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As suas copas, robustas e cónicas, após o descanso invernal, abraçam-nos com sombras perfumadas no fim da primavera. São várias as subespécies de tílias que dão corpo aos jardins e alinham as nossas ruas, destacando-se a Tilia cordata e a Tilia tomentosa, porém, de modo geral, referiremo-las apenas como tílias – pela aparência comum e fácil distinção das outras árvores.

Apesar de as tratarmos por tu, devido a uma companhia imponente e antiga, não são endémicas. E não foi pela sua semente voadora que aterraram nas nossas ruas e nos mais emblemáticos jardins da cidade, mas por vontade humana, possivelmente, no século XVIII. Mais tarde do que no resto da Europa, onde existem tílias milenares, destacando-se uma tília em Gloucestershire, no Reino Unido, com cerca de 2000 anos.

As tílias terão chegado a Portugal por volta do século XVIII, mais tarde do que no resto da Europa, onde existem tílias milenares. Foto: Leonardo Rodrigues.

Conhecemo-las pela associação com infusões, feitas através das flores aromáticas e folhas triangulares, que acalmam os nervos e a barriga. Apesar dos benefícios ambientais que agora lhes reconhecemos, como remover metais pesados e outras partículas designadas por PM10 – partículas inaláveis de poluentes atmosféricos e que constituem risco para a saúde – não é isso que explica a sua abundante presença no meio urbano europeu. É devido a épocas em que o folclore domava as mentes e as árvores tratavam-se, efetivamente, por tu.

Desde que somos gente, existe uma relação entre a Humanidade e a madeira, transcendente de uma lógica utilitária, e carregada de um simbolismo que representa tanto a vida como a morte. Algumas árvores, como as tílias, envoltas na aura do místico e do tradicional, adquirem um estatuto de sagrado, de tal forma que serviam inclusivamente para os sarcófagos egípcios.

Nos primórdios do mundo europeu, a título de exemplo, era um pecado cortar tílias. Além de representarem a fidelidade e a capacidade de afastarem espíritos malignos, atuavam como polígrafos vegetais, pois diz-se que as juras de amor deveriam ser feitas à sombra destas árvores; só assim se saberia a verdade dos corações.

A literatura, nomeadamente romena, foi influenciada por este folclore em torno da árvore, o que tem que ver, além do mencionado acima, com uma cultura alicerçada na Natureza. Por cá, Florbela Espanca também nos sussurrou a sua tristeza através das tílias:

Diz-me a tília a cantar: Eu sou sincera,

Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,

Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,

Este ar escultural de bayadera…

Uma serpente de oiro que me enlaça…

Trago nas mãos as mãos da Primavera…

E é para mim que em noites de desgraça

E à minha alma vibrante, posta a nu,

Diz a chuva sonetos de Verlaine…

Já fui um dia poeta como tu…

Ainda hás de ser tília como eu sou…”

Em Portugal não existindo essa atmosfera, conclui-se que se trata de uma importação estética – atenta ao que se fazia nas ruas e jardins lá fora. E tudo começa no Jardim Botânico da Ajuda, a porta de entrada e um laboratório por excelência, onde eram feitas as experiências de aclimatação, antes das plantas serem difundidas pela cidade.

Nas ruas de Lisboa existem centenas de exemplares de tílias, de 11 espécies. Foto: Leonardo Rodrigues.

A tília consta no catálogo do JBA de 1771, elaborado por Domingos Vandelli, o diretor de então – e o primeiro. Comparados os registos, é uma das apenas 14 espécies que resistiram ao tempo e aos tempos nesse Jardim até hoje.

Se olharmos para os principais Jardins de Lisboa, como o Jardim do Príncipe Real, o Jardim da Estrela e o Jardim das Amoreiras é bem possível que o nosso olhar pouse numa tília, pois habitam centenas de exemplares de 11 espécies, sendo mais frequente o uso de uma espécie americana e outra dos Balcãs. Já a mais rara, a tília do Cáucaso, só se encontra num jardim, o Jardim Botânico de Lisboa.

Tílias emblemáticas 

Fora dos Jardins, são várias as tílias afamadas na cidade, algumas já cá não fazem sombra, outras só continuam por proteção dos moradores.

No Largo de Camões, existiram duas tílias frondosas, chamavam-lhas “as velhas tílias do Camões”. Em 1963, de acordo com Lisboa de Antigamente, as mesmas foram removidas aquando de uma renovação. Hoje é só uma memória distante de alguns, apaziguada por, atualmente, em redor do largo sermos envolvidos por muitas tílias.

Em 2016, também na forma de remodelação, as imponentes e conhecidas tílias da Rua Cidade de Manchester iriam ter o mesmo destino. Meses depois, chegaria a vez da rua irmã – na arquitetura e no arvoredo -, Rua Cidade de Liverpool, ser intervencionada. O grupo de vizinhos, com o apoio da Plataforma em Defesa das Árvores, não o permitiram.

O argumento da autarquia alicerçava-se na premissa de que “a população queria que saíssem as tílias”. Os moradores decidiram aferir com um inquérito, cujo resultado foi demolidor: a maioria queria as tílias. Um dos maiores lesados respondeu: “apesar de ter as raízes dentro de casa, quero as árvores”. Concluiu-se facilmente que os problemas tinham soluções: técnicas e de higiene urbana.

As tílias ficaram, e daí brota o que conhecemos hoje como Social street, cuja história já contámos na Mensagem.

Fruto do acaso, em Lisboa, nem vasos nem pedras da calçada. Ainda nesta rua, num protesto silencioso, foi colocado um vaso com uma Dracaena fragans [na foto], reservando o lugar para a tília abatida por engano no ano anterior.

Apesar da promessa de substituição, quando efetivamente reabilitaram as escadas, cobriram a caldeira da tília que não resistiu ao engano. Recentemente, desapareceu, talvez um presságio de que a substituição aconteça por fim.

Com mais ou menos fama, são das árvores mais abundantes nos arruamentos, sendo desde 1999 integrantes da lista de espécie não indígenas com interesse e arborização. A Av. Miguel Bombarda dá o exemplo, sendo a Avenida mais perfumada de Lisboa, e esse é um segredo que as tílias não conseguem conter.

Enquanto as estações se mantiverem coerentes, é certo que primavera após primavera, verão adentro, as tílias estenderão os seus tapetes amarelos que impregnam os ares de Lisboa.


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Leonardo Rodrigues

Nascido na Madeira, o seu coração ficou por Lisboa. Estudou comunicação na FCSH – UNL e fotografia no Cenjor. Depois de muitos ofícios, é a contar histórias que se sente bem. Acha que não existem histórias pequenas, anseiam é por ser bem contadas. Quando não está a escrever, é aprendiz de jardineiro. @leonismos no Twitter.

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