Olá, vizinhos!

Sim, hoje é aquele dia em que não nos esquecemos mesmo dos mais novos. E o dia em que mais recordamos quando o éramos. Memórias, brincadeiras, amigos. Quantos deles nunca mais vimos e continuamos a imaginá-los iguais, como se não tivessem crescido?

Talvez ainda estejam lá na praceta a jogar às escondidas. Ou a chutar uma bola gasta contra paredes que formam os maiores campos de futebol. Ainda devem estar a inventar fintas contra o adversário ou a fazer fitas por perder a bola. Ou a suar pelo derby e a gritar pelo golo que foi dos melhores de sempre… mas ninguém viu. 

Os jogos terminavam quando o dono da bola precisava de ir embora. Eu gostava de abandonar em estilo: juntava poucas moedas que faziam uma fortuna capaz de comprar um refrigerante. Não só para revigorar, mas sobretudo para amolgar a lata no pneu de trás da bicicleta. Arrancava a pedalar ao som de uma mota. Como gente crescida. 

Estas memórias – não são assim tão longínquas, vá – recuperei-as essencialmente ontem, a propósito da reportagem da Catarina Reis sobre a iniciativa que está a mudar Lisboa como a conhecemos até agora. O projeto Brincapé fecha ruas ao trânsito à sexta-feira para devolver o espaço público às crianças. Que inovador, não é? Até parece tecnológico. 

Uma vez por semana, durante duas horas, os únicos carros que ali passam são de rolamentos. Os engarrafamentos são apenas transformar garrafas em tudo o que as crianças quiserem. E as buzinas são substituídas pelo frenesi do divertimento.

Tudo isto é organizado por uma equipa que garante a segurança. A falta dela foi aquilo que mais levou as brincadeiras das crianças para dentro de casa numa cidade como Lisboa. Para a sala ou para o quarto. Sozinhos ou apenas virtualmente em grupo. Atrás de ecrãs, sentados ou a deslizar o dedo por mais um vídeo. Talvez seja o vídeo de como se pode brincar na rua… 

A grande ameaça da sociedade está no sedentarismo. Quem o diz é José Morgado, especialista em pedagogia e psicologia infantil, alertando que “temos índices preocupantes de obesidade infantil e de diabetes II em crianças. Brincar ao ar livre tem um papel muito importante ao nível do desenvolvimento.” A nível físico, cognitivo e até de saúde. 

Para Liliana Madureira, coordenadora da Brincapé, “a escola não tem de estar fechada dentro da escola.” E apesar da burocracia de fechar ruas ou torná-las exclusivas para crianças, a ideia que parecia utópica está já longe de o ser. Liliana mostra-se otimista: “Essa discussão já começa a existir”.

Tomara que sim. Tenho saudades de encontrar os meus amigos a brincar na praceta. Feliz Dia da Criança para todos os que nunca deixaram de o ser.

Nuno Mota Gomes

PS1: Na próxima quarta-feira, dia 9 de junho, vamos ter mais um encontro de leitores e seguidores. Será sobre mobilidade – o presente e o futuro dos transportes em Lisboa e contará com a presença de Mário Alves, veterano destas andanças e fundador da Mubi, entre outras coisas. Inscreva-se aqui.

PS: Na quarta-feira passada voltámos à Brasileira do Chiado para debater o que é centro e o que é periferia com o músico, escritor e produtor Kalaf Epalanga e Emília Ferreira, diretora do Museu de Arte Contemporânea – que estava a comemorar 110 anos. Pode ouvir tudo no Spotify da Mensagem, aqui.

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