Rosa Casimiro, da Plataforma em Defesa das Árvores. Foto: Libia Florentino

“As árvores foram feitas para durar mais do que nós. É contra a ordem das coisas vê-las morrer e sobretudo vê-las serem abatidas”, diz Rosa Casimiro, da Plataforma em Defesa das Árvores. Rosa, que ama a majestosa floração dos jacarandás, dedica a mesma atenção a choupos, tílias, ulmeiros ou peneiras, entre outras espécies, exóticas ou nativas, que caracterizam o património arbóreo de Lisboa. Um património cada vez mais delapidado, como a Plataforma que integra não cessa de denunciar no blogue, no seu grupo de Facebook ou  junto dos poderes autárquicos.

Este movimento iniciou-se em 2015, no momento particularmente sensível em que a responsabilidade sobre o arvoredo passou da Câmara para as juntas de freguesia, sem que houvesse um documento que regulamentasse as práticas. “As freguesias podiam pura e simplesmente fazer o que lhes apetecesse, muitas vezes com pouca preparação técnica. O que levou, por exemplo, à destruição dos freixos da Avenida Guerra Junqueiro, entre outras medidas pouco recomendáveis, desde abates injustificados a podas mal feitas e fora de época um pouco por toda a cidade.”

Abate de árvores na Faculdade de Letras de Lisboa, denunciado pela Plataforma Foto: grupo de Facebook da Plataforma em Defesa das Árvores

Na Plataforma, juntam-se as vozes de vários movimentos e associações com preocupações comuns: Árvores de Portugal, Associação Lisboa Verde, Associação Salvar o Jamor, Fórum Cidadania Lx, GEOTA – Grupo de Estudo de ordenamento do Território e Ambiente, Grupo de Amigos da Tapada das Necessidades, Grupo de Amigos do Príncipe Real, Grupo Ecológico de Cascais, Liga dos Amigos do Jardim Botânico, Plataforma por Monsanto, Plantar Uma Árvore e a Quercus.

A Plataforma tem conseguido algumas vitórias, como a preservação das tílias e uma olaia nas Escadinhas da Rua Cidade de Manchester após mobilização dos moradores do Bairro de Inglaterra, na freguesia de Arroios

Rosa Casimiro criou a Plataforma em Defesa das Árvores para que fosse mais séria a luta em prol do arvoredo. Foto: Líbia Florentino

“A nossa primeira preocupação foi endereçar cartas a todas as juntas de freguesia, no sentido de nos colocarmos à disposição para o que entendessem necessário e de as alertar para a gravidade da situação. As respostas foram poucas e não muito positivas. Na maior parte dos casos, era como se os tivéssemos a atacar pessoalmente, o que não era de todo o nosso objetivo ”, lembra Rosa.

O aparecimento, em 2015, de um regulamento municipal sobre arvoredo não bastou para melhorar a situação, antes de mais porque a sua aprovação ficaria num impasse durante quase três anos, o que “deu tempo para muito disparate.” Mas mesmo depois da sua entrada em vigor, as más práticas continuaram. Às vezes por iniciativa das freguesias, outras até do próprio município.

Nem todas as árvores se abatem

É o que está a acontecer no Jardim de Belém, “onde estão a ser abatidas árvores consideradas saudáveis em relatório fitossanitário para serem substituídas por outras, consideradas mais adequadas ao projeto arquitetónico para o espaço.”

Em casos como estes, a Plataforma escreve cartas (várias das quais podemos consultar no seu blogue), interpela, pede justificações, o que obviamente gera muitos anticorpos. “Ainda é frequente que, contra o estabelecido no regulamento, as juntas de freguesia abatam árvores sem aviso prévio afixado no local. Aconteceu recentemente em Alvalade, por exemplo. Nestes casos insurgimo-nos veementemente.”

A transformação nas Escadinhas da Rua Cidade de Manchester Foto: Instagram/Júlio Pereira

Nestes quase seis anos de intervenção, a Plataforma tem conseguido algumas vitórias, como a preservação das tílias e uma olaia nas Escadinhas da Rua Cidade de Manchester após mobilização dos moradores do Bairro de Inglaterra, na freguesia de Arroios. “O empenho da comunidade foi determinante”, salienta Rosa.

Mas também algumas derrotas, como é o caso do parque do Palacete Mendonça, situado na Avenida António Augusto Aguiar, propriedade da Fundação Aga Khan. “Quando as obras tiveram de ser licenciadas, foi pedido um parecer sobre o jardim a uma arquiteta paisagista (o jardim é classificado e por isso esse passo era obrigatório) e esta, no seu relatório, sugeriu a não aprovação do projeto proposto pelos atuais proprietários, já que este contemplava o abate de muitas árvores, a construção de parque de estacionamento subterrâneo e a construção de um lago, entre outras coisas. O que se passou a seguir foi o costume: todos os pareceres foram ignorados e o projeto foi aprovado. O palacete e os jardins estão totalmente nas mãos dos proprietários que fazem dele o que quiserem. De nada serviu a classificação de monumento nacional.”

E há outros pontos críticos na cidade, como “o Parque Florestal do Monsanto, que vai sendo reduzido de forma discreta, mas evidente.”

As mentalidades estão a mudar

Apesar da prevalência de situações como esta, Rosa Casimiro acredita, no entanto, que as mentalidades estão a mudar e que há uma nova consciência dos cidadãos nesta matéria: “Claro que ainda há grupos de moradores que se insurgem contra a existência de árvores que supostamente lhes sujam os automóveis ou que lhes retiram, dizem, um lugar de estacionamento, mas a maioria não é assim. O que aconteceu nas Escadinhas de Manchester é sintomático de algo maior e que é novo na sociedade portuguesa: há uns 30 anos, o abate de uma árvore com décadas de vida era encarado com indiferença.”

“O que aconteceu nas Escadinhas de Manchester é sintomático de algo maior e que é novo na sociedade portuguesa: há uns 30 anos, o abate de uma árvore com décadas de vida era encarado com indiferença”

Rosa Casimiro, Plataforma de Defesa das Árvores

Hoje, há uma consciência de que as árvores são parte fundamental da vida das cidades e não um pano de fundo que se pode mudar como e quando se quer. Prova disso mesmo são os grupos de defesa do arvoredo que estão a surgir de Norte a Sul do país e que vêm frequentemente dar o seu testemunho no blogue da Plataforma. “As pessoas estão a aprender que as árvores não são descartáveis. Resta-nos esperar que as autarquias façam o mesmo caminho.”

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Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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