Parece difícil de imaginar que na pacatez de uma vila como Alhandra, Vila Franca de Xira, mora um pedaço da história de Nova Iorque. É a vida, e o penteado, de Joaquim Calçada, 74 anos, que o traz.

Em Alhandra, onde ele nasceu e onde regressou anos mais tarde, reformado, é conhecido como “Elvis”. O cabelo, em popa e preto que nem noite de breu, não é consequência de nenhuma admiração especial pelo cantor americano. É antes um reflexo do seu estilo de vida: sempre no limite, pronto para marcar a diferença, aqui ou noutro canto do mundo.

Na vila, distingue-se pelo cabelo e pela casa: uma pequena vivenda à face da estrada, em tons de castanhos e cor-de-rosa vivo, com laços e flores desenhadas e pintadas nas bermas das janelas. Mas até nos EUA deixou a sua marca.

Esta é a história de um homem que tinha tudo para dar um filme. E deu.

À porta, Joaquim fala com uma vizinha, que nos alerta: “Cuidado, que ele pode ficar horas a conversar”. Já dentro de sua casa, o próprio confirma o perigo: “Não sei se tens horas de gravação suficientes”. Até teve de estudar a matéria. “No outro dia, estava na cama e a contar a história em voz alta, para ver se me lembrava de tudo.”

Parte desse “tudo” está hoje gravado num filme realizado por Susana Nobre e que deverá ser exibido em Portugal entre 9 a 20 de junho, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema de Berlim – “No Táxi do Jack”. Joaquim garante que muito ficou fora do grande ecrã.

O menino que se tornou mecânico de aviões americanos

Se há memórias que Joaquim conta com certo gozo, o seu início de vida não é uma delas. É com um olhar mais sofrido que lembra: um menino nascido em Alhandra, filho de pais analfabetos, trabalhadores precários nas fábricas da zona e, naquele tempo, sem um único brinquedo. A criança que foi encontrava-os na rua, latas de conserva para fazer pequenos carros a trilhar a terra batida ou de paus, quando a brincadeira era mais séria e deles nasciam pistolas faz-de-conta.

A infância foi curta. Com 13 anos, o pai põe-no a trabalhar na antiga fábrica Cimianto, em Alhandra. Ali, arregaçou as mangas para, durante um ano, dar seguimento a telhas de fibrocimento, um material à base de amianto – que agora todos sabem ter propriedades cancerígenas. Até que, também através do pai, chega às OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal, com apenas 14 anos. “Porque, em Portugal, havia só três possibilidades de evitar ir para a guerra colonial: ir para a pesca do bacalhau, ir [trabalhar] para o material de guerra ou ir para as oficinas gerais.”

Era ele e mais “48 moços”, crianças com idade para o serem. Depois de seis meses à experiência, foi encaminhado para um hangar onde se consertavam aviões da British Air Force e da U.S. Navy. Foi o primeiro contacto com estrangeirismos, sem imaginar que estrangeiro seria, um dia, para ele, o seu Portugal.

Na sua casa, erguem-se vestígios do que foi a sua vida profissional (e hobbies). Foto: Rita Ansone

A primeira barreira foi a língua. Na família pobre em que crescera- pouco – aprender era um luxo e ele não o teve. Por isso, de cada vez que tinha de lidar com “cartas” que chegavam em inglês, Joaquim via-se numa encruzilhada de palavras sem sentido na sua cabeça.

“Digo assim para um rapaz chamado Silvestre: ‘E se a gente for para a escola aprender inglês?’. Dizia-me ele que era caro. E era. Fomos a Vila Franca de Xira saber: queriam 100 escudos por mês. Então, combinámos: o Silvestre ia para a escola das 20 às 23 horas, depois do trabalho na OGMA, e depois íamos os dois para um cafezinho para ele me dar a matéria toda que aprendeu. Eu pagava-lhe 40 escudos.”

Durante meses, à noite, quem passava pelo antigo café “Viúva” no largo da estação de Vila Franca de Xira – hoje, o “Pérola do Ribatejo” -, avistaria dois jovens sentados frente a frente, alheios às conversas paralelas. E só falavam em inglês. Foi assim durante meses. Diz Joaquim que o foco era tanto que chegaram “ao ponto de proibir falar um com o outro em português”.

