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Há quatro anos, a vida seguia o seu ritmo normal, as pessoas tinham a sua vida, estavam ocupadas com os seus empregos e o seu dia-a-dia. Eu morava em Cabul e trabalhava no grupo Moby Media, a minha mulher, Roya, trabalhava num banco, e a nossa filha andava no jardim de infância.

Há quatro anos, depois de alguns rumores que se espalharam pelo país, os talibãs anunciaram pela primeira vez – após 18 anos de guerra – que estavam prontos para uma solução política do conflito no Afeganistão, sentiu-se que o país teria um futuro brilhante pela frente e que os combates terminariam um dia.

Esperava-se que a primeira reunião acontecesse entre os talibãs e o governo para discutir questões-chave sobre a paz e o futuro do país, mas o grupo recusou a participação da delegação afegã. Apesar disso, o povo alimentava grandes esperanças e todos celebravam o encontro como o primeiro passo crucial para a paz e a estabilidade no país martirizado pela guerra.

Após várias reuniões, finalmente, o enviado especial dos EUA para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, e uma figura-chave dos talibãs, Mullah Bradar, que era um dos líderes do grupo, reuniram-se em Doha, onde estabeleceram um acordo de princípio para trabalhar em formas de reduzir a violência no Afeganistão.

A partir desse momento, as esperanças de um futuro melhor foram aumentando, dia a dia, entre as pessoas, mas mantinha-se incerto o momento de uma reunião entre o governo e os talibãs para discutir a reconciliação. o tempo para uma reunião entre o governo e os talibãs era desconhecido.

Dezoito meses após as negociações EUA-Talibãs, as duas partes assinaram um acordo de paz em Doha, a 2 de fevereiro de 2020, concordando que os militares norte-americanos deixariam o país em 14 meses, o que não era aceitável para os afegãos, porque o povo sabia que se os militares americanos deixassem o país, começaria a guerra civil e os talibãs aproveitariam essa saída para tomarem o poder no país e mais uma vez o Afeganistão mergulharia em tempos sombrios.

Após a assinatura deste acordo, as crises políticas e económicas escalaram, levando a que as pessoas começassem a perder a esperança de um futuro de paz e estabilidade, sobretudo quando se percebeu que o país iria perder o apoio da comunidade internacional.

Ao desemprego, à insegurança e à crise económica veio juntar-se a primeira vaga da pandemia de covid-19 para agravar a situação, o que levou a que a ideia de deixar o país em busca de uma vida melhor ganhasse força entre as pessoas, que não faziam ideia de que destino as esperaria quando as tropas americanas deixassem o país e a república fosse destruída.

Nós éramos uma das famílias que estava a considerar sair do Afeganistão e ficar fora durante algum tempo até conseguir perceber se a situação melhoraria e seria possível regressar.

Uma decisão destas exigia a opinião da minha esposa Roya e da minha filha Sama. Falei com Roya sobre a situação do país e partilhei com ela a minha intenção de deixar o Afeganistão.

Nessa altura, devido à pandemia de covid-19, ela estava em casa com a minha filha Sama porque todos os jardins de infância tinham sido encerrados e ela teve que se demitir de seu trabalho.

Roya concordou em deixar o país porque não queríamos voltar a viver o que vivemos há 20 anos e tínhamos que pensar também no que queríamos para o futuro de nossa filha Sama. Há 20 anos, não havia liberdade para as mulheres, que não tinham permissão para estudar ou trabalhar. Embora não fosse fácil para nós tomar tal decisão, não havia alternativa. Era o nosso futuro e o de Sama que estava em causa.

Também partilhei a minha decisão com os meus amigos e os meus pais e queria saber suas opiniões, porque sabia que viver como refugiado era muito difícil e implicava enfrentar muitos obstáculos, mas a opinião deles foi unânime: se conseguíssemos, deveríamos deixar o país.

Até então tínhamos uma vida feliz e normal em Cabul, morávamos num apartamento, todos os dias eu e a minha mulher íamos trabalhar e a nossa filha ia para o jardim de infância. Nunca nos tinha passado pela cabeça imigrar, porque éramos felizes e apesar de todos os problemas, dos ataques à bomba e atentados suicidas, que aconteciam a cada dois dias em Cabul, ainda tínhamos esperança de poder viver em paz no nosso país, com a nossa família e amigos e trabalhar para o bem comum.

Mas naquele momento, a minha decisão final foi deixar o país e pôr a minha mulher e a minha filha a salvo das implicações de uma possível guerra. Pedimos o visto para diferentes países vizinhos, mas infelizmente não o consegui devido à situação de pandemia e quarentena. Decidimos esperar e candidatar-nos novamente.

