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Não são atores, mas viveram na pele este drama: o da habitação. A Mensagem até escreveu sobre algumas delas, como as “gaulesas” da Mouraria que lutaram para se manter no seu bairro. Desta vez, o espetáculo não é vivido entre papelada e burocracia nas paredes de casas sob ameaças de despejo: é num verdadeiro palco, onde se canta a Kantata do Tecto Incerto.

É um espetáculo que chega este domingo, 3 de julho, ao Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, pelas 17h. E que regressa uma semana depois, no dia 9, ao Largo da Achada, numa apresentação ao ar livre pelas 18h30.

É na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, na Mouraria, que se encontram algumas das histórias que inspiraram a poeta e dramaturga Regina Guimarães a escrever o texto deste espetáculo que depois seria transformado em canções. Uma dessas histórias é a de Susana Domingos Gaspar.

A Kantata do Tecto Incerto é um espetáculo sobre o direito à habitação. Foto: Inês Leote
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Um exercício com o título do espetáculo.

Quando a coreógrafa se mudou de Torres Novas para Lisboa, não sabia aquilo que a esperava. Mudara-se para estar mais perto do pai da sua filha Leonor, porém, perante as rendas altas da cidade, só conseguiu arrendar um quarto. Aconteceu então o impensável: o Tribunal impediu-a de viver com Leonor.

Hoje, Susana já vive numa casa com a filha, mas tudo graças à ajuda da mãe. Mas continua ativa no movimento do direito à habitação, que lhe permitiu manter a “sanidade mental” nos momentos mais difíceis. Por isso, quando a convidaram (e à filha) para participar num espetáculo sobre o direito à habitação, Susana não hesitou.

Este é um espetáculo cantado que, para Susana, representa “um momento catártico”. “Estou aqui, enquanto trabalhadora precária, a cantar como participante, como cidadã”.

Tornar a crise da habitação num espetáculo

A habitação era um tema que há muito preocupava a Casa da Achada, uma associação cultural com uma forte vertente política, especialmente porque basta espreitar para fora do seu edifício para se identificar prédios devolutos e alojamentos locais onde dantes morava gente.

“Este é um tema gritante que se impõe e que nos toca a todos nós”, diz Catarina Carvalho, da equipa de produção da Kantata do Tecto Incerto. “Uns porque estão a ver as rendas a aumentar, outros porque têm medo que as rendas aumentem, outros porque foram despejados ou porque já dormiram na rua”.

Catarina Carvalho integra a equipa da produção da Kantata do Tecto Incerto. Foto: Inês Leote

A ideia de trabalhar a habitação numa criação coletiva surgiu de experiências anteriores como a Kantata da Algibeira, um espetáculo comunitário sobre o tema do dinheiro realizado em 2013 pela Casa da Achada, e ainda a Philarmonique des Mots, um espetáculo sobre a comida realizado em 2010 pela Associação Cardan em Amiens, França.

A Kantata do Tecto Incerto arrancou com uma campanha de crowdfunding em 2020, a partir da qual se conseguiu angariar 13 mil euros. No entanto, a pandemia e a morte de uma das maiores impulsionadoras deste projeto, Margarida Guia (que dirigira a Kantata da Algibeira), atrasaram o seu arranque. Só em 2022 é que começou a dar-se vida a esta nova kantata, ouvindo-se as histórias da comunidade.

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Ana Gago e Maria João Costa são da associação Habita! e desde logo juntaram-se para dinamizar algumas conversas. Porém, mesmo elas tinham as suas próprias histórias para contar. Afinal, também elas são habitantes de Lisboa, e vivem aquela que é uma realidade para a maioria dos lisboetas: “Eu juntei-me à Habita! porque um dia recebi um telefonema da senhoria a dizer que eu tinha de sair daí a uma semana”, conta Ana.

A luta pelo direito à habitação levou-a a cumprir aquele que é também um dos princípios da Habita!: “Que as pessoas que nos procuram tenham todo o espaço para ficar na organização”, explica Maria João.

As pessoas foram então chegando, vindas de todos os lados, para contar as suas experiências. Ouviu-se de tudo: histórias de quem já viveu em carrinhas, de quem já viveu na rua, de refugiados que viam a sua casa como um abrigo para a guerra. A própria ideia do que é, afinal, uma “casa” foi tema de horas e horas de debate.