O cabelo preto e emproado de Joaquim ainda traz a América consigo. Foto: Rita Ansone

No dentista, recebeu o passe para entrar na América

Chegada a idade adulta, era chegado também o momento de arrancar em missões internacionais pela OGMA. A primeira foi na Guiné, para oficinas de aviões, “ganhar cinco vezes mais, em missões de quatro meses”. Depois, Angola, por duas vezes, durante seis meses. Mas a solidão não combinava com ele e, na última ida para Angola, quis levar também a mulher. Uma decisão que o atirou imediatamente para os EUA, ainda sem ele o adivinhar.

“Ela precisava de certificados médicos para emigrar e fui aqui a um dentista, o Fernando. Começo a contar-lhe a minha história e ele fala-me de um cunhado dele que trabalhou na OGMA e que agora está na América. Foi para a casa de um senhor que recebe lá todos os portugueses. Pensei: ‘Ai é, espera lá que quando eu chegar de Angola, trato disso. Venho cá perguntar-lhe como vou para a América’.” A ideia de emigrar definitivamente já lhe rondava a mente há alguns anos: “Aqui, trabalhas, trabalhas, trabalhas e nunca sais da cepa torta, vai-se vivendo.”

Regressado à base, depois da última missão em Angola, Joaquim vai novamente ao dentista, para dar aso aos planos com que ficara a sonhar todos aqueles meses. O clínico deu-lhe as indicações. Não demorou muito até ao primeiro voo para o continente americano. Aconteceu em setembro de 1972.

Deram 12 dias para Joaquim regressar a Portugal, mas isso só aconteceu meses depois, tendo ficado ilegal nos EUA durante todo esse tempo. Foto: Rita Ansone

Com ele, levava apenas 300 dólares. “Era tudo o que tinha.” Hoje “não é nada”, diz, mas na altura “dava para mais”. Na cidade de Newark, no estado de Nova Jérsia, vizinha de Nova Iorque, encontrou abrigo na tal casa, tal como lhe tinham prometido. Lembra-se como se fosse hoje: ele, um homem alto já com muito estilo, de cabelo longo e calças à boca de sino bem vincadas – “pedia à minha mãe para acrescentar mais tecido à parte de baixo das calças, para ficarem ainda mais largas”.

O teste ao volante das ruas de Nova Iorque

Foi com visto de turista, que dava para 12 dias nos EUA. Joaquim ficou três meses, ilegal. E regressou. Entretanto, trabalhou nas limpezas, em oficinas e até como porteiro em Yorkville, antes de decidir ganhar trocos nas horas vagas como taxista em Nova Iorque.

As peripécias que tem para contar chegam em catálogo: desde ter pedido a um sapateiro que lhe emprestasse 20 mil euros para que a Embaixada visse ser detentor de muito dinheiro e permitir a viagem, até às noites a dormir com um espanhol com “dois polegares numa só mão”, já na América.

Já há cerca de três meses por lá, para além da legalidade do visto, chamou a mulher para ser doméstica nos EUA. Essa seria a única via para conseguir legalizar-se, e através dela – pelo menos era o que lhe diziam. O processo passou por Portugal e, por isso, Joaquim teve de largar a vida americana por uns tempos, para vir fechar a burocracia do outro lado do Atlântico. Longe de imaginar que não seria por meras horas. A Embaixada Americana não lhe facilitou a vida, como nunca facilita. Não voltou aos EUA senão ao fim de três meses do pedido, quando acabou por ver o visto aprovado.

Diz ter gostado da vida como taxista nas duas de Nova Iorque, onde cada dia era um dia diferente. Foto: Rita Ansone

O que se seguiu, soa a deja vú mas desta vez em terras americanas: tal como, há vários anos, ele e o colega Silvestre tinham engendrado uma artimanha para aprender inglês, agora, era ele e um irlandês a combinar o início de uma carreira ao volante dos famosos ny cabs, os carros amarelos da cidade que nunca dorme.

Primeiro, a ideia pareceu descabida: “Estás maluco? Mas a gente nem conhece a cidade toda.” Depois, o que se estranhou entranhou mesmo.

