à escola nas cadeirinhas. Enfim, um mundo futurista. E carros voadores nem vê-los.

Trago esta experiência radical a propósito do debate que esta quarta-feira a Mensagem vai organizar: mobilidade em Lisboa. Isso mesmo, o tema que mais divide lisboetas. Porque uma cidade não pode ser só de carros, mas também porque para muita gente as alternativas ainda não servem. Há também quem ainda não tenha feito contas. E as empresas ainda não ponderam oferecer vales para usar em transportes públicos ou partilhados, em vez do habitual incentivo à aquisição de uma viatura de cinco lugares quase sempre vazia.

Mas falamos disto tudo porque ninguém quer regressar ao trânsito caótico em que já vivemos na vida pré-covid. As horas passadas em fila, o ruído constante, a poluição do ar. Quem tem saudades? A pandemia roubou-nos amigos e familiares, mas também nos deu várias lições ambientais. E aumentou muito a vontade de podermos usufruir da rua: ir ao jardim, caminhar num paredão ou pedalar sem destino.

Mas não estamos sozinhos nesta discussão do espaço público. Em Nova Iorque, aquela cidade que tantas vezes dissemos que não dormia, também ela paralisou e o excesso de alcatrão com linhas brancas a separar faixas não acrescentou muito. E na corrida eleitoral estão a discutir o mesmo: querem fechar estradas ao trânsito, mais espaços verdes e incentivar o comércio local, através do programa Open Streets – como também já fazem em Barcelona, por exemplo, que encerraram quarteirões.

Falam em cobrar taxas aos carros que se desloquem para zonas específicas, o que já se faz em muitas cidades do mundo, mas Nova Iorque pode vir a ser a primeira a concretizá-lo nos EUA. Um exemplo bem conhecido por lá é a High Line, uma antiga linha do metro superficial que foi transformada num jardim público com mais de dois quilómetros. Enfim, outro mundo futurista onde também não há carros voadores.

Boa semana,
Nuno Mota Gomes

PS: O debate sobre mobilidade em Lisboa é esta quarta-feira, às 18:30, e quem se inscrever irá receber um link para se juntar via Zoom. Vamos ter como convidado Mário Alves, fundador da MUBI, Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, mas também especialista em transportes e mobilidade, mestre pelo Imperial College de Londres e coordenador de vários planos de mobilidade de cidades portuguesas. Esperamos por si! Inscreva-se, aqui.

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