E de todas estas discussões nasceu, em março, o texto de Regina Guimarães que João Caldas e Pedro Rodrigues, da parte da composição e da direção, transformaram em música. “É muito emocionante: são canções sobre lutar, sobre os sítios, sobre o que é viver, há músicas que dão força, há outras que são mais introspectivas”, diz Ana Gago.

Tornar a canção numa ferramenta de luta

O primeiro ensaio com a comunidade foi em abril. As músicas já estariam prontas, não fosse esta uma criação coletiva, sempre sujeita a alterações. “Havia coisas que já trazíamos mais acabadas, mas há sempre coisinhas pequeninas a acrescentar para se criar novas texturas: novas brincadeiras, poemas, frases de luta ou de denúncia”, diz Pedro Rodrigues. “As vozes são diferentes, os timbres são diferentes, as pessoas são diferentes”.

A música do espetáculo ganhou novas texturas e dinâmicas com os intérpretes. Foto: Inês Leote
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Uma das canções do espetáculo.

São todas pessoas muito diferentes, mas é impossível não reconhecer a garra das três gaulesas da Mouraria que, neste espetáculo, têm direito a uma canção só sua: “O Rimance das Gaulesas dos Lagares”.

Em 2016, perante cartas do senhorio que anunciavam a venda do prédio onde moravam nos Lagares, Rosário Conceição, Carla Pinheiro e Alessandra Esposito começaram a luta, e lançaram mesmo uma música que circulou pela Internet.

Hoje, as gaulesas, o nome que lhes foi atribuído pelo ex vereador do Bloco de Esquerda Ricardo Robles por lutarem pela sua Mouraria como Astérix e Obélix lutavam pela sua Gália, participam neste espetáculo com as suas vozes. É uma nova luta, mas uma luta diferente. “Esta luta é melhor, é mais saudável”, diz Carla. “Para esta não levo armas”.

As “gaulesas” da Mouraria. Da esquerda para a direita: Carla Pinheiro, Alessandra Esposito, Rosário Conceição e Marlisa Conceição. Foto: Inês Leote

Não leva armas, mas leva a memória de tudo o que aconteceu: à custa de muito batalharem, estas três mulheres conseguiram a renovação do contrato das suas casas. Agora, já não vivem nos Lagares, mas sim em casas camarárias que lhes foram atribuídas pela Câmara. E hoje vêm acompanhadas de um novo membro gaulês: a Marlisa, filha de Conceição.

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Há músicas que resistem no tempo. “Como vai, senhor Contente? Como está, senhor Feliz? Diga à gente, diga à gente, como vai este país”. Poucos serão aqueles que ficam indiferentes a estes versos, cantados nas vozes de Nicolau Breyner e de Herman José. A primeira vez em 1975, na transmissão da rubrica humorística protagonizada por…

Marlisa tem apenas 16 anos mas adora teatro e por isso juntou-se a esta luta. Até porque cresceu a ver a mãe a lutar: “Foi um pouco difícil, cresci bastante ao ver a minha mãe”, conta. “Um dia, se acontecer comigo, vou conseguir ser como ela”.

É com estas palavras que se anuncia a hora de começo do ensaio. Mas, antes de se percorrer todo o espetáculo sem interrupções, afinam-se as vozes com trava-línguas, relaxam-se os corpos com exercícios de movimento e brinca-se com um trocadilho à volta do título do espetáculo: “kantata do tecto incerto, kantata do tecto incerto…”.

Aproxima-se o grande dia, mas os intérpretes estão mais que preparados. Têm as canções na ponta da língua e a atitude para continuarem a lutar. Nas palavras de Maria João Costa: “Este espetáculo é uma ferramenta de luta”.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Este evento não pode de todo deixar alguém insensível.
    Foi um trabalho de muitas horas que aconteceu para dar conhecimento a todos nós sobre o problema da habitação que privoca tanto sofrimento de luta atanta gente.
    A Casa da Achada, à qual eu pertenço, está sempre na vanguarda a tratar problemas atuais que mobilizam muitz gente.
    Obrigada a todos aqueles que se preocupam com as pessoas e que duma forma inédita a comunicam à comunidade.

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