As esperanças estavam perto do zero à medida que os acontecimentos se sucediam e os distritos, um a um, caíam, às mãos dos talibãs. Estávamos aterrorizados e profundamente preocupados.

Costumava acompanhar as notícias todas as manhãs e uma manhã fiquei chocado ao saber que a cidade de Zaranj, o centro da província de Nimroz, no oeste do Afeganistão, tinha sido tomada pelos talibãs. Foi um choque inesperado para todos que aquela província tivesse sucumbido.

Num curto espaço de tempo, mais províncias tiveram o mesmo destino, tornando claro o facto de que a situação estava a evoluir a um ritmo sem precedentes. Herat estava entre as maiores cidades do país a caírem nas mãos dos talibãs poucos dias antes da queda de Cabul. Com isto, era evidente que a situação estava a tomar a direção errada.

Estávamos em Cabul e todas as nossas preocupações se concentravam no que aconteceria se os talibãs entrassem na capital. Aumentavam os receios sobre possíveis combates em Cabul entre o que restava das forças da República e os talibãs invasores.

Dois dias após a queda de Herat, os talibãs aproximavam-se de Cabul. Eu estava a caminho do escritório e via as pessoas mais preocupadas do que nunca, em filas intermináveis à porta dos bancos para levantar as suas últimas poupanças.

Por todo o lado, só se falava da iminente queda de Cabul. Foi esse o assunto quando falei com os meus amigos naquela manhã. Um deles disse que os Talibãs iriam entrar na cidade naquele dia.

Eram 9h00 da manhã.

Horas mais tarde, fui informado pelos meus colegas de que os talibãs tinham entrado em Cabul. Toda a gente nas ruas a correr para casa.

Os líderes da minha empresa – eu trabalhava num canal de tv privado, a Tolo News – decidiram realizar uma reunião para perceber se eram verdadeiras as notícias de que os talibãs tinham entrado em Cabul. Marquei uma reunião com os chefes dos diferentes departamentos e, durante essa reunião, recebemos uma chamada a informar-nos que era verdade: tinham tomado o aeroporto de Cabul e dirigiam-se para o Palácio Presidencial.

A embaixada dos Estados Unidos da América em Cabul ficava a apenas alguns quarteirões do escritório de Samin Seerat. No dia em que os Talibãs entraram em Cabul, saía fumo negro do edifício e ouvia-se tiros por toda a cidade. Foto: Arquivo pessoal de Samim Seerat

Nesse momento, decidi que tinha de estar pronto para tudo. Aquilo a que assisto quando saí do escritório foi uma situação nunca vista. As ruas estavam inundadas de pessoas – desde vendedores de rua a altos membros do governo, homens, mulheres e crianças – toda a gente a fugir para as suas casas. O sistema de transportes da cidade tinha colapsado. As estradas estavam bloqueadas por engarrafamentos sem precedentes. Senti-me num estado de desespero extremo, senti-me perdido. Mulheres e crianças choravam. O medo do que ia acontecer quando os Talibãs tomassem a cidade era avassalador e geral.

O nosso escritório estava a apenas alguns quarteirões da embaixada americana. Do edifício saía um fumo negro, acompanhado do som de tiros de espingardas, metralhadoras e armamento pesado que chegava de todas as direções da cidade.

Apesar de todas as minhas preocupações, cheguei a casa uma hora depois. Perguntei à minha mulher, Roya, e à minha filha, Sama, como estavam. Elas não sabiam da entrada dos Talibãs em Cabul. Roya ficou preocupada ao ver-me ali, àquela hora do dia e perguntou-me se estava tudo bem comigo e porque tinha saído tão cedo do escritório. Eu disse que estava bem, mas dei-lhe a notícia de que os Talibãs tinham entrado em Cabul, o que a transtornou.

A minha filha Sama olhou para mim e perguntou se os Talibãs nos matariam a todos. Beijei-a e acalmei-a, dizendo que não, que não se preocupasse. Depois, liguei aos meus amigos e família para saber deles.

Havia relatos de talibãs a entrarem em casa das pessoas, agredindo-as, especialmente as que viviam em apartamentos. Entretanto, todos os prisioneiros tinham sido libertados. Os talibãs entraram no Palácio Presidencial e todas as instituições de segurança foram evacuadas.

Todas as ruas da cidade estavam vazias duas horas depois. As pessoas estavam escondidas nas suas casas, à espera do que ia acontecer. Os sons dos tiros aumentam à medida que a noite avançava. Estávamos tão assustados, sempre a pensar no que aconteceria se os talibãs entrassem na nossa casa.