Chegados à Hudson Street, a sul de Manhattan, a uma garagem de táxis, pediram trabalho para as horas vagas. Mas, antes, um teste: “Tínhamos 26 perguntas e acertar pelo menos 15. Perguntavam coisas como se ia até aeroporto John F. Kennedy em hora de ponta”. Joaquim acertou 16. “Foi a minha desgraça, fui para taxista”, diz com humor. A partir desse dia, tinha carta branca para navegar ao volante dos carros amarelos. Das cinco da tarde à meia noite.

Foi aí que começaram a maior parte das histórias que tem para contar, e que conta no filme. O nome da família Kennedy, por exemplo. Não raras vezes, Joaquim era chamado para transportar Jacqueline Kennedy, a ex-Primeira-Dama dos EUA. “Era uma viagem curta, por isso, quase ninguém aceitava o pedido, mas eu gostava muito de falar com ela. Entrava no carro, chama-me ‘Jack’ e falava sempre de bacalhau, que era aquilo a que ela nos associava”. A história de uma nação resumida a um peixe graúdo numa conversa de táxi em Nova Iorque.

No banco de trás, levou também Muhammad Ali, o famoso ex-pugilista americano. “Não falámos, ele estava já muito mal”, diagnosticado com doença de Parkinson e estenose espinhal. Acabaria por falecer em 2016, no estado de Arizona, hospitalizado com problemas respiratórios.

Mas houve vezes em que trocou o amarelo do carro por limusines, onde levava corretores de bolsa para as suas vidas boémias, depois e antes do trabalho nos escritórios. Apesar dos vidros fumados, Joaquim diz ter-se habituado a ver de tudo lá atrás. “O que eu gostava daquilo. Cada dia era diferente.”

A fuga para o Brasil foi a sentença

Com o trabalho arrastado noite dentro, uma das faturas foi o fim do seu casamento. Mas Joaquim, ali ‘Jack’, não era de se ficar por um amor só e “numa danceteria”, conheceu uma mulher brasileira que o levou, não muito depois, a emigrar para o Brasil. Lá, gastou quase tanto quanto tinha arrecado nos EUA e a sentença foi proclamada: mais um casamento falhado e o regresso inevitável a Portugal.

Joaquim posa no centro de Alhandra, onde é conhecido por “Elvis”. Foto: Rita Ansone

Chegou “ali por volta de 2011”, no pós crise, com uma vida ainda por concluir, mas sem trabalho. Pousou as malas em Alhandra, onde viria depois a ter casa. Regressou às OGMA, porque todo o currículo português que tinha era com aviões. Mas não por muito tempo.

“Deixou de se fazer trabalho na reparação. Viram que não tinham trabalho, agarraram nos mecânicos e meteram-nos onde havia mais trabalho, que era na fabricação. Éramos 56, velhos. Mas pensaram: davam o curso à malta mais nova e pagavam o ordenado mínimo, em vez de terem de acatar com os ordenados mais altos dos mecânicos. Mandaram-nos para o fundo de desemprego, com indemnização, e fomos para as Novas Oportunidades.”

O desemprego foi a primeira deixa para o filme do qual se tornaria protagonista. Foi no Centro de Novas Oportunidades de Vila Franca de Xira que conheceu a realizadora Susana Nobre, que estava há anos a apontar uma câmara para pessoas desempregadas chegadas ao programa – ali fizera já antes filmes como “Vida Activa” (Doclisboa, 2013) e “Provas, Exorcismos” (Quinzena dos Realizadores de Cannes, 2015). Em “No Táxi do Jack”, Susana Nobre parte da história de vida de Joaquim Calçada para fazer um retrato do desemprego em Portugal.

Reformado de tudo, menos do penteado

Agora reformado, a vida de ‘Jack’ é mais pacata, tal como a vila onde mora – longe de ser o que via por Nova Iorque. O penteado, esse, continua a marcar pela diferença. E apesar do estilo americano que enverga, há pelo menos algo que nunca mudou no decorrer dos anos: nos EUA ou no regresso a Portugal, Joaquim continua a cantar o fado por aí fora, amadora e apaixonamente, como quem vinca o lugar a que sempre pertenceu.

Num pequeno rádio, o homem onde a América ainda corre nas veias mostra-se a cantar fado. Foto: Rita Ansone

Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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