Eu era um daqueles cuja vida estava ameaçada por trabalhar com instituições democráticas durante mais de uma década e nos media, que ao longo de vários anos foram um dos alvos dos ataques dos Talibãs. “O que acontecerá se os meus documentos caírem nas mãos dos Talibãs?”, perguntava a mim mesmo.

Estávamos com tanto medo e estávamos pensando no que aconteceria se o Talibã entrasse em nossa casa. Como o facto de o Talibã não gostar de atividades da mídia, é por isso que os meios de comunicação estavam sempre sob ameaça. E aqueles que trabalhavam com a mídia estavam todos em ameaça. Ao longo dos vários anos, todos nós testemunhamos vários ataques talibãs contra a mídia e também seus funcionários. Eu também fui um deles cuja vida estava sob ameaça de trabalhar com instituições democráticas por mais de uma década.

Ia ouvindo as notícias, da fuga do presidente à morte dos muitos que lutaram e resistiram aos talibãs naquele dia. Nas redes sociais, as fotografias a mostrarem membros talibãs dentro do Palácio Presidencial.

Quando vi aquelas fotos, perguntei-me onde iríamos parar, o que tinha acontecido às conquistas dos últimos 20 anos, às vitórias que alcançámos às custa da perda de vidas dos nossos entes queridos? Estas e muitas outras perguntas inundavam-me a cabeça como se estivesse noutro mundo, separado daquele em que tinha estado até ali – na verdade, até àquela manhã.

A situação era má. Não se dormiu naquela noite. Sentimos que estávamos numa prisão.

No fim de contas, fomos atirados para uma crise mais profunda, uma crise sem um fim à vista. A data desse dia era 15 de agosto de 2021, um domingo que nunca será esquecido pelo povo do Afeganistão nem pela história.

Voltarei a escrever mais sobre os incidentes que se seguiram à queda de Cabul.


* Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News.  É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.


[English version]

Hopes turned to Darkness. Fall of Kabul

Four years ago, all people had their normal lives and everyone was busy with their jobs including me and my family.  We were living in Kabul and I was working in Moby Media group and my wife Roya was working in a bank and our daughter was also going to kindergarten.

During that time some rumors were spread about Taliban delegations around the country and, after a while, the Taliban announced, for the first time after 18 years of war, that they were ready for political solution to the conflict in Afghanistan. It was felt that the country will have a bright future ahead and the fighting will end one day.

The first meeting was expected to happen between the Taliban and the government to discuss key issues on peace and the country’s future, but the group refused to allow the participation of the Afghan delegation – despite there were high hopes and everyone were celebrating the meeting as the first crucial step towards peace and stability in the war-hit nation.

After several meetings, ultimately, the US special envoy for Afghanistan, Zalmay Khalilzad, and a key figure from the Taliban, Mullah Bradar who was the deputy leader of the group, met in Doha where they agreed in principle to work on ways to reduce violence in Afghanistan.

Since then, the hopes were rising among the people, day by day, about a better future, but the time for a meeting between the government and the Taliban to discuss reconciliation was unknown.

Eighteen months after the US-Taliban negotiations, the two sides signed a peace agreement in Doha on Feb. 2, 2020, agreeing that American military will leave the country in 14 months, which was not acceptable for Afghans, because the people knew that if the american military left the country, civil war will be started and the Taliban will use of the occasion and will take over the country. And once again Afghanistan will be led to dark days.

After the agreement signed, political and economic crises were increased day by day. People who believed that they will have a better future lost their hope, especially when the country lost the international community’s support.

The country was facing unemployment, insecurity and economic crisis but the economic situation became worst by the first wave of the coronavirus. The people had no idea what will be the country’s fate once the US troops will leave and the republic will end. All these conditions made the people to leave the country to have at least a peaceful life.

We were one of those families who were thinking to leave Afghanistan and go to another country and stay for a while, until we could made a decision on whether to return to our country or not.

Such decisions required to have deliberation with my wife Roya and my daughter Sama. I talked with Roya about the situation in the country and shared my decision about leaving Afghanistan. During that time, due to pandemic of covid-19, she was staying at home with my daughter Sama because all kindergartens were closed and she had to resign from her job. She also agreed to leave the country because we did not want to have the same experience which we had 20 years ago and also it was about our daughter Sama’s future.  

In the last 20 years there was no freedom to women. They were not allowed to study or work. It was not easy for us to make such a decision but we had to decide because of our daughter Sama’s future and our future.

I also shared my decision with my friends and my parents and wanted to know their opinions because I knew that living as a refugee is hard and is accompanied by many complications. Their opinion was also to leave the country if we could make it happen.

We had a happy and normal life in Kabul and we were living in an apartment. Every day me and my wife were going to our jobs and our daughter was going to kindergarten. And we never thought about leaving the country before because we were happy and despite all problems like bomb attacks and suicide attacks which were occurring every another day in Kabul we still had hope to live in our country with our family and friends and work for the betterment of our country.

Despite all these, my final decision was to leave the country and be safe from the implications of a possible upcoming war in the country.

We applied for visa to different neighborhood countries but unfortunately I did not get the visa due to quarantine situation. We decided to wait awhile and apply again.

Hopes were near to zero because many things were happened around when it came to back-to-back fall of districts to the Taliban. We were terrified and extremely worried.

I used to follow news every morning. I was shocked one morning when I found out that the city of Zaranj, the center of Nimroz province in the west of Afghanistan, has fallen to the Taliban. It was surprising for everyone how the province fell to the group.

More provinces fell to the Taliban in a short time, making clear the fact that the situation was evolving in an unprecedented pace.

Herat was among one of the biggest cities in the country that fell to the Taliban just days ahead of the fall of Kabul. With this, things were more evident that things were heading towards the wrong direction.

We were in Kabul, so concerned what will happen next if the Taliban enters the capital city. Fears were growing over a possible fighting in Kabul between the last batches of the republic forces and the invading Taliban.

Taliban were getting closer to Kabul, especially two days after fall of Herat. I was on the way to office when I saw people, looking concerned than ever, forming long ques outside banks to withdraw their last savings. Everywhere were talks about fall of Kabul when I talked to my friends that morning. One of them said the Taliban will enter the city today. It was 9am. Hours after that, I was informed by my colleagues that Taliban has entered Kabul. Everyone was rushing to go home.

The company leadership decided to hold a meeting and share the real news to our colleagues whether Taliban has entered Kabul – or not. I arranged a meeting with heads of different departments. We received a call during the meeting that Taliban has entered Kabul and that they are inside the Kabul airport and are heading towards the Presidential Palace.

When finding the report, I decided to be ready for any type of situation. It was a never-seen situation outside when I left office. Streets were flooded with people – from street vendors to high-ranking government, men, women and children – everyone was rushing towards their homes. The city transportation had collapsed. Roadblocks were unprecedented. I found myself in a state of extreme hopelessness and being lost. Women and children were crying as they were scared of what will happen next as Taliban gunmen were in the city.

Our office was just few blocks from the US embassy. A dark smoke was coming out of the embassy compound, accompanied by gunfire and heavy weapons that came from many directions in the city.

Despite all my worries I reached home after one

Despite all my worries an hour later I got home and asked my wife Roya and daughter Sama about how they were. However, they were not aware of the Taliban entering to Kabul. Roya got worried about seeing me at home at that hour and asked me if was everything ok with me and why i came from office.

I told her not to worry i am fine. Taliban have reached to Kabul. When she heard this news she got upset and my daughter Sama asked me: do Taliban kill all of us? I kissed Sama and said no, do not worry. Then I called my friends and family to know about their condition.

There were reports about Taliban entering people’s homes, harassing people, especially those living in apartments. Meanwhile, all prisoners were freed. Taliban had entered the Presidential Palace and all security institutions were evacuated.

All streets in the city were empty two hours after that. People were hiding in their homes and were waiting what will happen next. The sounds of firings were increasing as the night was entering. We were so scared and were thinking about what will happen if Taliban entered our house. As Taliban did not like media activities, media and those working with were always under threat. Over several years, we have all witnessed of several Taliban attacks on media and also their employees. I was also one of them whose life was under threat for working with democratic institutions for over one decade.

I was following the news as time was passing. It was from the president’s escape, to the death of many in fighting with Taliban fighters that day. Photos were published on social media, showing Taliban members inside the Presidential Palace.

Seeing those pictures, I wondered where we were heading, what happened to the gains of the last 20 years, what happened to the achievements we gained with the loss of our loved ones? These and many other questions were rounding in my head as if I was in another world separate from the one I have been so far – in fact that morning.

Things were not good. There was no sleep that night. We felt being in prison.

All and all, we’re thrown to a deeper crisis, the one with no clear end. The date of that day was August 15, 2021 on Sunday, which will never be forgotten by the people of Afghanistan and history.

I will write more about the incidents that followed the fall of Kabul.

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1 Comentário

  1. Uma crónica angustiante, mas importante. Precisamos de saber e estar conscientes das dificuldades que passa quem é forçado a sair do país, para sermos pessoas mais empáticas e humanas. Obrigada Samin

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